segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DIA EM QUE OS CAFEZAIS DO INTERIOR DO PARANÁ FORAM TINGIDOS DE NEGRO


Faz 42 anos que a geada negra dizimou os cafezais do Paraná anulando sonhos e obrigando muitos agricultores a trocarem a roça pela cidade, mas a cultura cafeeira se recuperou e ressurge com força e qualidade em pequenas propriedades

Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e AD

O então governador do Paraná, Jayme Canet, visita cafezal destruído, em 1975





Eu tinha hábito de acordar cedo para beber o primeiro leite que saía das tetas das vacas. Meu pai as ordenhava, e eu corria com uma caneca de alumínio. Ele a enchia de leite. Minha mãe misturava uma colher de cachaça. Dava um gosto especial. Acompanhado de uma batata doce assada era meu café da manhã. Mas naquele dia foi diferente. Meu pai era meeiro e tocava uma propriedade de café na zona rural de Califórnia, no Vale do Ivaí. Não lembro quantos, mas eram milhares de pés de café.
A noite não foi tranquila. Dormi de calça e com duas blusas. Minha mãe me cobriu com um colchoado de paina. Pesado, me fez sumir no colchão de palha. Manhã de 18 de julho de 1975, dia do meu aniversário. Eu completava nove anos. O frio não me impediu de sair correndo com a caneca de alumínio. A cada assoprada expelia um tucho de fumaça pela boca. Queria o leite quentinho misturado a uma colher de pinga.  Encontrei meu pai mudo e estático observando os pés de café, que se avizinhavam da casa. Ele tentava recuperar as forças para ordenhar as vacas. Lágrimas lhe caíam dos olhos. Eu agarrei às pernas dele e desandei a chorar.
Horror
Esta cena não me sai da cabeça: meu pai contemplando a lavoura que, com a chegada dos primeiros raios de sol da manhã, começava a ficar negra. O frio que abateu os cafezais do Paraná está na lembrança de quem o vivenciou. Muita gente rumou para a cidade. Alguns permaneceram na zona rural. Derrotados pela monocultura do café adotaram a diversificação agrícola, iniciada nos anos 1980. A família Dada é uma das que apostaram em outras culturas. Até hoje vive numa propriedade de dois alqueires na Estrada Vieira, na zona rural de Marialva. “Na época, meu pai tocava apenas café”, conta Eduardo Dada, 46 anos. “Não chegamos a passar fome como alguns produtores, mas sofremos bastante”.
            Ele e a mãe, Elvira Angelotti Dada, 83 anos, não sabem precisar quantos pés de cafés perderam em 1975. “Aquilo foi um horror”, diz ela. “O sol esquentou, e o cheiro de folha verde queimada tomou conta”. Elvira afirma que o prejuízo não foi maior porque eles não tinham meeiro. A própria família cultivava o café. “Mesmo assim, meu pai teve de cortar despesas e reduzir os investimentos na propriedade”, acrescenta Eduardo.
Catástrofe
O andar vagaroso de Hisato Hashimoto, amparado por uma bengala, não condiz com sua memória. Aos 91 anos, ele se lembra de fatos e pessoas. Nascido em Lins (SP), ele chegou a Marialva em 1947. Vive na mesma propriedade de cinco alqueires, nas margens da estrada que liga a cidade ao distrito de Santa Fé. Em 1975, Hashimoto era empregado, mas perdeu todo o café que cultivava. “Foi uma catástrofe, que nos deixou a zero”, conta. “Nossa sorte que naquele tempo, vivia-se de qualquer jeito, mesmo sem dinheiro, sustentando do que se plantava na roça e dos porcos e galinhas criados no quintal”.
Na época, ele colhia uma média de 700 sacas de café plantado com espaçamento, possibilitando o cultivo de milho, arroz e feijão entre os pés. Hashimoto diz que após a geada de 1975, o trabalho maior foi dar destino à lenha seca que restou. “Trabalhamos vários dias para retirar aquele entulho sem serventia”, afirma.
Mas ele não desanimou com a geada. Ao contrário de muita gente que partiu para a cidade ou outros Estados, permaneceu no sítio, comprando-o, mais tarde, com dinheiro oriundo do trabalho no local, onde mora até hoje. Casado com Tomie Hashimoto, 90 anos, ele tem quatro filhos, dez netos e dois bisnetos. Mora apenas com a mulher no local, que é um verdadeiro museu do café. As casas de madeira. O terreirão, a tulha e o secador.  O café, oito mil pés, continua o carro-chefe da propriedade. Ele não soube informar números da safra, alegando que, de ano para ano, varia muito.



Geada foi golpe de misericórdia, mas provocou até suicídios

O jornalista Valderi dos Santos diz no seu livro, “O café no norte do Paraná – ascensão e queda”, que a geada de 1975 destruiu mais de 900 milhões de pés de café no Estado. Ele ressalta, no entanto, que o fenômeno foi apenas um golpe de misericórdia. Para o jornalista, o governo federal não dera devida atenção aos cafeicultores, derrubando o preço da cultura, desvalorizando-a no mercado. Eram tempos difíceis. Os agricultores, que não recebiam incentivos do governo, foram mais rápidos à lona com as condições adversas do clima.
             O engenheiro agrônomo Marcos Aurélio Volpato, 56 anos, diretor geral de Agricultura, da Prefeitura de Marialva, afirma que o estrago da geada se ampliou porque a maioria dos agricultores dependia apenas do café. Houve casos em que a perda chegou ao extremo. “Alguns que já estavam endividados acabaram cometendo até suicídio”, conta. Na época, ele era estudante do antigo segundo grau.
            Volpato ressalta que o pior ocorreu após a destruição dos cafezais. Muita gente se mudou da zona rural para capitais. Irineu Pozzobon, no livro: “A epopeia do café no Paraná”, afirma que entre 500 e 600 mil trabalhadores deixaram o Estado. A maioria foi para São Paulo trabalhar nas indústrias automobilísticas. “Com as crises econômicas muitos perderam o emprego e ficaram na penúria”, declara. “Os que não conseguiram voltar ou não trocaram de ramo sofreram muito”. O feijão soja foi uma das opções para quem quis continuar na agricultura.

