segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO


           Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão
(“Máscara negra”, Zé Kéti e Hildebrando Matos – 1967)

Além da Cidade Canção, era o que se ouvia nos clubes e avenidas de Sarandi, Marialva, Mandaguari, Jandaia do Sul, Apucarana, Nova Esperança e Astorga


Por Airton Donizete
Fotos: Arquivo pessoal

Não é saudosismo, mas o carnaval não é mais o mesmo. Até por que não existem mais marchinhas como “Máscara Negra”, do saudoso Zé Kétti. Entre tantas outras, claro. É preciso recorrer ao passado para mostrar que houve bons carnavais em Maringá e região. Em Maringá, até o fim da década de 1980, a folia tinha Rei Momo. A gestão do prefeito Ulisses Maia (PDT) trouxe de volta o carnaval popular, realizado na Vila Olímpica. Alento e esperança para os foliões.   
No passado, a escolha de quem ocuparia o trono de Rei Momo, em Maringá, de não era fácil. Elói Victor de Mello, então presidente da Comissão Organizadora do Carnaval no começo da década de 80, convocou a diretoria para uma reunião, que definiu: o novo Rei Momo seria o escritor Osvaldo Fernandes Reis, que morreu em 2017.
Com aval do secretário Otávio Salvadori e do presidente Léo de Paula e Silva, ambos do Clube Olímpico, Mello comunicou a decisão a Reis, que ficou de responder no dia seguinte. Ele foi chamado para uma reunião na Prefeitura. Ao chegar lá, a Imprensa o aguardava para uma coletiva. “Não tive chance de decidir nada”, afirmou. “A escolha já estava feita”.

Reis reinou
Definido pelos jornais como simpático e acessível, Reis foi Rei Momo entre 1981 e 1986. Com 140 quilos, ele tornou-se uma figura de prestígio na cidade. Durante o Carnaval, reinava no Olímpico, mas transitava pelo Maringá Clube, Country, Acema, Teuto-Brasileiro e Bailão Popular do Atlântico.
Em todos os clubes, Reis era recebido com euforia e respeito. “Me achava realmente um rei”, recordou ele numa entrevista em 2015. “Havia mesa preparada pra mim e muita gente aguardando para fotos e cumprimentos”. Apesar de pertencer ao Clube Olímpico, ele reinava para a cidade, inclusive de posse das chaves que recebera do então prefeito João Paulino Vieira Filho.
Natural de Bom Sucesso (Vale do Ivaí), Reis chegou a Maringá em 1953. Era autodidata e autor de dez livros. Após passar por uma cirurgia de redução de estômago parou de engordar. Os problemas de saúde, no entanto, foram se agravando, e ele morreu no ano passado.
            Ele dizia ter boas recordações do carnaval maringaense. “Era um tempo bom, que elevava o nome da cidade para todo o Paraná e até pelo Brasil”, afirmou. “Infelizmente, tudo acabou”. Para ele, a culpa era da televisão, que levou a folia para dentro de casa. “A gente ia ao carnaval para festejar, mas as pessoas curtem tudo na telinha, sem sair da poltrona”. 

A escola de Sarandi

No início dos anos 80, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Olavo Bilac, de Sarandi, se reunia para bater papo. Entre uma conversa e outra, cantarolavam letras de sambas. Bolsas eram improvisadas como pandeiros. Até que Maurílio Barbosa, hoje com 52 anos, sugeriu que fundassem um bloco de carnaval.
Os amigos toparam e escolheram o nome do bloco: “Saranda-auê”. O número de participantes cresceu, e em 1986 transformou-se em escola de samba. Nascia a “Saranda-auê”, presidida por Maurílio Barbosa. Faltavam instrumentos. Eles procuraram o então prefeito de Sarandi, Hélio Gremes, que lhes cedeu espaço para instalação de uma barraca nas festas de aniversários da cidade.
Com o dinheiro arrecadado compraram parte dos instrumentos. Mais tarde o então deputado Antônio Bárbara e o prefeito da época, Júlio Bifon, doaram à escola os instrumentos que faltavam. Assim, a “Saranda-auê” transformou-se numa das maiores escolas de samba da região.
A escola realizou memoráveis desfiles em Sarandi. Segundo Barbosa, em 1989, a “Saranda-auê” foi campeã do carnaval de rua de Maringá, mas a comissão organizadora não teria aceito o resultado. Em 1992, a “Saranda-auê” voltou a desfilar em Maringá e sagrou-se campeã novamente. Desta vez, o título foi validado.
   
Jandaia, referência

Não se pode falar do carnaval na região sem citar Jandaia do Sul. Unidos da Vila Rica, Unidos da Vila Santo Antonio e Afujan, patrocinada pela empresa Jamel, se encarregavam do desfile de rua na cidade. Milhares de pessoas iam à Avenida Getúlio Vargas para ver as escolas. A Unidos da Barra Funda de Apucarana e integrantes do Clube Recreativo de Mandaguari participavam dos desfiles, nas décadas de 1980 e 1990.
A coordenação era do carnavalesco Celso Germano de Oliveira, o Pelé, que morreu em 2013. As escolas acabaram, mas ele continuou a promover bailes de carnaval todos os anos no salão da Ampac em Jandaia do Sul.  
Para ele, o carnaval de rua sucumbira-se pela falta de dinheiro e gente para organizar a festa. “Naquela época, eu era autônomo e tinha tempo de correr atrás de tudo”, disse à Revista Tradição, em 2011. “Hoje (na época), sou empregado e não tenho a mesma disponibilidade”.
Pelé acrescentara que a falta de dinheiro era o maior entrave. “Não se põe uma escola com 400 componentes na avenida, como era a Unidos da Vila Santo Antônio, com menos de R$ 200 mil (em 2011)”, calculara. “Como não se tem de onde tirar esse dinheiro, não tem desfile”.  

Desfiles ousados em Apucarana

Em Apucarana, havia quatro escolas de samba: Unidos da Barra Funda, Salário Mínimo, Águias do Alvorecer e Garotos do Paraíso. Durante o carnaval, pelo menos duas vezes, saíam na avenida principal da cidade e atraíam milhares de pessoas.
A Unidos da Barra Funda, fundada em 1967, foi campeã do carnaval de rua de Apucarana por três anos seguidos: 1985, 1986 e 1987. Presidida pelo saudoso Paulo Henrique Venâncio, o Bavária, encantava a multidão com criativos sambas enredos e fantasias.
A alta inflação dos anos 80 servia de inspiração. “Vou sonhar/vou sonhar bem alto/ esquecendo nossa rica inflação, dizia o samba enredo da Salário Mínimo em 1988. Fundada em 1979, por muitos anos foi comandada pelo advogado Dirceu Borges Filho, o Dirceuzinho.
Fundada em 1986, no ano seguinte, a Águias do Alvorecer chocou ousou na avenida. Naquele ano, a escola desfilou com duas mulheres de seios nus. O top-less causou frisson, mas ajudou a divulgar a escola.
Etelvino Francisco, o Chico Preto, comandava a Garotos do Paraíso, que fez sucesso em 1987, com o carro alegórico Princesa Isabel. Ele sempre viajava ao Rio de Janeiro em busca de sambistas para reforçar o elenco da escola.

