segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO


           Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão
(“Máscara negra”, Zé Kéti e Hildebrando Matos – 1967)

Além da Cidade Canção, era o que se ouvia nos clubes e avenidas de Sarandi, Marialva, Mandaguari, Jandaia do Sul, Apucarana, Nova Esperança e Astorga


Por Airton Donizete
Fotos: Arquivo pessoal

Não é saudosismo, mas o carnaval não é mais o mesmo. Até por que não existem mais marchinhas como “Máscara Negra”, do saudoso Zé Kétti. Entre tantas outras, claro. É preciso recorrer ao passado para mostrar que houve bons carnavais em Maringá e região. Em Maringá, até o fim da década de 1980, a folia tinha Rei Momo.   
No passado, a escolha de quem ocuparia o trono de Rei Momo, em Maringá, de não era fácil. Elói Victor de Mello, então presidente da Comissão Organizadora do Carnaval no começo da década de 80, convocou a diretoria para uma reunião, que definiu: o novo Rei Momo seria o escritor Osvaldo Fernandes Reis, que morreu em 2017.
Com aval do secretário Otávio Salvadori e do presidente Léo de Paula e Silva, ambos do Clube Olímpico, Mello comunicou a decisão a Reis, que ficou de responder no dia seguinte. Ele foi chamado para uma reunião na Prefeitura. Ao chegar lá, a Imprensa o aguardava para uma coletiva. “Não tive chance de decidir nada”, afirmou. “A escolha já estava feita”.
Antes dele havia o popular Tião Carabina, que marcou época no reinado de momo em Maringá. Luiz Carlos Pavesi completa a lista daqueles que recebiam a chave da cidade. Não se pode esquecer de Maria das Dores, a Donzinha, que, na década de 50, brilhou como rainha do Carnaval. 
As escolas de samba também marcaram época em Maringá. Imperadores do Samba, Asa Negra, Unidos da Vila Operária e Caprichosos de São José desfilavam nas avenidas centrais da cidade. Milhares de pessoas assistiam aos desfiles. Um corpo de jurados avaliava determinados quesitos das escolas e apontava as campeãs. 

Reis reinou
Definido pelos jornais como simpático e acessível, Reis foi Rei Momo entre 1981 e 1986. Com 140 quilos, ele tornou-se uma figura de prestígio na cidade. Durante o Carnaval, reinava no Olímpico, mas transitava pelo Maringá Clube, Country, Acema, Teuto-Brasileiro e Bailão Popular do Atlântico.
Em todos os clubes, Reis era recebido com euforia e respeito. “Me achava realmente um rei”, recordou ele numa entrevista em 2015. “Havia mesa preparada pra mim e muita gente aguardando para fotos e cumprimentos”. Apesar de pertencer ao Clube Olímpico, ele reinava para a cidade, inclusive de posse das chaves que recebera do então prefeito João Paulino Vieira Filho.
Natural de Bom Sucesso (Vale do Ivaí), Reis chegou a Maringá em 1953. Era autodidata e autor de dez livros. Após passar por uma cirurgia de redução de estômago parou de engordar. Os problemas de saúde, no entanto, foram se agravando, e ele morreu no ano passado.
            Ele dizia ter boas recordações do carnaval maringaense. “Era um tempo bom, que elevava o nome da cidade para todo o Paraná e até pelo Brasil”, afirmou. “Infelizmente, tudo acabou”. Para ele, a culpa era da televisão, que levou a folia para dentro de casa. “A gente ia ao carnaval para festejar, mas as pessoas curtem tudo na telinha, sem sair da poltrona”. 

A escola de Sarandi

No início dos anos 80, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Olavo Bilac, de Sarandi, se reunia para bater papo. Entre uma conversa e outra, cantarolavam letras de sambas. Bolsas eram improvisadas como pandeiros. Até que Maurílio Barbosa, hoje com 52 anos, sugeriu que fundassem um bloco de carnaval.
Os amigos toparam e escolheram o nome do bloco: “Saranda-auê”. O número de participantes cresceu, e em 1986 transformou-se em escola de samba. Nascia a “Saranda-auê”, presidida por Maurílio Barbosa. Faltavam instrumentos. Eles procuraram o então prefeito de Sarandi, Hélio Gremes, que lhes cedeu espaço para instalação de uma barraca nas festas de aniversários da cidade.
Com o dinheiro arrecadado compraram parte dos instrumentos. Mais tarde o então deputado Antônio Bárbara e o prefeito da época, Júlio Bifon, doaram à escola os instrumentos que faltavam. Assim, a “Saranda-auê” transformou-se numa das maiores escolas de samba da região.
A escola realizou memoráveis desfiles em Sarandi. Segundo Barbosa, em 1989, a “Saranda-auê” foi campeã do carnaval de rua de Maringá, mas a comissão organizadora não teria aceito o resultado. Em 1992, a “Saranda-auê” voltou a desfilar em Maringá e sagrou-se campeã novamente. Desta vez, o título foi validado.
   