            A safra paranaense de 1975, colhida antes da geada, rendeu 10,2 milhões de sacas de café, 48% da produção brasileira. O Estado tinha uma produtividade superior à média nacional. No ano seguinte, a produção foi de 3,8 mil sacas. Não houve exportação. A participação paranaense na produção brasileira caiu para 0,1%.
Especialistas avaliaram que o prejuízo chegara a Cr$ 600 milhões (pela cotação da época, o equivalente a US$ 75 milhões) apenas nas lavouras de café. Outras culturas também foram atingidas. Mas o café sustentava a economia do Paraná naquela época. Uma situação que mudaria em seguida, pois os cafeicultores nunca mais se recuperariam daquele evento climático. 


Pioneiro que morreu com 103 anos viveu auge
          do café nas máquinas beneficiadoras da CMNP

Uma das maiores produtoras de café da região foi a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP). Colonizadora que nasceu da Companhia de Terras Norte do Paraná, fundada por ingleses em 1925. Paralelo à venda de terras, a companhia comprou várias fazendas para cultivar café.
Quem viveu essa época de fortuna dos grandes cafezais é o pioneiro José Remígio Pereira, que chegou a Maringá em 1953. Ele morreu em agosto do ano passado aos 103 anos, mas em 2015, no aniversário de 40 anos da “geada negra”, me recebeu na casa dele, em Maringá, para uma entrevista sobre o tema. O pioneiro se recordou de quando saía pela região para consertar as máquinas de café da companhia, onde trabalhava.  
Um de seus trajetos era ir até Umuarama (160 quilômetros de Maringá) reparar uma máquina cafeeira. Com chuva, de jipe, demorava sete horas pela estrada de chão batido. O meio mais fácil era o avião teco-teco, que fazia o percurso em 40 minutos. “Lá de cima, a gente via aquela nuvem de poeira que saía do chão, era Maringá”, conta.
Na cidade, tornou-se operador da Cafeeira Santo Antônio, que funcionava na Avenida Mauá, esquina com a Avenida Tuiuti. Em 1965, foi vendida para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O gerente da colonizadora, Alfredo Nyfeller, impôs uma condição: só compraria a cafeeira se Remígio, Luiz Roberto Bolotta e Dante Panzeri (também funcionários) viessem juntos.
Proposta aceita, Remígio permaneceu 31 anos na companhia. Ele lembra que em época de safra beneficiava 200 sacas de café por dia. As fazendas da colonizadora tinham 1 milhão de pés de café e produziam em torno de 50 mil sacas por ano.
Luiz Roberto Bolotta, 73, da Cafeeira Santo Antônio foi transferido para o escritório da companhia, na esquina entre a Avenida Duque de Caxias e rua Joubert de Carvalho, onde trabalhou por 35 anos. Na época, havia mais de 50 máquinas de beneficiar café em Maringá. Segundo ele, o café rendia muito dinheiro para a companhia. “No período de venda, minha rotina era contar maços de cédulas no balcão do escritório e levar tudo a pé numa sacola ao banco”, conta. “Naquele tempo não havia assalto”. 
Remígio deixou oito filhos de três casamentos. Era casado pela terceira vez com Florinda Rossi Pereira, 81 (FOTO ABAIXO DO CASAL). Ele disse que naquele dia 18 de julho de 1975 fez tanto frio que se os pés de café tivessem sido cobertos queimariam do mesmo jeito. “Eu fiz o teste”, contou. “Cobri um pé que tinha no quintal de casa, mas ficou todo preto soltando a casca”. As mangueiras de água amanheceram congeladas. “Algumas chegaram a partir”, acrescenta o pioneiro.





Engenheiro fotografou a história do café

Em seu Jipe Willys fabricado em Toledo Ohio, nos Estados Unidos, em 1954, ele cortava as estradas barrentas do norte e noroeste do Estado. “Por aqui havia a fama: quando não era pó, era lama, mas a gente encarava e ia em frente”, recordara-se ele, em entrevista, em 2013. Trata-se do fotógrafo Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser, que morreu em 2014, aos 88 anos. Engenheiro agrônomo, ele trabalhou no Instituto Brasileiro do Café entre 1953 e 1989. Nas visitas que fazia pelo Paraná fotografava assuntos relacionados ao café.
O acervo fotográfico de Armínio veio a público com os livros “Ao sabor do Café” e “Ao aroma do café”. A autoria dos trabalhos é do Instituto de Memória e Imagem “Câmara Clara”. Não faltavam cenas para a câmera dele. Em 1967, em Mandaguari, um homem, que vem da zona rural, leva ao cemitério, o corpo do filho num caixãozinho. Dois sujeitos proseiam na beira de uma estrada, que, segundo Armínio, se intitula: “Esperando Godot”. “Mas Godot não veio”, complementa.
As cenas mais tristes que fotografou talvez tenham sido em 1963, ano de um incêndio nas lavouras do Paraná. Após uma grande geada, pastos e cafezais ficaram secos. Trabalhadores atearam fogo para fazer o plantio esperando a chuva, que não veio. O fogo se alastrou e por cerca de quatro meses transformou em cinzas casas, lavouras, pontes e tudo que tinha pela frente.
Mas as geadas de 1962 e 1963 e o incêndio rural que se seguiu no Paraná não impediram a grande produção cafeeira. Veio a erradicação. Em seu livro “A epopeia do café no Paraná”, o engenheiro agrônomo Irineu Pozzobon escreve que a erradicação atingiu 1,34 bilhões de cafeeiros no Brasil; 249 milhões no Paraná.
Com a crise de 1929, o preço do café despencou no exterior. O governo federal resolveu comprar 18 milhões de sacas, ajudando os produtores. Sem ter o que fazer com tanto café, queimou-as. Armínio descrevera: “Quem passasse entre Arapongas e Sabáudia em junho de 1961 assistiria a um espetáculo inédito: um mundaréu de café pegando fogo. Por aqui, ouvi falar em 10 milhões de sacas de café virando cinzas”.
Após as geadas e os incêndios da década de 1960, o frio voltou em 1975. As lavouras que mal tinham saído de uma catástrofe eram dizimadas pela geada negra. ABAIXO FOTO DE ARMÍNIO KAISER RETRATA MULHER ABANANDO CAFÉ NA DÉCADA DE 1950.