A folia nos clubes

Se em Jandaia e Apucarana, o carnaval brilhava na rua, em Mandaguari, era nos clubes. Na década de 50, a folia era no Clube do Aeroporto. Nos anos 60, os foliões se reuniam no Salão do Boliche, ao lado da Igreja Nossa Senhora Aparecida.
Nos anos seguintes, os blocos fizeram sucesso no Clube Recreativo. Eles se reuniam na Avenida Amazonas, de onde partiam para o clube ao som de tradicionais marchinhas.
O mesmo ocorria no Clube dos 30 em Marialva. A reunião de blocos atraía muita gente. Não era diferente no Clube Campestre de Nova Esperança, onde havia a tradicional “Bandinha do Clube”. Formada por antigos integrantes, todo carnaval eles se reuniam para a tradicional batucada.

Blocos em Astorga

Outro carnaval que deixou marca na região é o do Astorga Tênis Clube (ATC). A década de 1960 foi uma das mais efervescentes. A coordenação era da professora Florinda Gonçalves Lourenço. Dezenas de blocos animavam as noites de folia. Durante o ano, eles se cotizavam e compravam as roupas para confeccionar as fantasias.
Dona Florinda, como é conhecida, perdera a conta dos prêmios que ganhou nos carnavais. Quase todo ano, o bloco liderado por ela, conquistava o primeiro lugar. Ao lado do marido, Antonio Lourenço e dos filhos, ela não dava pausa nos quatro dias de folia com duas matinês.
Segundo Florinda, que concedeu entrevista à Revista Tradição, em 2009, as drogas e a violência fizeram o carnaval perder a graça. “No meu tempo, o lança-perfume era tolerado porque não era usado como droga”, disse. “Bebida alcoólica também tinha, mas os poucos que exageravam iam curtir o álcool lá fora”.
Florinda contou que os foliões punham a imaginação para funcionar. Uma das fantasias que ajudou a criar e fez sucesso foi inspirada nas cores do cigarro minister. “De tanta badalação que deu até um canal de TV veio filmar nosso baile”, ressaltou.
FOTOS (pela ordem)
Os memoráveis desfiles de carnaval de Jandaia do Sul
Saudoso Osvaldo Reis, Rei Momo em Maringá
Dona Florinda e o marido, Antônio, num dos muitos carnavais de Astorga










domingo, 17 de dezembro de 2017

ASSIM NASCEU O PAGODE DE VIOLA EM MARINGÁ


Nos anos 1950, Tião Carreiro vinha com frequência a Maringá, de onde saía com seu parceiro, Pardinho, para se apresentar nos circos da região, e numa dessas paradas no antigo Hotel Paulistano, com ajuda de Zorinho, atual maestro Itapuã, ele criou uma batida diferente na viola, consagrando um novo jeito de tocar o instrumento. É o que mostra o documentário “A mão direita do Itapuã – um caminho possível para conhecer o ritmo do pagode”, realizado pelo músico e pesquisador paulista Saulo Alves

(Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e Domingos Bernardino)

Houve um tempo em que Maringá respirava música sertaneja. Não, não é exagero. Não era como hoje em que músicas ditas sertanejas se propagam por várias mídias. Na década de 1950, os que dispunham de rádio ouviam programas sertanejos e, por aqui, havia os circos e o auditório da Rádio Cultura, na esquina das Avenidas Herval e 15 de Novembro, com apresentações e encenações sertanejas. A televisão engatinhava; o lazer se resumia aos circos, às apresentações de duplas sertanejas e ao cinema.
            Diante de tanta batida de viola e cantoria naquela boca de sertão, a jovem Maringá começou a atrair muitas duplas sertanejas de São Paulo. Apresentar-se por aqui era certeza de casa cheia e cachê garantido. O Hotel Paulistano, que ficava ao lado da Praça Raposo Tavares, tornou-se o destino da maioria delas. Com o passar do tempo, ganharam intimidade com o gerente do hotel, Antônio Martim Filho. Conhecido por Lenço Verde, ele se tornou empresário artístico das duplas na região, acertando shows e apresentações em circos.
 O músico e pesquisador musical Saulo Sandro Alves Dias, 45, de São Paulo, se interessou por um detalhe dessa história. Graduado e mestre em música, Doutor em Educação e pós-doutor em música pela Unicamp, ele soube que Tião Carreiro criou o pagode de viola em Maringá. Frequentador assíduo da Cidade Canção, o parceiro de Pardinho permanecia meses no Hotel Paulistano, de onde partia para apresentações na região. Nas horas de folga, Lenço Verde ia com ele, de jipe, levar roupa do hotel para lavar.
- O Tião era um sujeito muito simples que, inclusive, me ajudava em pequenas tarefas no hotel – dizia Lenço Verde.
A pesquisa de Saulo rendeu um documentário que acaba de ser lançado em São Paulo. “A mão direita do Itapuã – um caminho possível para conhecer o ritmo do pagode” revela como o pagode de viola foi criado em Maringá. O filme de 22 minutos exibe dois personagens que perfazem a história: o animador e apresentador sertanejo Orlando João Zenaro Manin, 78, o Coronel do Rancho, e Ozório Ferrarezi, 78, o Zorinho, que por muitos anos formou a dupla Zezinho e Zorinho, e hoje é o maestro Itapuã, professor de música em Santa Carmem (MT).
Coronel do Rancho, na gerência da Rádio Cultura, acompanhava os ensaios de Tião Carreiro numa salinha nos fundos da emissora.
- Tião era um sujeito inquieto. Pegava a viola, mexia e remexia nas cordas, até que um dia notei uma batida diferente, e ele me contou que aquele estilo se chamava pagode -.
A batida diferente vinha dos ensaios entre Tião e Itapuã, no Hotel Paulistano.
Um dia Tião lhe disse que tentava criar um novo ritmo na viola, mas os violonistas não se acertavam no acompanhamento.
- Então pedi a ele que tocasse a novidade pra mim. Ouvi por um instante o repique da viola e não pensei duas vezes em complementar com o violão aquele ritmo parecido com rumba espanhola e aí foi um casamento perfeito, dando origem ao pagode de viola -, conta Itapuã.
            Itapuã afirma no documentário que visitara Tião no hospital em São Paulo pouco antes de ele morrer, em 1993. O violeiro nunca disse publicamente que o maestro o ajudara a criar o pagode, mas lhe teria feito uma revelação durante a visita no hospital.
- Ele me disse: ‘quero que todos saibam que este moço foi meu parceiro na criação do pagode de viola’ e nunca reivindicou seus direitos -.
Itapuã se emociona com a revelação do então parceiro, dizendo não fazer questão do reconhecimento público.
- O que importa é minha amizade com o Tião, que foi muito bonita e possibilitou essa parceria - afirma. Em 1956, viria o primeiro disco em 78 rotações de Tião Carreiro e Pardinho, com as músicas: “Boiadeiro Punho de Aço” e “Cavaleiros do Bom Jesus”. Ali, já podiam ser notados os primeiros acordes do pagode que ganharam perfeição em 1960 com “Pagode em Brasília”, clássico de Teddy Vieira e Lourival dos Santos.
            Saulo diz que não pretendia incluir o norte e noroeste do Paraná nas pesquisas que realiza sobre música, mas ao saber da parceria entre Tião e Itapuã na criação do pagode seus planos mudaram.
- Este fato, que julgo ser bastante importante para a compreensão da história da música sertaneja, ocorreu em Maringá - diz o pesquisador, acrescentando que a música sertaneja tornou-se muito presente em toda esta região, acompanhando o ciclo econômico do café e os empreendimentos da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná.
            - A Rádio Cultura de Maringá, por exemplo, tocava o cancioneiro caipira para atender ao grande número de migrantes que ocupou a região, que já eram ouvintes da música de viola -.
            Ele pretende continuar pesquisando a música sertaneja no norte e noroeste do Paraná. Para Saulo, as modas campeiras “Paraná do Norte” e “Filão de Ouro”, ambas do compositor Diogo Mulero, o Palmeira, dão ideia acerca da visão de mundo que permeia o cancioneiro de matriz cultural caipira.
- Diogo Mulero e Luizinho (Palmeira e Luizinho) foram pioneiros entre as incontáveis duplas que ‘faziam o norte do Paraná’ - uma expressão típica entre as duplas que se hospedavam no Hotel Paulistano, que ficava ali na Rua Joubert de Carvalho, do lado da Praça Raposo Tavares -, arremata o pesquisador. Mário de Almeida, parceiro na realização do documentário, muito contribuiu para a qualidade final do trabalho.  