Jandaia, referência

Não se pode falar do carnaval na região sem citar Jandaia do Sul. Unidos da Vila Rica, Unidos da Vila Santo Antonio e Afujan, patrocinada pela empresa Jamel, se encarregavam do desfile de rua na cidade. Milhares de pessoas iam à Avenida Getúlio Vargas para ver as escolas. A Unidos da Barra Funda de Apucarana e integrantes do Clube Recreativo de Mandaguari participavam dos desfiles, nas décadas de 80 e 90.
A coordenação era do carnavalesco Celso Germano de Oliveira, o Pelé, que morreu em 2013. As escolas acabaram, mas ele continuou a promover bailes de carnaval todos os anos no salão da Ampac em Jandaia do Sul.  
Para ele, o carnaval de rua sucumbira-se pela falta de dinheiro e gente para organizar a festa. “Naquela época, eu era autônomo e tinha tempo de correr atrás de tudo”, disse à Revista Tradição, em 2011. “Hoje (na época), sou empregado e não tenho a mesma disponibilidade”.
Pelé acrescentara que a falta de dinheiro era o maior entrave. “Não se põe uma escola com 400 componentes na avenida, como era a Unidos da Vila Santo Antônio, com menos de R$ 200 mil (em 2011)”, calculara. “Como não se tem de onde tirar esse dinheiro, não tem desfile”.  

Desfile ousado em Apucarana

Em Apucarana, havia quatro escolas de samba: Unidos da Barra Funda, Salário Mínimo, Águias do Alvorecer e Garotos do Paraíso. Durante o carnaval, pelo menos duas vezes, saíam na avenida principal da cidade e atraíam milhares de pessoas.
A Unidos da Barra Funda, fundada em 1967, foi campeã do carnaval de rua de Apucarana por três anos seguidos: 1985, 1986 e 1987. Presidida pelo saudoso Paulo Henrique Venâncio, o Bavária, encantava a multidão com criativos sambas enredos e fantasias.
A alta inflação dos anos 80 servia de inspiração. “Vou sonhar/vou sonhar bem alto/ esquecendo nossa rica inflação, dizia o samba enredo da Salário Mínimo em 1988. Fundada em 1979, por muitos anos foi comandada pelo advogado Dirceu Borges Filho, o Dirceuzinho.
Fundada em 1986, no ano seguinte, a Águias do Alvorecer ousou ao desfilar, na avenida, com duas mulheres de seios nus. O top-less causou frisson, mas ajudou a divulgar a escola.
Etelvino Francisco, o Chico Preto, comandava a Garotos do Paraíso, que fez sucesso em 1987, com o carro alegórico Princesa Isabel. Ele sempre viajava ao Rio de Janeiro em busca de sambistas para reforçar o elenco da escola.

A folia nos clubes

Se em Jandaia e Apucarana, o carnaval brilhava na rua, em Mandaguari, era nos clubes. Na década de 50, a folia era no Clube do Aeroporto. Nos anos 60, os foliões se reuniam no Salão do Boliche, ao lado da Igreja Nossa Senhora Aparecida.
Nos anos seguintes, os blocos fizeram sucesso no Clube Recreativo. Eles se reuniam na Avenida Amazonas, de onde partiam para o clube ao som de tradicionais marchinhas.
O mesmo ocorria no Clube dos 30 em Marialva. A reunião de blocos atraía muita gente. Não era diferente no Clube Campestre de Nova Esperança, onde havia a tradicional “Bandinha do Clube”. Formada por antigos integrantes, todo carnaval eles se reuniam para a famosa batucada.

Blocos em Astorga

Outro carnaval que deixou marca na região é o do Astorga Tênis Clube (ATC). A década de 60 foi uma das mais efervescentes. A coordenação era da professora Florinda Gonçalves Lourenço. Dezenas de blocos animavam as noites de folia. Durante o ano, eles se cotizavam e compravam as roupas para confeccionar as fantasias.
Dona Florinda, como é conhecida, perdera a conta dos prêmios que ganhou nos carnavais. Quase todo ano, o bloco liderado por ela, conquistava o primeiro lugar. Ao lado do marido, Antonio Lourenço e dos filhos, ela não dava pausa nos quatro dias de folia com duas matinês.
Segundo Florinda, que concedeu entrevista à Revista Tradição, em 2009, as drogas e a violência fizeram o carnaval perder a graça. “No meu tempo, o lança-perfume era tolerado porque não era usado como droga”, disse. “Bebida alcoólica também tinha, mas os que exageravam iam curtir o álcool lá fora do clube”.
Florinda contou que os foliões punham a imaginação para funcionar. Uma das fantasias que ajudou a criar e fez sucesso foi inspirada nas cores do cigarro Minister. “De tanta badalação que deu até um canal de TV veio filmar nosso baile”, ressaltou.

FOTOS (pela ordem)
Os memoráveis desfiles de carnaval de Jandaia do Sul
Saudoso Osvaldo Reis, Rei Momo em Maringá
Dona Florinda e o marido, Antônio, num dos muitos carnavais de Astorga
Mulheres com seios à mostra no desfile, em Apucarana 









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