Geada negra mata até a raiz

A geada negra é formada por uma condição atmosférica que congela a parte interna da planta. O poder de destruição é maior. Ocorre quando há atuação de massa de ar polar de forte intensidade, com temperatura baixa e pouca umidade. Em contato com a superfície há o congelamento, provocando enormes danos físicos na planta. “É um fenômeno precedido de muito vento”, diz o professor Hélio Silveira, 45, do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenador da Estação Climatológica da mesma instituição.
Quando se forma apenas uma camada de gelo na superfície chama-se geada branca. Se a seiva da planta congelar é geada negra. Esse último tipo é a mais devastadora para as plantações, mas só ocorrem em cidades muito frias. No Brasil, na maioria das vezes, apenas nas regiões serranas do Sul. Foi o que ocorreu em 18 de julho de 1975. No dia anterior ventou muito. “A geada negra se forma devido ao vento muito gelado, congelando a seiva da planta e ocasionando perda total”, afirma Silveira.
O jornalista Valderi dos Santos, no livro “O Café no norte do Paraná – ascensão e queda” relata que em 1953, a geada provocou queda de 58% nas safras seguintes. Em 1955, 65%; 1962, 49%; 1963, 22%; 1966, 24%; 1969, 87%; 1972, 58% e 1975 prejuízo total. “Na época foi destruído todo o parque cafeeiro do Estado”, escreve ele. 
FOTO ABAIXO: Moradores de Curitiba brincaram de fazer boneco de neve, em 18 de julho de 1975.




Produção ressurge com força e qualidade

O Paraná hoje não figura entre os maiores produtores de café do Brasil. Há muitos anos, perdeu o posto para Minas Gerais. Mas o Estado vive um bom momento na produção do grão. As pequenas propriedades lideram a produção. A maioria é cultivada mecanicamente. É o caso de Antônio Geraldo Rosseto, 54, de Mandaguari.
Descendente de italiano, cujos pais, em 1953, atraídos pelo café, vieram do interior de São Paulo para Mandaguari.  A família Rosseto tem um sítio nas margens da rodovia que liga a cidade à Maringá. Antônio, que nasceu na propriedade, cultiva 20 mil mudas. A colheita lhe garante em torno de 500 a 600 sacas em coco. A diferença está na lida do produto. Tudo mecanizado.
A colheita dos grãos é feita com máquinas manuais. Em seguida, são transportados numa caminhonete até o terreiro. Rosseto não quis nem posar para foto com um rastelo na mão. Mas nem sempre foi assim. Segundo ele, antigamente, “era tudo no braço”. Quando ameaçava chuva durante a colheita era um problema. “A gente ia pegar um animal para pôr no carrinho era um Deus nos acuda”, afirma. “Parece que o bicho adivinhava e danava a correr”.
Apesar dos contratempos na economia que atrapalham a agricultura, ele e a família apostam no café, que já lhe deu um título de melhor produtor regional em concurso organizado pela Cooperativa Agropecuária e Industrial de Mandaguari (Cocari). “Hoje, o que manda é a qualidade”, diz. “Pouca planta e bastante colheita”. Antigamente, plantava-se muito, mas produzia menos e com qualidade inferior.
Para ele, a geada de 1975 foi uma catástrofe, mas quem não dependia de mão de obra conseguiu se recuperar. É o caso da família Rosseto que sofreu o impacto do fenômeno climático, mas se reergueu. Mesmo assim, alguns dos parentes foram para São Paulo, onde moram até hoje.
O agrônomo Marcos Aurélio Volpato diz que o café é um bom negócio, levando em conta o preço, que gira em torno de R$ 400 a saca de 60 quilos. Mas ele aconselha o produtor a explorar a atividade com mão de obra familiar, evitando gastos excessivos. “Mecanizar o máximo possível e só contratar mão de obra esporadicamente”, diz, acrescentando: “Cultivar a lavoura no sistema adensado; utilizar cultivares mais resistentes a pragas e doenças; colher no pano com sopradores de palhas motorizados e secar em terreiros suspensos ou em lonas plásticas”. 
FOTO ABAIXO: Rosseto diz que mecanização do café facilita para o produtor



segunda-feira, 3 de julho de 2017

O DIA EM QUE A CIDADE VIROU SERTÃO


Tinoco, mito da música caipira, foi homenageado em Maringá, em 2009, com show cuja renda foi revertida para tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer

(Texto e foto: Airton Donizete)


Tinoco posa para foto na Cerealista Pantaneira, de Maringá; ele esteve na cidade para show no Clube Olímpico, em 2009, cuja renda foi destinada para tratamento de saúde da mulher dele, Nadir, que viria a morrer logo depois, vítima de câncer




O telefone toca. Era o Aníbal, compadre do Tinoco, convidando o Fregadolli (da Revista Tradição) para almoçar na Cerealista Pantaneira. No cardápio, frango caipira e polenta. Mas a atração principal era o próprio Tinoco que se preparava para o show em sua homenagem no Clube Olímpico, de Maringá. A renda do evento foi revertida para custear tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer.
 Eu fui junto, pois era a oportunidade de entrevistar Tinoco, um dos últimos representantes da música caipira. De camisa vermelha, calça branca e óculos escuros, nos aguardava. Ele autografava alguns DVDs que seriam vendidos no show, mas logo me convidou para ir a uma salinha ao lado, pois tem dificuldade para ouvir.
Pena que o tempo era curto. Tinoco tinha de almoçar e cumprir alguns compromissos antes do show. Um personagem como ele é uma espécie de poço cujo fundo ainda não foi atingido. Sempre é possível cavar mais um pouco. E lá fui eu com minha cavadeira, ou melhor, meu gravador.
José Perez, o Tinoco, nasceu em 19 de novembro de 1920 em Platânia (SP) e João Salvador Perez, o Tonico, em 2 de março de 1917 em São Manuel, no mesmo Estado. Começaram a cantar como Irmãos Perez, mas logo foram batizados pelo Capitão Furtado, apresentador do programa “Arraiá da Curva Torta”, na Rádio Tupi.
Não demorou muito, e o palhaço Saracura lançou o bordão: ‘Dupla Coração do Brasil’. O apresentador Dárcio Campos passou a chamá-los de ‘Os expoentes máximos da música sertaneja’. Daí em diante, a história é longa e só mesmo Tinoco para nos contar um pouco dela, bem ao seu estilo com aquela linguagem caipira que não se ouve mais. Afinal, pelo menos por um dia, a cidade virou sertão. Veja trechos do dedo de prosa, a seguir.