O pesquisador Saulo Alves lança documentário sobre criação do pagode de viola, em Maringá


Zorinho, atual maestro Itapuã, entre a dupla Milionário e Zé Rico, foi parceiro de Tião Carreiro 
O animador sertanejo Orlando Manin, o Coronel do Rancho, diz que testemunhou a criação do pagode de viola em Maringá, por Tião Carreiro, na década de 1950, quando o violeiro, com seu parceiro Pardinho, vinha à cidade com frequência 

Tião Carreiro, que, segundo o documentário de Saulo, criou o pagode de viola em Maringá











segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DIA EM QUE OS CAFEZAIS DO INTERIOR DO PARANÁ FORAM TINGIDOS DE NEGRO


Faz 42 anos que a geada negra dizimou os cafezais do Paraná anulando sonhos e obrigando muitos agricultores a trocarem a roça pela cidade, mas a cultura cafeeira se recuperou e ressurge com força e qualidade em pequenas propriedades

Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e AD

O então governador do Paraná, Jayme Canet, visita cafezal destruído, em 1975





Eu tinha hábito de acordar cedo para beber o primeiro leite que saía das tetas das vacas. Meu pai as ordenhava, e eu corria com uma caneca de alumínio. Ele a enchia de leite. Minha mãe misturava uma colher de cachaça. Dava um gosto especial. Acompanhado de uma batata doce assada era meu café da manhã. Mas naquele dia foi diferente. Meu pai era meeiro e tocava uma propriedade de café na zona rural de Califórnia, no Vale do Ivaí. Não lembro quantos, mas eram milhares de pés de café.
A noite não foi tranquila. Dormi de calça e com duas blusas. Minha mãe me cobriu com um colchoado de paina. Pesado, me fez sumir no colchão de palha. Manhã de 18 de julho de 1975, dia do meu aniversário. Eu completava nove anos. O frio não me impediu de sair correndo com a caneca de alumínio. A cada assoprada expelia um tucho de fumaça pela boca. Queria o leite quentinho misturado a uma colher de pinga.  Encontrei meu pai mudo e estático observando os pés de café, que se avizinhavam da casa. Ele tentava recuperar as forças para ordenhar as vacas. Lágrimas lhe caíam dos olhos. Eu agarrei às pernas dele e desandei a chorar.
Horror
Esta cena não me sai da cabeça: meu pai contemplando a lavoura que, com a chegada dos primeiros raios de sol da manhã, começava a ficar negra. O frio que abateu os cafezais do Paraná está na lembrança de quem o vivenciou. Muita gente rumou para a cidade. Alguns permaneceram na zona rural. Derrotados pela monocultura do café adotaram a diversificação agrícola, iniciada nos anos 1980. A família Dada é uma das que apostaram em outras culturas. Até hoje vive numa propriedade de dois alqueires na Estrada Vieira, na zona rural de Marialva. “Na época, meu pai tocava apenas café”, conta Eduardo Dada, 46 anos. “Não chegamos a passar fome como alguns produtores, mas sofremos bastante”.
            Ele e a mãe, Elvira Angelotti Dada, 83 anos, não sabem precisar quantos pés de cafés perderam em 1975. “Aquilo foi um horror”, diz ela. “O sol esquentou, e o cheiro de folha verde queimada tomou conta”. Elvira afirma que o prejuízo não foi maior porque eles não tinham meeiro. A própria família cultivava o café. “Mesmo assim, meu pai teve de cortar despesas e reduzir os investimentos na propriedade”, acrescenta Eduardo.
Catástrofe
O andar vagaroso de Hisato Hashimoto, amparado por uma bengala, não condiz com sua memória. Aos 91 anos, ele se lembra de fatos e pessoas. Nascido em Lins (SP), ele chegou a Marialva em 1947. Vive na mesma propriedade de cinco alqueires, nas margens da estrada que liga a cidade ao distrito de Santa Fé. Em 1975, Hashimoto era empregado, mas perdeu todo o café que cultivava. “Foi uma catástrofe, que nos deixou a zero”, conta. “Nossa sorte que naquele tempo, vivia-se de qualquer jeito, mesmo sem dinheiro, sustentando do que se plantava na roça e dos porcos e galinhas criados no quintal”.
Na época, ele colhia uma média de 700 sacas de café plantado com espaçamento, possibilitando o cultivo de milho, arroz e feijão entre os pés. Hashimoto diz que após a geada de 1975, o trabalho maior foi dar destino à lenha seca que restou. “Trabalhamos vários dias para retirar aquele entulho sem serventia”, afirma.
Mas ele não desanimou com a geada. Ao contrário de muita gente que partiu para a cidade ou outros Estados, permaneceu no sítio, comprando-o, mais tarde, com dinheiro oriundo do trabalho no local, onde mora até hoje. Casado com Tomie Hashimoto, 90 anos, ele tem quatro filhos, dez netos e dois bisnetos. Mora apenas com a mulher no local, que é um verdadeiro museu do café. As casas de madeira. O terreirão, a tulha e o secador.  O café, oito mil pés, continua o carro-chefe da propriedade. Ele não soube informar números da safra, alegando que, de ano para ano, varia muito.



