segunda-feira, 3 de julho de 2017

O DIA EM QUE A CIDADE VIROU SERTÃO


Tinoco, mito da música caipira, foi homenageado em Maringá, em 2009, com show cuja renda foi revertida para tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer

(Texto e foto: Airton Donizete)


Tinoco posa para foto na Cerealista Pantaneira, de Maringá; ele esteve na cidade para show no Clube Olímpico, em 2009, cuja renda foi destinada para tratamento de saúde da mulher dele, Nadir, que viria a morrer logo depois, vítima de câncer




O telefone toca. Era o Aníbal, compadre do Tinoco, convidando o Fregadolli (da Revista Tradição) para almoçar na Cerealista Pantaneira. No cardápio, frango caipira e polenta. Mas a atração principal era o próprio Tinoco que se preparava para o show em sua homenagem no Clube Olímpico, de Maringá. A renda do evento foi revertida para custear tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer.
 Eu fui junto, pois era a oportunidade de entrevistar Tinoco, um dos últimos representantes da música caipira. De camisa vermelha, calça branca e óculos escuros, nos aguardava. Ele autografava alguns DVDs que seriam vendidos no show, mas logo me convidou para ir a uma salinha ao lado, pois tem dificuldade para ouvir.
Pena que o tempo era curto. Tinoco tinha de almoçar e cumprir alguns compromissos antes do show. Um personagem como ele é uma espécie de poço cujo fundo ainda não foi atingido. Sempre é possível cavar mais um pouco. E lá fui eu com minha cavadeira, ou melhor, meu gravador.
José Perez, o Tinoco, nasceu em 19 de novembro de 1920 em Platânia (SP) e João Salvador Perez, o Tonico, em 2 de março de 1917 em São Manuel, no mesmo Estado. Começaram a cantar como Irmãos Perez, mas logo foram batizados pelo Capitão Furtado, apresentador do programa “Arraiá da Curva Torta”, na Rádio Tupi.
Não demorou muito, e o palhaço Saracura lançou o bordão: ‘Dupla Coração do Brasil’. O apresentador Dárcio Campos passou a chamá-los de ‘Os expoentes máximos da música sertaneja’. Daí em diante, a história é longa e só mesmo Tinoco para nos contar um pouco dela, bem ao seu estilo com aquela linguagem caipira que não se ouve mais. Afinal, pelo menos por um dia, a cidade virou sertão. Veja trechos do dedo de prosa, a seguir.

Fale um pouco da carreira de Tonico e Tinoco?

TINOCO – Nossa carreira começou quando me conheci por gente. Naquele tempo, não tinha foinha. Minha mãe era índia. Eu cantava fininho e o Tinoco mais grosso. A gente fazia versinho assim: “O tatu casou com a onça, a onça ranhou o tatu”.
Nós morava na roça, no sertão de São Manoel. Apredemo compor, tocar, sem ouvir ninguém. Então, sempre falo: quem deu a mão pra nóis foi Deus. Abraçamo o dom que Deus nos deu. Foram 72 anos de carreira.
Platânia fica a 15 quilômetros de São Manuel. Eu andando lá com o prefeito vi uma casinha de madeira onde nóis moramo 80 anos atrás. Aí, o prefeito desmontou ela e levou pra Platânia e fez uma casa curturar. Lá, está todo nosso acervo. Nas paredes, tem o sinal da fumaça da lamparina. O mesmo fugão de lenha onde minha mãe cozinhava. A taipa onde nóis esquentava fogo. Naquele tempo, não tinha cuberta pra aquecer. Tudo isso aconteceu na década de 40 no começo da nossa carreira.

A carreira de vocês deslanchou quando o Capitão Furtado batizou-os?