Fale um pouco da carreira de Tonico e Tinoco?

TINOCO – Nossa carreira começou quando me conheci por gente. Naquele tempo, não tinha foinha. Minha mãe era índia. Eu cantava fininho e o Tinoco mais grosso. A gente fazia versinho assim: “O tatu casou com a onça, a onça ranhou o tatu”.
Nós morava na roça, no sertão de São Manoel. Apredemo compor, tocar, sem ouvir ninguém. Então, sempre falo: quem deu a mão pra nóis foi Deus. Abraçamo o dom que Deus nos deu. Foram 72 anos de carreira.
Platânia fica a 15 quilômetros de São Manuel. Eu andando lá com o prefeito vi uma casinha de madeira onde nóis moramo 80 anos atrás. Aí, o prefeito desmontou ela e levou pra Platânia e fez uma casa curturar. Lá, está todo nosso acervo. Nas paredes, tem o sinal da fumaça da lamparina. O mesmo fugão de lenha onde minha mãe cozinhava. A taipa onde nóis esquentava fogo. Naquele tempo, não tinha cuberta pra aquecer. Tudo isso aconteceu na década de 40 no começo da nossa carreira.

A carreira de vocês deslanchou quando o Capitão Furtado batizou-os?

A gente já cantava antes, mas ali começou tudo. Ele deu nome e levou nóis pra gravar. Foi o primeiro passo. Foi na Rádio Difusora, que depois passou a chamar Tupi. Era do grupo das Emissoras Associadas comandadas por Assis Chateaubriand. Ele disse que a gente precisava de um nome bem caboclo.  
E deu certo. Tamos aí até hoje. Digo tamos porque depois que o Tonico morreu, vai fazer 14 anos no próximo dia 13 de agosto, eu me senti obrigado a manter a estrada de Tonico de Tinoco.
E Deus me ajudou. Gravei três CDs cantando a voz do Tonico fazendo a segunda e a primeira. Tive uns parceiros, mas não deu certo. Agora, eu faço dupla: Tinoco e Deus. O amor do povo é uma beleza. Você vê a juventude, 80% no meu show. E nossas músicas, não têm uma que inventamos. É tudo história de vida. Por isso que elas entram no coração e não sai mais.
      
Tonico e Tinoco vieram muitas vezes ao Norte do Paraná?

Nossa... Nóis ajudamo a desbravar isso aqui. Quando nóis vinha aqui tavam derrubando mato. Olha, tudo é coisa por Deus. Os pais e o filho mais velho vinha comprar terra nesse trecho de Londrina a Mandaguari. Vinha com dinheiro pra pagar a terra. E já contratava camarada pra derrubar mato. Tudo isso a gente acompanhava.

E Maringá?

Vim pra cá quando não tinha estrada. Só jipe pra chegar. Muita gente acabava de chegar de carroça. Se a família era grande, vinha três, quatro carroças. Uma trazendo mantimento. Tinha mais dois cavalos amarrado atrás; quando um cansava, ponhava o outro. Eu e o Tonico não tinha onde comer. Então, eu chegava lá onde as carroças tavam na horinha do almoço. Eles convidava pra almoçar, e eu levava um caldeirão pra trazer, era pra comer no outro dia.
Eu com o Tonico levava uma caneca só pra beber água. Em qualquer riozinho de beira de estrada você baixava e bebia. Não tinha poluição.

Você disse que as músicas de vocês contam histórias reais, por que hoje não se faz mais músicas assim?

Não... hoje é tudo descartavi... Tem cantor que repete uma linha 10, 20 vezes. Outro só quer chacoalhar a bunda pra dançar. Mais, nóis, Tonico e Tinoco sempre desviamo disso. Não é só agora, não. Lá atrás também.

Certa vez, a gravadora quis que vocês usassem uma roupagem moderna e vocês não aceitaram?

É... houve isso. Foi quando o Roberto Carlos e a Jovem Guarda estourou. Por que essa roupa lumiante aqui? Quis saber. A gravadora (Continental) falou: “Vou mudar vocês”. Eu falei:”Mudar como?”. Vocês vão sair num carro sem capota pra mostrar o novo visuar. Falei, não. Para, para...
Depois disso, esperei dois anos pra gravar. Até passar aquela onda.

Quantos discos Tonico e Tinoco gravaram?

Não dá nem pra contar. Quando fizemo 50 anos de carreira era 80 LP e quase 300 de 78 rotações. Aqueles que têm uma música de cada lado. Temos bastante também daqueles disquinhos que saiu na década de 70, aqueles que tinha que pôr um peso em cima da agulha pra conseguir tocar. Músicas? Contando tudo que gravamos e fizemos passa de 1500.