Geada foi golpe de misericórdia, mas provocou até suicídios

O jornalista Valderi dos Santos diz no seu livro, “O café no norte do Paraná – ascensão e queda”, que a geada de 1975 destruiu mais de 900 milhões de pés de café no Estado. Ele ressalta, no entanto, que o fenômeno foi apenas um golpe de misericórdia. Para o jornalista, o governo federal não dera devida atenção aos cafeicultores, derrubando o preço da cultura, desvalorizando-a no mercado. Eram tempos difíceis. Os agricultores, que não recebiam incentivos do governo, foram mais rápidos à lona com as condições adversas do clima.
             O engenheiro agrônomo Marcos Aurélio Volpato, 56 anos, diretor geral de Agricultura, da Prefeitura de Marialva, afirma que o estrago da geada se ampliou porque a maioria dos agricultores dependia apenas do café. Houve casos em que a perda chegou ao extremo. “Alguns que já estavam endividados acabaram cometendo até suicídio”, conta. Na época, ele era estudante do antigo segundo grau.
            Volpato ressalta que o pior ocorreu após a destruição dos cafezais. Muita gente se mudou da zona rural para capitais. Irineu Pozzobon, no livro: “A epopeia do café no Paraná”, afirma que entre 500 e 600 mil trabalhadores deixaram o Estado. A maioria foi para São Paulo trabalhar nas indústrias automobilísticas. “Com as crises econômicas muitos perderam o emprego e ficaram na penúria”, declara. “Os que não conseguiram voltar ou não trocaram de ramo sofreram muito”. O feijão soja foi uma das opções para quem quis continuar na agricultura.

            A safra paranaense de 1975, colhida antes da geada, rendeu 10,2 milhões de sacas de café, 48% da produção brasileira. O Estado tinha uma produtividade superior à média nacional. No ano seguinte, a produção foi de 3,8 mil sacas. Não houve exportação. A participação paranaense na produção brasileira caiu para 0,1%.
Especialistas avaliaram que o prejuízo chegara a Cr$ 600 milhões (pela cotação da época, o equivalente a US$ 75 milhões) apenas nas lavouras de café. Outras culturas também foram atingidas. Mas o café sustentava a economia do Paraná naquela época. Uma situação que mudaria em seguida, pois os cafeicultores nunca mais se recuperariam daquele evento climático. 


Pioneiro que morreu com 103 anos viveu auge
          do café nas máquinas beneficiadoras da CMNP

Uma das maiores produtoras de café da região foi a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP). Colonizadora que nasceu da Companhia de Terras Norte do Paraná, fundada por ingleses em 1925. Paralelo à venda de terras, a companhia comprou várias fazendas para cultivar café.
Quem viveu essa época de fortuna dos grandes cafezais é o pioneiro José Remígio Pereira, que chegou a Maringá em 1953. Ele morreu em agosto do ano passado aos 103 anos, mas em 2015, no aniversário de 40 anos da “geada negra”, me recebeu na casa dele, em Maringá, para uma entrevista sobre o tema. O pioneiro se recordou de quando saía pela região para consertar as máquinas de café da companhia, onde trabalhava.  
Um de seus trajetos era ir até Umuarama (160 quilômetros de Maringá) reparar uma máquina cafeeira. Com chuva, de jipe, demorava sete horas pela estrada de chão batido. O meio mais fácil era o avião teco-teco, que fazia o percurso em 40 minutos. “Lá de cima, a gente via aquela nuvem de poeira que saía do chão, era Maringá”, conta.
Na cidade, tornou-se operador da Cafeeira Santo Antônio, que funcionava na Avenida Mauá, esquina com a Avenida Tuiuti. Em 1965, foi vendida para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O gerente da colonizadora, Alfredo Nyfeller, impôs uma condição: só compraria a cafeeira se Remígio, Luiz Roberto Bolotta e Dante Panzeri (também funcionários) viessem juntos.
Proposta aceita, Remígio permaneceu 31 anos na companhia. Ele lembra que em época de safra beneficiava 200 sacas de café por dia. As fazendas da colonizadora tinham 1 milhão de pés de café e produziam em torno de 50 mil sacas por ano.
Luiz Roberto Bolotta, 73, da Cafeeira Santo Antônio foi transferido para o escritório da companhia, na esquina entre a Avenida Duque de Caxias e rua Joubert de Carvalho, onde trabalhou por 35 anos. Na época, havia mais de 50 máquinas de beneficiar café em Maringá. Segundo ele, o café rendia muito dinheiro para a companhia. “No período de venda, minha rotina era contar maços de cédulas no balcão do escritório e levar tudo a pé numa sacola ao banco”, conta. “Naquele tempo não havia assalto”. 
Remígio deixou oito filhos de três casamentos. Era casado pela terceira vez com Florinda Rossi Pereira, 81 (FOTO ABAIXO DO CASAL). Ele disse que naquele dia 18 de julho de 1975 fez tanto frio que se os pés de café tivessem sido cobertos queimariam do mesmo jeito. “Eu fiz o teste”, contou. “Cobri um pé que tinha no quintal de casa, mas ficou todo preto soltando a casca”. As mangueiras de água amanheceram congeladas. “Algumas chegaram a partir”, acrescenta o pioneiro.