A gente já cantava antes, mas ali começou tudo. Ele deu nome e levou nóis pra gravar. Foi o primeiro passo. Foi na Rádio Difusora, que depois passou a chamar Tupi. Era do grupo das Emissoras Associadas comandadas por Assis Chateaubriand. Ele disse que a gente precisava de um nome bem caboclo.  
E deu certo. Tamos aí até hoje. Digo tamos porque depois que o Tonico morreu, vai fazer 14 anos no próximo dia 13 de agosto, eu me senti obrigado a manter a estrada de Tonico de Tinoco.
E Deus me ajudou. Gravei três CDs cantando a voz do Tonico fazendo a segunda e a primeira. Tive uns parceiros, mas não deu certo. Agora, eu faço dupla: Tinoco e Deus. O amor do povo é uma beleza. Você vê a juventude, 80% no meu show. E nossas músicas, não têm uma que inventamos. É tudo história de vida. Por isso que elas entram no coração e não sai mais.
      
Tonico e Tinoco vieram muitas vezes ao Norte do Paraná?

Nossa... Nóis ajudamo a desbravar isso aqui. Quando nóis vinha aqui tavam derrubando mato. Olha, tudo é coisa por Deus. Os pais e o filho mais velho vinha comprar terra nesse trecho de Londrina a Mandaguari. Vinha com dinheiro pra pagar a terra. E já contratava camarada pra derrubar mato. Tudo isso a gente acompanhava.

E Maringá?

Vim pra cá quando não tinha estrada. Só jipe pra chegar. Muita gente acabava de chegar de carroça. Se a família era grande, vinha três, quatro carroças. Uma trazendo mantimento. Tinha mais dois cavalos amarrado atrás; quando um cansava, ponhava o outro. Eu e o Tonico não tinha onde comer. Então, eu chegava lá onde as carroças tavam na horinha do almoço. Eles convidava pra almoçar, e eu levava um caldeirão pra trazer, era pra comer no outro dia.
Eu com o Tonico levava uma caneca só pra beber água. Em qualquer riozinho de beira de estrada você baixava e bebia. Não tinha poluição.

Você disse que as músicas de vocês contam histórias reais, por que hoje não se faz mais músicas assim?

Não... hoje é tudo descartavi... Tem cantor que repete uma linha 10, 20 vezes. Outro só quer chacoalhar a bunda pra dançar. Mais, nóis, Tonico e Tinoco sempre desviamo disso. Não é só agora, não. Lá atrás também.

Certa vez, a gravadora quis que vocês usassem uma roupagem moderna e vocês não aceitaram?

É... houve isso. Foi quando o Roberto Carlos e a Jovem Guarda estourou. Por que essa roupa lumiante aqui? Quis saber. A gravadora (Continental) falou: “Vou mudar vocês”. Eu falei:”Mudar como?”. Vocês vão sair num carro sem capota pra mostrar o novo visuar. Falei, não. Para, para...
Depois disso, esperei dois anos pra gravar. Até passar aquela onda.

Quantos discos Tonico e Tinoco gravaram?

Não dá nem pra contar. Quando fizemo 50 anos de carreira era 80 LP e quase 300 de 78 rotações. Aqueles que têm uma música de cada lado. Temos bastante também daqueles disquinhos que saiu na década de 70, aqueles que tinha que pôr um peso em cima da agulha pra conseguir tocar. Músicas? Contando tudo que gravamos e fizemos passa de 1500.

Batidas na porta. É o compadre (do Tinoco) Aníbal que vem chamar Tinoco para almoçar, pois um canal de TV espera-o para gravar. Tenho de encerrar a entrevista. À noite, centenas de fãs aplaudiram-no no Clube Olímpico. Acompanhado de Juliano César, Márcia Mara, Zé Paulo, Gilberto e Gilmar, Léo e Giba e Teodoro e Sampaio, Tinoco cantou alguns de seus principais sucessos. Segundo a coluna DIA-A-DIA, do saudoso jornalista Edson Lima, o evento arrecadou R$ 49.585,00.
     


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