Batidas na porta. É o compadre (do Tinoco) Aníbal que vem chamar Tinoco para almoçar, pois um canal de TV espera-o para gravar. Tenho de encerrar a entrevista. À noite, centenas de fãs aplaudiram-no no Clube Olímpico. Acompanhado de Juliano César, Márcia Mara, Zé Paulo, Gilberto e Gilmar, Léo e Giba e Teodoro e Sampaio, Tinoco cantou alguns de seus principais sucessos. Segundo a coluna DIA-A-DIA, do saudoso jornalista Edson Lima, o evento arrecadou R$ 49.585,00.
     


segunda-feira, 12 de junho de 2017

VIDAS ERRANTES



Moradores de rua de São Paulo e Maringá revelam histórias angustiantes e contam como enfrentam o desafio de dormir ao relento e andar sem destino pelas cidades


(Texto e fotos Airton Donizete)




Morador de rua  em São Paulo, que tem pelo menos 15 mil na mesma situação

- A produção de “refugo humano” ou, mais exatamente, de seres humanos refugados, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos, os que não obtiveram permissão para ficar, é um produto inevitável da nossa sociedade. É consequência inseparável da modernização, efeito colateral da construção da ordem e do progresso econômico - diz trecho na contracapa do livro “Vidas desperdiçadas”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Caminhando pela Avenida São João, centro de São Paulo, uma cena me faz refletir sobre as palavras que lera no livro de Bauman. Passa da meia-noite. Um pombo solitário belisca resquícios de comida em volta do cobertor encardido de um andarilho que dorme na calçada.
Ué, mas o pombo não dorme? Indaguei-me. Pelo jeito, não. Até as aves se adaptam à rotina de São Paulo. À noite, talvez, evite a concorrência na disputa por restos de comida na calçada. Durante o dia, teria de disputá-lo com outros pombos que ali vivem.
 A cena do pombo lembra os moradores de rua da capital paulista, cuja existência é um desafio constante. Alguns puxam carrinhos com papéis que juntam para vender; outros dormem debaixo de marquises ou em algum canto onde possam se acomodar.
Eles pedem esmolas nos semáforos ou sentados na calçada. A Praça da Sé é uma espécie de reduto deles. Ali, uns falam sozinhos ou fazem gestos como se estivessem discutindo com alguém. De repente, se revoltam e esmurram o invisível com socos no ar.
Há os que preferem o silêncio e a desconfiança. Talvez escaldados pelas agruras das ruas, evitam conversas. Mas há os sempre prontos a falar, desabafar. Eu, o professor Almir e o irmão dele, Júlio, caminhamos pelo Pátio do Colégio (centro). Naquele local, os padres jesuítas levantaram a primeira construção de São Paulo. Muitos moradores de rua ali. Alguns vivem até em barracas improvisadas.

Vejo um sujeito de cabelos pintados de vermelho. Simpático, ele topa falar. De Vitória (ES) veio para São Paulo tentar carreira de cantor. O sucesso não lhe sorriu. Douglas Silva, 32 (foto acima), lançou um CD, mas a gravação “não virou”. Sem emprego e dinheiro, restou-lhe a rua.
- Mas não sou vagabundo - defende-se. - Durmo embaixo de um abrigo na calçada, dividindo espaço com outros moradores de rua. Vez ou outra chega alguém me dizendo: “cantor não liga, não, vou cheirar um pó aqui”. Eu fico na minha. Não uso drogas -.
De volta à Praça da Sé. Um homem puxa um carrinho de catar papel com uma cachorra amarrada ao lado. Renildo Conceição, 66, vive na rua. A cachorra Vanessa o acompanha há três anos. Gorda e pelo liso, ele diz que a cadela é tratada com carne e ração, que ganha no comércio.
- Quando peguei ela era bebê. Virou minha companheira. Dorme do meu lado e, se necessário, me defende – diz ele, enquanto Vanessa late sem parar com cachorros que passam perto do carrinho.







Voltei à região da Praça da República. Na Rua 24 de Maio, encontrei o Ângelo Tadeu (foto acima), um paulista de 50 anos nascido na capital. Princesa, Neguinha e Laika estão amarradas ao seu carrinho de carregar papel. Elas latem com quem se aproxima. Ele diz gostar de animais, e as cadelas são companheiras fiéis nas andanças pela cidade.  
Solteiro, diz morar na rua há 35 anos. Ele conta que desavenças com a família o levaram a sair de casa. – Não dá certo, não. Eles lá (os parentes) e eu aqui – afirma. Trabalhou por muitos anos em um depósito de construção, mas perdeu o emprego e não conseguiu voltar ao mercado de trabalho. Sem dinheiro e casa foi morar na rua.
- Uma vida sofrida – reclama. - Eu fui assaltado umas dez vezes. No Inverno, a situação se agrava, o que ajuda, graças a Deus, é o coração bom das pessoas, que doam cobertores e roupa de frio pra gente -, diz, ressaltando que não falta comida para as cadelas, que estão castradas e gordas. – O povo dá ração, osso e até carne -. A venda de papel lhe rende cerca de R$ 15,00 por dia.
- É pouco, mas dá pra se virar – declara ele, afirmando não consumir bebida alcoólica nem drogas. – Evito porque essas coisas fazem mal. Eu bebia cachaça, mas fiquei doente um tempo, tive de tomar remédio e então parei de vez -.  