Engenheiro fotografou a história do café

Em seu Jipe Willys fabricado em Toledo Ohio, nos Estados Unidos, em 1954, ele cortava as estradas barrentas do norte e noroeste do Estado. “Por aqui havia a fama: quando não era pó, era lama, mas a gente encarava e ia em frente”, recordara-se ele, em entrevista, em 2013. Trata-se do fotógrafo Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser, que morreu em 2014, aos 88 anos. Engenheiro agrônomo, ele trabalhou no Instituto Brasileiro do Café entre 1953 e 1989. Nas visitas que fazia pelo Paraná fotografava assuntos relacionados ao café.
O acervo fotográfico de Armínio veio a público com os livros “Ao sabor do Café” e “Ao aroma do café”. A autoria dos trabalhos é do Instituto de Memória e Imagem “Câmara Clara”. Não faltavam cenas para a câmera dele. Em 1967, em Mandaguari, um homem, que vem da zona rural, leva ao cemitério, o corpo do filho num caixãozinho. Dois sujeitos proseiam na beira de uma estrada, que, segundo Armínio, se intitula: “Esperando Godot”. “Mas Godot não veio”, complementa.
As cenas mais tristes que fotografou talvez tenham sido em 1963, ano de um incêndio nas lavouras do Paraná. Após uma grande geada, pastos e cafezais ficaram secos. Trabalhadores atearam fogo para fazer o plantio esperando a chuva, que não veio. O fogo se alastrou e por cerca de quatro meses transformou em cinzas casas, lavouras, pontes e tudo que tinha pela frente.
Mas as geadas de 1962 e 1963 e o incêndio rural que se seguiu no Paraná não impediram a grande produção cafeeira. Veio a erradicação. Em seu livro “A epopeia do café no Paraná”, o engenheiro agrônomo Irineu Pozzobon escreve que a erradicação atingiu 1,34 bilhões de cafeeiros no Brasil; 249 milhões no Paraná.
Com a crise de 1929, o preço do café despencou no exterior. O governo federal resolveu comprar 18 milhões de sacas, ajudando os produtores. Sem ter o que fazer com tanto café, queimou-as. Armínio descrevera: “Quem passasse entre Arapongas e Sabáudia em junho de 1961 assistiria a um espetáculo inédito: um mundaréu de café pegando fogo. Por aqui, ouvi falar em 10 milhões de sacas de café virando cinzas”.
Após as geadas e os incêndios da década de 1960, o frio voltou em 1975. As lavouras que mal tinham saído de uma catástrofe eram dizimadas pela geada negra. ABAIXO FOTO DE ARMÍNIO KAISER RETRATA MULHER ABANANDO CAFÉ NA DÉCADA DE 1950.


Geada negra mata até a raiz

A geada negra é formada por uma condição atmosférica que congela a parte interna da planta. O poder de destruição é maior. Ocorre quando há atuação de massa de ar polar de forte intensidade, com temperatura baixa e pouca umidade. Em contato com a superfície há o congelamento, provocando enormes danos físicos na planta. “É um fenômeno precedido de muito vento”, diz o professor Hélio Silveira, 45, do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenador da Estação Climatológica da mesma instituição.
Quando se forma apenas uma camada de gelo na superfície chama-se geada branca. Se a seiva da planta congelar é geada negra. Esse último tipo é a mais devastadora para as plantações, mas só ocorrem em cidades muito frias. No Brasil, na maioria das vezes, apenas nas regiões serranas do Sul. Foi o que ocorreu em 18 de julho de 1975. No dia anterior ventou muito. “A geada negra se forma devido ao vento muito gelado, congelando a seiva da planta e ocasionando perda total”, afirma Silveira.
O jornalista Valderi dos Santos, no livro “O Café no norte do Paraná – ascensão e queda” relata que em 1953, a geada provocou queda de 58% nas safras seguintes. Em 1955, 65%; 1962, 49%; 1963, 22%; 1966, 24%; 1969, 87%; 1972, 58% e 1975 prejuízo total. “Na época foi destruído todo o parque cafeeiro do Estado”, escreve ele. 
FOTO ABAIXO: Moradores de Curitiba brincaram de fazer boneco de neve, em 18 de julho de 1975.




Produção ressurge com força e qualidade

O Paraná hoje não figura entre os maiores produtores de café do Brasil. Há muitos anos, perdeu o posto para Minas Gerais. Mas o Estado vive um bom momento na produção do grão. As pequenas propriedades lideram a produção. A maioria é cultivada mecanicamente. É o caso de Antônio Geraldo Rosseto, 54, de Mandaguari.
Descendente de italiano, cujos pais, em 1953, atraídos pelo café, vieram do interior de São Paulo para Mandaguari.  A família Rosseto tem um sítio nas margens da rodovia que liga a cidade à Maringá. Antônio, que nasceu na propriedade, cultiva 20 mil mudas. A colheita lhe garante em torno de 500 a 600 sacas em coco. A diferença está na lida do produto. Tudo mecanizado.
A colheita dos grãos é feita com máquinas manuais. Em seguida, são transportados numa caminhonete até o terreiro. Rosseto não quis nem posar para foto com um rastelo na mão. Mas nem sempre foi assim. Segundo ele, antigamente, “era tudo no braço”. Quando ameaçava chuva durante a colheita era um problema. “A gente ia pegar um animal para pôr no carrinho era um Deus nos acuda”, afirma. “Parece que o bicho adivinhava e danava a correr”.
Apesar dos contratempos na economia que atrapalham a agricultura, ele e a família apostam no café, que já lhe deu um título de melhor produtor regional em concurso organizado pela Cooperativa Agropecuária e Industrial de Mandaguari (Cocari). “Hoje, o que manda é a qualidade”, diz. “Pouca planta e bastante colheita”. Antigamente, plantava-se muito, mas produzia menos e com qualidade inferior.
Para ele, a geada de 1975 foi uma catástrofe, mas quem não dependia de mão de obra conseguiu se recuperar. É o caso da família Rosseto que sofreu o impacto do fenômeno climático, mas se reergueu. Mesmo assim, alguns dos parentes foram para São Paulo, onde moram até hoje.
O agrônomo Marcos Aurélio Volpato diz que o café é um bom negócio, levando em conta o preço, que gira em torno de R$ 400 a saca de 60 quilos. Mas ele aconselha o produtor a explorar a atividade com mão de obra familiar, evitando gastos excessivos. “Mecanizar o máximo possível e só contratar mão de obra esporadicamente”, diz, acrescentando: “Cultivar a lavoura no sistema adensado; utilizar cultivares mais resistentes a pragas e doenças; colher no pano com sopradores de palhas motorizados e secar em terreiros suspensos ou em lonas plásticas”. 
FOTO ABAIXO: Rosseto diz que mecanização do café facilita para o produtor



segunda-feira, 3 de julho de 2017

O DIA EM QUE A CIDADE VIROU SERTÃO


Tinoco, mito da música caipira, foi homenageado em Maringá, em 2009, com show cuja renda foi revertida para tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer

(Texto e foto: Airton Donizete)


Tinoco posa para foto na Cerealista Pantaneira, de Maringá; ele esteve na cidade para show no Clube Olímpico, em 2009, cuja renda foi destinada para tratamento de saúde da mulher dele, Nadir, que viria a morrer logo depois, vítima de câncer




O telefone toca. Era o Aníbal, compadre do Tinoco, convidando o Fregadolli (da Revista Tradição) para almoçar na Cerealista Pantaneira. No cardápio, frango caipira e polenta. Mas a atração principal era o próprio Tinoco que se preparava para o show em sua homenagem no Clube Olímpico, de Maringá. A renda do evento foi revertida para custear tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer.
 Eu fui junto, pois era a oportunidade de entrevistar Tinoco, um dos últimos representantes da música caipira. De camisa vermelha, calça branca e óculos escuros, nos aguardava. Ele autografava alguns DVDs que seriam vendidos no show, mas logo me convidou para ir a uma salinha ao lado, pois tem dificuldade para ouvir.
Pena que o tempo era curto. Tinoco tinha de almoçar e cumprir alguns compromissos antes do show. Um personagem como ele é uma espécie de poço cujo fundo ainda não foi atingido. Sempre é possível cavar mais um pouco. E lá fui eu com minha cavadeira, ou melhor, meu gravador.
José Perez, o Tinoco, nasceu em 19 de novembro de 1920 em Platânia (SP) e João Salvador Perez, o Tonico, em 2 de março de 1917 em São Manuel, no mesmo Estado. Começaram a cantar como Irmãos Perez, mas logo foram batizados pelo Capitão Furtado, apresentador do programa “Arraiá da Curva Torta”, na Rádio Tupi.
Não demorou muito, e o palhaço Saracura lançou o bordão: ‘Dupla Coração do Brasil’. O apresentador Dárcio Campos passou a chamá-los de ‘Os expoentes máximos da música sertaneja’. Daí em diante, a história é longa e só mesmo Tinoco para nos contar um pouco dela, bem ao seu estilo com aquela linguagem caipira que não se ouve mais. Afinal, pelo menos por um dia, a cidade virou sertão. Veja trechos do dedo de prosa, a seguir.

Fale um pouco da carreira de Tonico e Tinoco?

TINOCO – Nossa carreira começou quando me conheci por gente. Naquele tempo, não tinha foinha. Minha mãe era índia. Eu cantava fininho e o Tinoco mais grosso. A gente fazia versinho assim: “O tatu casou com a onça, a onça ranhou o tatu”.
Nós morava na roça, no sertão de São Manoel. Apredemo compor, tocar, sem ouvir ninguém. Então, sempre falo: quem deu a mão pra nóis foi Deus. Abraçamo o dom que Deus nos deu. Foram 72 anos de carreira.
Platânia fica a 15 quilômetros de São Manuel. Eu andando lá com o prefeito vi uma casinha de madeira onde nóis moramo 80 anos atrás. Aí, o prefeito desmontou ela e levou pra Platânia e fez uma casa curturar. Lá, está todo nosso acervo. Nas paredes, tem o sinal da fumaça da lamparina. O mesmo fugão de lenha onde minha mãe cozinhava. A taipa onde nóis esquentava fogo. Naquele tempo, não tinha cuberta pra aquecer. Tudo isso aconteceu na década de 40 no começo da nossa carreira.

A carreira de vocês deslanchou quando o Capitão Furtado batizou-os?

A gente já cantava antes, mas ali começou tudo. Ele deu nome e levou nóis pra gravar. Foi o primeiro passo. Foi na Rádio Difusora, que depois passou a chamar Tupi. Era do grupo das Emissoras Associadas comandadas por Assis Chateaubriand. Ele disse que a gente precisava de um nome bem caboclo.  
E deu certo. Tamos aí até hoje. Digo tamos porque depois que o Tonico morreu, vai fazer 14 anos no próximo dia 13 de agosto, eu me senti obrigado a manter a estrada de Tonico de Tinoco.
E Deus me ajudou. Gravei três CDs cantando a voz do Tonico fazendo a segunda e a primeira. Tive uns parceiros, mas não deu certo. Agora, eu faço dupla: Tinoco e Deus. O amor do povo é uma beleza. Você vê a juventude, 80% no meu show. E nossas músicas, não têm uma que inventamos. É tudo história de vida. Por isso que elas entram no coração e não sai mais.
      
Tonico e Tinoco vieram muitas vezes ao Norte do Paraná?

Nossa... Nóis ajudamo a desbravar isso aqui. Quando nóis vinha aqui tavam derrubando mato. Olha, tudo é coisa por Deus. Os pais e o filho mais velho vinha comprar terra nesse trecho de Londrina a Mandaguari. Vinha com dinheiro pra pagar a terra. E já contratava camarada pra derrubar mato. Tudo isso a gente acompanhava.

E Maringá?

Vim pra cá quando não tinha estrada. Só jipe pra chegar. Muita gente acabava de chegar de carroça. Se a família era grande, vinha três, quatro carroças. Uma trazendo mantimento. Tinha mais dois cavalos amarrado atrás; quando um cansava, ponhava o outro. Eu e o Tonico não tinha onde comer. Então, eu chegava lá onde as carroças tavam na horinha do almoço. Eles convidava pra almoçar, e eu levava um caldeirão pra trazer, era pra comer no outro dia.
Eu com o Tonico levava uma caneca só pra beber água. Em qualquer riozinho de beira de estrada você baixava e bebia. Não tinha poluição.

Você disse que as músicas de vocês contam histórias reais, por que hoje não se faz mais músicas assim?

Não... hoje é tudo descartavi... Tem cantor que repete uma linha 10, 20 vezes. Outro só quer chacoalhar a bunda pra dançar. Mais, nóis, Tonico e Tinoco sempre desviamo disso. Não é só agora, não. Lá atrás também.

Certa vez, a gravadora quis que vocês usassem uma roupagem moderna e vocês não aceitaram?

É... houve isso. Foi quando o Roberto Carlos e a Jovem Guarda estourou. Por que essa roupa lumiante aqui? Quis saber. A gravadora (Continental) falou: “Vou mudar vocês”. Eu falei:”Mudar como?”. Vocês vão sair num carro sem capota pra mostrar o novo visuar. Falei, não. Para, para...
Depois disso, esperei dois anos pra gravar. Até passar aquela onda.

Quantos discos Tonico e Tinoco gravaram?

Não dá nem pra contar. Quando fizemo 50 anos de carreira era 80 LP e quase 300 de 78 rotações. Aqueles que têm uma música de cada lado. Temos bastante também daqueles disquinhos que saiu na década de 70, aqueles que tinha que pôr um peso em cima da agulha pra conseguir tocar. Músicas? Contando tudo que gravamos e fizemos passa de 1500.