Maringá também tem moradores de rua. Um deles é Paulo Luís do Prado, conhecido por Zé Mochila (foto acima). Estava eu o radialista Rogério Rico numa padaria, na Avenida Herval, ele se aproximou. Rico que o entrevistara em seus programas de rádio, o apresentou a mim. Nascido em Floriano, distrito de Maringá, ele não sabe precisar quanto tempo vive nas ruas, mas deixou a família com 17 anos.
Com 56 anos, Prado diz que uma igreja evangélica lhe causou uma decepção e o fez desanimar da vida. Por algum tempo ficou internado num hospital psiquiátrico. Com dois irmãos em Sarandi e um em Cascavel, ele diz viver de pequenos bicos e do Bolsa Família, auxílio do governo federal que lhe rende R$ 85,00 por mês. Diz não consumir bebida alcoólica e cigarro, o que lhe permite economizar e guardar uns trocados na poupança.
A mãe dele ficou viúva três vezes. O primeiro marido, pai dele, se matou nas margens do córrego Taquaruçu, em Floresta, onde sua família morava. Ele carregou uma espingarda cartucheira, amarrando um barbante no gatilho e no dedo do pé. Encostou o cano no ouvido e disparou a arma, morrendo no local.
- Eu tinha um ano e só lembro que nossa casa ficou cheia de gente para o velório e eu engatinhando debaixo do caixão do meu pai – conta.
Prado permanece em Maringá, mas de vez em quando viaja pelo Brasil. Conhece Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e até a Argentina. A rua lhe é familiar, mas também lhe traz dissabores. Assaltaram-no quatro vezes. A experiência o levou a tomar cuidado ao escolher um local para dormir.
Ele evita permanecer ao relento, desprotegido. Se não conseguir pernoitar em albergues ou outros lugares de acolhimento, procura marquises de postos de combustível e borracharias. Diz que nesses locais se sente mais seguro, pois está próximo de gente.  
Solteiro, ele quer se casar. Diz que até os 60 anos encontrará a mulher “da sua vida”. Antes, quer fazer uma cirurgia para extrair uma hérnia na virilha que lhe incomoda e uma verruga no rosto. Outro sonho é ser pastor evangélico, apesar da decepção religiosa que sofreu e sobre a qual prefere não comentar.
- Eu tenho o dom do Espírito Santo. Agora sinto um calor no corpo. É o Espírito Santo se manifestando – afirma ele no momento da entrevista. Leitor da Bíblia e de gibis, Prado diz também gostar de música. Amado Batista e Roberto Carlos são seus cantores prediletos.  
Um hábito dele é falar de gastronomia. Durante esta entrevista, ele citou algumas receitas. Por exemplo: bater leite com ovo e trigo misturado ao polvilho de mandioca resulta num delicioso bolo. Para ele, preparar tempero é fácil. Basta misturar alho, shoyu, vinagre, sal e pimenta do reino ou cebola. Se o interlocutor tiver paciência de ouvir é uma dica gastronômica atrás da outra.

"REINSERÇÃO SOCIAL É A SAÍDA", DIZ PROFESSORA


A professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Ana Lúcia Rodrigues, 55 (foto abaixo), e coordenadora do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, da mesma instituição, e do Observatório das Metrópoles, Núcleo da UEM, diz que os moradores de rua de Maringá estão desprotegidos e a melhor maneira de amenizar o problema é a reinserção social. Entrevista a seguir.




Como está a situação dos moradores de rua em Maringá?

Desprotegidos e desassistidos pela assistência social, considerando que há uma política nacional para a população em situação de rua, aprovada pelo decreto número 7053/2009 do Ministério de Desenvolvimento Social. Pela qual, diversos projetos e recursos são disponibilizados aos municípios.
Em Maringá, são três projetos nacionais implantados: o Centro POP Rua, que atende durante o dia com serviços especializados que reúnem equipe de psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, pessoal de abordagem, entre outros. São oferecidas diversas atividades no local, como higiene, alimentação, contato com familiares, busca de reinserção, orientações e encaminhamentos para serviços públicos.
A Casa de Passagem (antigo Albergue), lugar para dormir que já abrigou mais de 100 pessoas por noite atualmente atende apenas 30. Há ainda o Portal da Inclusão, onde as pessoas ficam durante um ano, morando em uma casa alugada pela Prefeitura, atendidos por equipe técnica, para serem reinseridas no mercado de trabalho e na sociedade.
Também este projeto poderia incluir mais de 100 pessoas, mas Maringá optou por abrigar apenas dez. É muito pouca gente nessa situação na cidade, o que permite ao poder público enfrentar o problema e dar repostas eficientes. Não será com a repressão, a violência ou a velha prática da passagem para irem embora que a questão será resolvida.   

Frequentemente se ouve dizer que moradores de rua é um problema complexo. Qual é a solução para ele?

É complexo, sim, pois as pessoas nessa condição reúnem um conjunto de vulnerabilidades. São pobres e, a maioria, desempregada; dependentes químicos; muitos têm problemas graves de saúde. Mas por meio de investimento público é possível responder às dificuldades que elas enfrentam.
Também é necessário ampliar vagas nos espaços públicos de atendimento; criar lavanderias coletivas em alguns pontos da cidade, onde eles próprios possam lavar e secar suas roupas; instalar geladeiras nas calçadas em que possam depositar alimentos para que eles consumam; construir pequenas estruturas cobertas e abertas, nas praças públicas, com bancos e ganchos para dependurar redes, entre outras medidas. Todas as estruturas com manutenção e limpeza públicas.
Mas a melhor politica é a reinserção social, pois nas duas pesquisas que realizamos em Maringá, em 2015 e 2016, 92,5% e 93,3% disseram que desejavam sair da rua.      

No caso de Maringá, qual o perfil dessa gente?

Constatamos que 90% são homens; 30% são brancos e 65% pretos ou pardos; 50% têm ensino fundamental incompleto; 13% ensino médio; 3,5% nenhuma escolaridade; 20% fundamental completo e 0,5% superior.
            Não conseguimos abordar todas as pessoas. Abordamos e entrevistamos 160 em 2015 e 117 em 2016. Há uma estimativa de que havia nos dois momentos cerca de 200 pessoas nas ruas de Maringá, mas observamos que em 2017 esse número vem aumentando. Estamos organizando nova pesquisa este ano, que será realizada até julho.