Batidas na porta. É o compadre (do Tinoco) Aníbal que vem chamar Tinoco para almoçar, pois um canal de TV espera-o para gravar. Tenho de encerrar a entrevista. À noite, centenas de fãs aplaudiram-no no Clube Olímpico. Acompanhado de Juliano César, Márcia Mara, Zé Paulo, Gilberto e Gilmar, Léo e Giba e Teodoro e Sampaio, Tinoco cantou alguns de seus principais sucessos. Segundo a coluna DIA-A-DIA, do saudoso jornalista Edson Lima, o evento arrecadou R$ 49.585,00.
     


segunda-feira, 12 de junho de 2017

VIDAS ERRANTES



Moradores de rua de São Paulo e Maringá revelam histórias angustiantes e contam como enfrentam o desafio de dormir ao relento e andar sem destino pelas cidades


(Texto e fotos Airton Donizete)




Morador de rua  em São Paulo, que tem pelo menos 15 mil na mesma situação

- A produção de “refugo humano” ou, mais exatamente, de seres humanos refugados, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos, os que não obtiveram permissão para ficar, é um produto inevitável da nossa sociedade. É consequência inseparável da modernização, efeito colateral da construção da ordem e do progresso econômico - diz trecho na contracapa do livro “Vidas desperdiçadas”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Caminhando pela Avenida São João, centro de São Paulo, uma cena me faz refletir sobre as palavras que lera no livro de Bauman. Passa da meia-noite. Um pombo solitário belisca resquícios de comida em volta do cobertor encardido de um andarilho que dorme na calçada.
Ué, mas o pombo não dorme? Indaguei-me. Pelo jeito, não. Até as aves se adaptam à rotina de São Paulo. À noite, talvez, evite a concorrência na disputa por restos de comida na calçada. Durante o dia, teria de disputá-lo com outros pombos que ali vivem.
 A cena do pombo lembra os moradores de rua da capital paulista, cuja existência é um desafio constante. Alguns puxam carrinhos com papéis que juntam para vender; outros dormem debaixo de marquises ou em algum canto onde possam se acomodar.
Eles pedem esmolas nos semáforos ou sentados na calçada. A Praça da Sé é uma espécie de reduto deles. Ali, uns falam sozinhos ou fazem gestos como se estivessem discutindo com alguém. De repente, se revoltam e esmurram o invisível com socos no ar.
Há os que preferem o silêncio e a desconfiança. Talvez escaldados pelas agruras das ruas, evitam conversas. Mas há os sempre prontos a falar, desabafar. Eu, o professor Almir e o irmão dele, Júlio, caminhamos pelo Pátio do Colégio (centro). Naquele local, os padres jesuítas levantaram a primeira construção de São Paulo. Muitos moradores de rua ali. Alguns vivem até em barracas improvisadas.

Vejo um sujeito de cabelos pintados de vermelho. Simpático, ele topa falar. De Vitória (ES) veio para São Paulo tentar carreira de cantor. O sucesso não lhe sorriu. Douglas Silva, 32 (foto acima), lançou um CD, mas a gravação “não virou”. Sem emprego e dinheiro, restou-lhe a rua.
- Mas não sou vagabundo - defende-se. - Durmo embaixo de um abrigo na calçada, dividindo espaço com outros moradores de rua. Vez ou outra chega alguém me dizendo: “cantor não liga, não, vou cheirar um pó aqui”. Eu fico na minha. Não uso drogas -.
De volta à Praça da Sé. Um homem puxa um carrinho de catar papel com uma cachorra amarrada ao lado. Renildo Conceição, 66, vive na rua. A cachorra Vanessa o acompanha há três anos. Gorda e pelo liso, ele diz que a cadela é tratada com carne e ração, que ganha no comércio.
- Quando peguei ela era bebê. Virou minha companheira. Dorme do meu lado e, se necessário, me defende – diz ele, enquanto Vanessa late sem parar com cachorros que passam perto do carrinho.







Voltei à região da Praça da República. Na Rua 24 de Maio, encontrei o Ângelo Tadeu (foto acima), um paulista de 50 anos nascido na capital. Princesa, Neguinha e Laika estão amarradas ao seu carrinho de carregar papel. Elas latem com quem se aproxima. Ele diz gostar de animais, e as cadelas são companheiras fiéis nas andanças pela cidade.  
Solteiro, diz morar na rua há 35 anos. Ele conta que desavenças com a família o levaram a sair de casa. – Não dá certo, não. Eles lá (os parentes) e eu aqui – afirma. Trabalhou por muitos anos em um depósito de construção, mas perdeu o emprego e não conseguiu voltar ao mercado de trabalho. Sem dinheiro e casa foi morar na rua.
- Uma vida sofrida – reclama. - Eu fui assaltado umas dez vezes. No Inverno, a situação se agrava, o que ajuda, graças a Deus, é o coração bom das pessoas, que doam cobertores e roupa de frio pra gente -, diz, ressaltando que não falta comida para as cadelas, que estão castradas e gordas. – O povo dá ração, osso e até carne -. A venda de papel lhe rende cerca de R$ 15,00 por dia.
- É pouco, mas dá pra se virar – declara ele, afirmando não consumir bebida alcoólica nem drogas. – Evito porque essas coisas fazem mal. Eu bebia cachaça, mas fiquei doente um tempo, tive de tomar remédio e então parei de vez -.  





Maringá também tem moradores de rua. Um deles é Paulo Luís do Prado, conhecido por Zé Mochila (foto acima). Estava eu o radialista Rogério Rico numa padaria, na Avenida Herval, ele se aproximou. Rico que o entrevistara em seus programas de rádio, o apresentou a mim. Nascido em Floriano, distrito de Maringá, ele não sabe precisar quanto tempo vive nas ruas, mas deixou a família com 17 anos.
Com 56 anos, Prado diz que uma igreja evangélica lhe causou uma decepção e o fez desanimar da vida. Por algum tempo ficou internado num hospital psiquiátrico. Com dois irmãos em Sarandi e um em Cascavel, ele diz viver de pequenos bicos e do Bolsa Família, auxílio do governo federal que lhe rende R$ 85,00 por mês. Diz não consumir bebida alcoólica e cigarro, o que lhe permite economizar e guardar uns trocados na poupança.
A mãe dele ficou viúva três vezes. O primeiro marido, pai dele, se matou nas margens do córrego Taquaruçu, em Floresta, onde sua família morava. Ele carregou uma espingarda cartucheira, amarrando um barbante no gatilho e no dedo do pé. Encostou o cano no ouvido e disparou a arma, morrendo no local.
- Eu tinha um ano e só lembro que nossa casa ficou cheia de gente para o velório e eu engatinhando debaixo do caixão do meu pai – conta.
Prado permanece em Maringá, mas de vez em quando viaja pelo Brasil. Conhece Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e até a Argentina. A rua lhe é familiar, mas também lhe traz dissabores. Assaltaram-no quatro vezes. A experiência o levou a tomar cuidado ao escolher um local para dormir.
Ele evita permanecer ao relento, desprotegido. Se não conseguir pernoitar em albergues ou outros lugares de acolhimento, procura marquises de postos de combustível e borracharias. Diz que nesses locais se sente mais seguro, pois está próximo de gente.  
Solteiro, ele quer se casar. Diz que até os 60 anos encontrará a mulher “da sua vida”. Antes, quer fazer uma cirurgia para extrair uma hérnia na virilha que lhe incomoda e uma verruga no rosto. Outro sonho é ser pastor evangélico, apesar da decepção religiosa que sofreu e sobre a qual prefere não comentar.
- Eu tenho o dom do Espírito Santo. Agora sinto um calor no corpo. É o Espírito Santo se manifestando – afirma ele no momento da entrevista. Leitor da Bíblia e de gibis, Prado diz também gostar de música. Amado Batista e Roberto Carlos são seus cantores prediletos.  
Um hábito dele é falar de gastronomia. Durante esta entrevista, ele citou algumas receitas. Por exemplo: bater leite com ovo e trigo misturado ao polvilho de mandioca resulta num delicioso bolo. Para ele, preparar tempero é fácil. Basta misturar alho, shoyu, vinagre, sal e pimenta do reino ou cebola. Se o interlocutor tiver paciência de ouvir é uma dica gastronômica atrás da outra.

"REINSERÇÃO SOCIAL É A SAÍDA", DIZ PROFESSORA


A professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Ana Lúcia Rodrigues, 55 (foto abaixo), e coordenadora do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, da mesma instituição, e do Observatório das Metrópoles, Núcleo da UEM, diz que os moradores de rua de Maringá estão desprotegidos e a melhor maneira de amenizar o problema é a reinserção social. Entrevista a seguir.




Como está a situação dos moradores de rua em Maringá?

Desprotegidos e desassistidos pela assistência social, considerando que há uma política nacional para a população em situação de rua, aprovada pelo decreto número 7053/2009 do Ministério de Desenvolvimento Social. Pela qual, diversos projetos e recursos são disponibilizados aos municípios.
Em Maringá, são três projetos nacionais implantados: o Centro POP Rua, que atende durante o dia com serviços especializados que reúnem equipe de psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, pessoal de abordagem, entre outros. São oferecidas diversas atividades no local, como higiene, alimentação, contato com familiares, busca de reinserção, orientações e encaminhamentos para serviços públicos.
A Casa de Passagem (antigo Albergue), lugar para dormir que já abrigou mais de 100 pessoas por noite atualmente atende apenas 30. Há ainda o Portal da Inclusão, onde as pessoas ficam durante um ano, morando em uma casa alugada pela Prefeitura, atendidos por equipe técnica, para serem reinseridas no mercado de trabalho e na sociedade.
Também este projeto poderia incluir mais de 100 pessoas, mas Maringá optou por abrigar apenas dez. É muito pouca gente nessa situação na cidade, o que permite ao poder público enfrentar o problema e dar repostas eficientes. Não será com a repressão, a violência ou a velha prática da passagem para irem embora que a questão será resolvida.   

Frequentemente se ouve dizer que moradores de rua é um problema complexo. Qual é a solução para ele?

É complexo, sim, pois as pessoas nessa condição reúnem um conjunto de vulnerabilidades. São pobres e, a maioria, desempregada; dependentes químicos; muitos têm problemas graves de saúde. Mas por meio de investimento público é possível responder às dificuldades que elas enfrentam.
Também é necessário ampliar vagas nos espaços públicos de atendimento; criar lavanderias coletivas em alguns pontos da cidade, onde eles próprios possam lavar e secar suas roupas; instalar geladeiras nas calçadas em que possam depositar alimentos para que eles consumam; construir pequenas estruturas cobertas e abertas, nas praças públicas, com bancos e ganchos para dependurar redes, entre outras medidas. Todas as estruturas com manutenção e limpeza públicas.
Mas a melhor politica é a reinserção social, pois nas duas pesquisas que realizamos em Maringá, em 2015 e 2016, 92,5% e 93,3% disseram que desejavam sair da rua.      

No caso de Maringá, qual o perfil dessa gente?

Constatamos que 90% são homens; 30% são brancos e 65% pretos ou pardos; 50% têm ensino fundamental incompleto; 13% ensino médio; 3,5% nenhuma escolaridade; 20% fundamental completo e 0,5% superior.
            Não conseguimos abordar todas as pessoas. Abordamos e entrevistamos 160 em 2015 e 117 em 2016. Há uma estimativa de que havia nos dois momentos cerca de 200 pessoas nas ruas de Maringá, mas observamos que em 2017 esse número vem aumentando. Estamos organizando nova pesquisa este ano, que será realizada até julho.


MAIS DE 15 MIL MORAM NAS RUAS DE SP; 291 EM MARINGÁ

A Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou que o Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo, em 2015, detectou 15.905 pessoas nessas condições. O órgão diz que é um assunto complexo, levando em conta a peculiaridade de cada pessoa nesta situação.
No entanto, informa que a gestão atual tem como meta melhorar e ampliar os serviços já existentes na cidade e, além disso, dois programas específicos para essa população já estão em andamento: o "Espaço Vida" e o "Trabalho Novo".
         Diz ainda que os atuais Centros de Acolhida serão reconfigurados e "transformados" em Espaço Vida, melhorando sua estrutura, ampliando os serviços e as áreas comuns. Assim, o padrão de qualidade será maior do que o existente, além de pretender que sirvam como campo de preparação para o trabalho em diversas áreas.
         O programa Trabalho Novo promove a capacitação e inserção dos moradores em situação de rua no mercado de trabalho, proporcionando emancipação e conquista de autonomia dessas pessoas, como empregado ou empreendedor. Formalização de parcerias com empresas de diversos segmentos já acontece. O trabalho em conjunto entre o setor público e o privado é fundamental para a realização do objetivo.
Acrescenta que, atualmente, a SMADS realiza abordagem de moradores em situação de rua em toda a cidade. Eles são encaminhados aos serviços com foco em cada segmento específico: pessoas sozinhas, famílias, idosos, crianças e adolescentes, população LGBT e imigrantes.
 Maringá
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura informou que a Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc) identificou 291 moradores de ruas em Maringá, em 2016. Declara que a Prefeitura oferece o Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situações de Rua (Centro Pop). No local, são realizadas ações para a reconstrução de projetos de vida, atividades de higiene, alimentação, lazer, interação e reflexão social, fortalecimento de vínculos interpessoais e familiares e, consequentemente, a reinserção social.
As pessoas são encaminhadas à Associação Aliança de Misericórdia e à Casa de Passagem Santa Luiza de Marilac. O Centro Pop também oferece, diariamente, Serviço Especializado em Abordagem Social para adultos. Em 2016, a Sasc registrou 2.332 atendimentos (1.763 migrantes) pelo Centro. Em 2017, 310 (130 migrantes).



ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO

           Tanto riso, Oh! quanta alegria, Mais de mil palhaços no salão Arlequim está chorando Pelo amor da Colombina No meio d...