MAIS DE 15 MIL MORAM NAS RUAS DE SP; 291 EM MARINGÁ

A Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou que o Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo, em 2015, detectou 15.905 pessoas nessas condições. O órgão diz que é um assunto complexo, levando em conta a peculiaridade de cada pessoa nesta situação.
No entanto, informa que a gestão atual tem como meta melhorar e ampliar os serviços já existentes na cidade e, além disso, dois programas específicos para essa população já estão em andamento: o "Espaço Vida" e o "Trabalho Novo".
         Diz ainda que os atuais Centros de Acolhida serão reconfigurados e "transformados" em Espaço Vida, melhorando sua estrutura, ampliando os serviços e as áreas comuns. Assim, o padrão de qualidade será maior do que o existente, além de pretender que sirvam como campo de preparação para o trabalho em diversas áreas.
         O programa Trabalho Novo promove a capacitação e inserção dos moradores em situação de rua no mercado de trabalho, proporcionando emancipação e conquista de autonomia dessas pessoas, como empregado ou empreendedor. Formalização de parcerias com empresas de diversos segmentos já acontece. O trabalho em conjunto entre o setor público e o privado é fundamental para a realização do objetivo.
Acrescenta que, atualmente, a SMADS realiza abordagem de moradores em situação de rua em toda a cidade. Eles são encaminhados aos serviços com foco em cada segmento específico: pessoas sozinhas, famílias, idosos, crianças e adolescentes, população LGBT e imigrantes.
 Maringá
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura informou que a Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc) identificou 291 moradores de ruas em Maringá, em 2016. Declara que a Prefeitura oferece o Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situações de Rua (Centro Pop). No local, são realizadas ações para a reconstrução de projetos de vida, atividades de higiene, alimentação, lazer, interação e reflexão social, fortalecimento de vínculos interpessoais e familiares e, consequentemente, a reinserção social.
As pessoas são encaminhadas à Associação Aliança de Misericórdia e à Casa de Passagem Santa Luiza de Marilac. O Centro Pop também oferece, diariamente, Serviço Especializado em Abordagem Social para adultos. Em 2016, a Sasc registrou 2.332 atendimentos (1.763 migrantes) pelo Centro. Em 2017, 310 (130 migrantes).



domingo, 21 de maio de 2017

ELES PUSERAM MARINGÁ NA VANGUARDA DA ARTE

Um mineiro, um paulista, um japonês, um alemão e um italiano, na longínqua década de 1950, deram formato à história artística de um embrião de cidade, que crescia exuberante em meio àquele inóspito sertão

Texto: Airton Donizete

Fotos: Acervo da Gerência de Patrimônio Histórico e AD

Maringá não é apenas “Cidade Canção”; é uma cidade de sorte. Pelo menos, em se tratando de arte. Logo após sua fundação, em 10 de maio de 1947, cinco artistas de peso se estabeleceram aqui. Na década de 1950, eles se destacaram cada em sua área, transformando Maringá numa referência artística. A influência deles foi fundamental para construir uma identidade da arte local.
O historiador João Laércio Lopes Leal assim se refere aos anos 1950 no livro “História artística e cultural de Maringá – 1936/1990”: “Um decênio farto em figuras, acontecimentos, produtos e práticas relacionados ao cultivo desse universo tão rico e revelador de um tipo de mentalidade peculiar, pois as manifestações artístico-culturais numa área onde essas não são prioridades, nem mesmo levadas a sério, e, mesmo assim, teimam em acontecer, só demonstra o quanto interessante é sua história”.
Na literatura, Ary de Lima. Claro, na mesma época, surgiram eminentes figuras das letras: Jorge Ferreira Duque Estrada, Antônio Augusto de Assis (A. A. de Assis), Antônio Mário Manicardi, Dari Pereira, Benedito Moreira de Carvalho, Zaia Carvalho, Galdino Andrade, Verdelírio Barbosa, João Amaro de Farias, entre outros. Mas Lima, digamos assim, foi o representante mor da área naquela década de 1950.

O mineiro talentoso

Ari de Lima, mineiro militante político e precursor da literatura maringaense


 Natural de São Sebastião do Paraíso (MG), Lima foi professor, político, poeta e jornalista. Nasceu em 1914 e, aos 14 anos, era respeitado professor de português e literatura. Na sua cidade natal foi radialista, jornalista e político, elegendo-se suplente de deputado estadual. Ele era da União Democrática Nacional (UDN), oposição ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Getúlio Vargas.
Em 1952, veio para Maringá, assumindo a gerência do Banco Mineiro da Produção. A cidade fervia com gente de muitas partes do Brasil. Em 1954, deixou o banco, retomou a carreira de professor, dedicando-se ao jornalismo e à política. Na Rádio Cultura, comandou o programa “Marcha dos Pioneiros”, narrando a saga dos colonizadores de Maringá; apresentava também “Coisa de outro mundo”, no qual com ironia denunciava mazelas locais, regionais e nacionais.
Com o poeta A.A. de Assis redigia a revista “Maringá Ilustrada”. Em parceria com Aniceto Matti compôs a letra do “Hino a Maringá”. Compôs também os hinos de Loanda (PR), São Sebastião do Paraíso (MG) e Sinop (MT). Autor dos livros: “Sol poente e sol nascente”, “O sertão ressuscitou”, “Meu Brasil brasileiro – poemas caboclos”, “Discursos parlamentares”, “Melancólico destino das Sete Quedas”, “Panorama florestal brasileiro”, “Turismo – nova aurora de esperanças”, “O desbravador Ênio Pepino”, “O Dia Nacional do Folclore” e “O verde está morrendo”. 

 O italiano que veio por acaso

Professor Aniceto veio da Itália e ministrou as primeiras lições de música na "Cidade Canção"

Nascido norte da Itália, na região de Piacenza, em 1920, o maestro Aniceto Matti é precursor da arte musical em Maringá, na década de 1950. Com nove anos de idade, ganhou seu primeiro piano. Aos 28 anos, concluiu, num conservatório da Itália, o curso superior em música. Também cursou licenciatura poética e dramática. Em 1948, ele mudou-se para Buenos Aires, onde viveu por cinco anos com tios e primos.
Com 33 anos, em 1953, veio passear em Londrina. Queria conhecer as plantações de café do norte do Paraná, o que o levou a pegar carona num caminhão e vir até Maringá. Caiu uma chuvarada fazendo muita lama. Ele pretendia voltar a Londrina, mas, talvez por causa do mau tempo, não encontrou o caminhoneiro que o trouxera. 
Queria retornar à Argentina, mas o pioneiro Joaquim Dutra o incentivou a ficar e lhe arrumou um emprego na Rádio Cultura. Dava aula de piano e acordeão e cuidava da parte artística do “Clube do Caçula”, um dos programas de sucesso da emissora. Conheceu Ary de Lima, que trabalhava na emissora, e o professor Geraldo Altoé, que o convidou para dar aula de Educação Artística no Colégio Estadual Gastão Vidigal. Matti e Lima venceram o concurso para a escolha do hino a Maringá.

Apaixonado pelo teatro

Calil Haddad contribuiu para o desenvolvimento da arte cênica em Maringá

Nascido em Jaú (SP), em 1926, Calil Haddad era o 11º filho de uma família de 12 irmãos, cujos pais eram Regina e Nassib Haddad. Eles vieram de Jacarezinho, norte do Paraná, e chegaram a Maringá em 1946. Calil cursou o primário e o ginásio em Jacarezinho, destacando-se nas disciplinas de francês, latim e matemática.
Nassib fora professor na Síria e, em Maringá, tornou-se comerciante de tecido com a Casa São Jorge, no Maringá Velho. Formado em direito, Calil não exerceu a profissão, tornando-se professor. Simpatizante do comunismo, a paixão dele, o teatro, tornou-se realidade ao conhecer Victor Andreata, um alemão radicado no Brasil, que se dedicava à arte circense.
O historiador João Laércio destaca no livro “História Artística e Cultural de Maringá – 1936/1950”: “Victor ensinou-lhe desde a percepção do potencial da pessoa para atuar, até a forma como lidar com os atores, a fim de extrair o máximo rendimento na hora do ensaio e no momento de execução da peça”.
Superando as dificuldades da época, Calil, fundou, em 1956, o grupo “Teatro Maringaense de Comédias (TMC)”. Em 1959, encenaram a peça “Irene”, de Pedro Bloch. Nos anos seguintes, entre outras, apresentaram “As árvores morrem de pé”, do escritor espanhol Alejandro Casona. Participavam do TMC: Lair Krambeck, Darcy Urizzi, Jerônimo da Silva, Élvio Lemos, Edna Pereira, José Klenckner, Carmen Lopes, Lucia Pires, Edno Gonçalves Fernandes, Raimundo Tavares, Simone Motta, Joerson José Inocêncio, Moacir Cardoso, Zeneide Corrêa, Célia Rosa de Souza e Domingos Fernandes. 

O cronista da imagem

Kenji Ueta contou a história de Maringá registrando os principais eventos da cidade

A arte fotográfica chegou a Maringá em 1940 com os japoneses: Shizuma Kubota, Tutomu Sanuki e um teuto-brasileiro Augusto Eduardo Eidam. Mas eles encerram o negócio no começo da década de 1950. Shizuma e Eidam, inclusive, venderam seus estúdios para Kenji Ueta, que se tornou uma espécie de cronista fotográfico daquela Maringá que começava a se desenvolver. 
Seu Kenji, como é conhecido, fala baixinho. Às vezes, se enrosca em algumas palavras. Mas bater papo com ele vale a pena. Kenji chegou a Maringá, em 1951. Um homem da lida. Após a morte dos pais trabalhou na roça, na região de Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo. Nascido no Japão, em 5 de agosto de 1927, chegou ao Brasil aos cinco anos após viajar por 48 dias no navio Santos Maru.
De lá veio para Maringá, onde começou a trabalhar numa loja de tecido. Ele e os irmãos Yukio e Tetsuaki juntaram algum dinheiro e entraram para o ramo de fotografia. Logo nasceu o Foto Maringá, no qual está até hoje. Kenji se tornou fotógrafo de eventos. Fotografava casamentos, batizados, festas de debutantes e tudo que aparecesse naquela festiva boca de sertão. Mas tinha tino jornalístico e de historiador.
Diferentes de outros fotógrafos que registraram o nascimento da cidade, ele fotografava com objetivo de guardar as imagens para mostrar no futuro. “Imaginei, do jeito que Maringá está crescendo, mais tarde, o povo vai querer saber como era antes”, racionou. “Então, comecei a registrar a transformação das ruas e das casas de comércio”.
 Ele acredita na máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Aliás, vai além. Diz que uma imagem vale por 100 mil palavras. “Não adianta só contar é preciso mostrar”, declara. “Aí entram as imagens que provam o que a gente fala”. Não faltam provas. O fotógrafo tem um arquivo com milhares de cenas de Maringá. Muitas inéditas.

O pintor da terra vermelha

Edgar Osterroht fugiu da guerra da antiga Prússia e retratou com sua pintura a história de Maringá

Dirigi-me à rua Santa Maria, número 27, centro de Maringá, onde  vive o artista plástico Edgar Werner Osterroht. Atrás de uma mesa, numa sala espaçosa com quadros pelas paredes, ele me recebeu.  Não revela a idade, mas pouco importa. Nasceu nos anos 1930 em Tilsit, na antiga Prússia, que foi abolida no fim da Segunda Guerra Mundial. Fugindo dos russos, a família tentou imigrar para o Canadá, mas preferiu o Brasil e, em 1951, chegou a Maringá.
Eles chegaram à cidade na jardineira da Viação Garcia. De Apucarana a Maringá foram cinco horas. Edgar levou algum tempo para se adaptar àquela terra vermelha e ao imenso sertão que se formava na região. Para quem chegava, parecia o fim do mundo. Principalmente, para alguém que vivia na Europa.
Engenheiro, ele foi topógrafo e urbanista da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP) até a década de 1960. Ajudou a criar mais de 15 cidades na região e, entre outros, trabalhou com os engenheiros Vladimir Babkov e Walter Kreiser, que, segundo ele, é um dos inventores do helicóptero. “Foi uma época difícil, mas interessante porque tudo o que se ia fazer era uma aventura”, lembra. “Pensei em ir para São Paulo trabalhar mesmo que fosse de engraxate, mas acabei ficando”.
Casado, dois filhos, Edgar é exímio desenhista. Aos dois anos já rabiscava figuras de carro num papel. Dom que o acompanhou e o transformou num grande artista plástico. Quando trabalhava na CMNP aproveitava as horas vagas para desenhar. “Não havia rádio, televisão, jornais, revistas e nem bar para tomar cerveja, então eu desenhava para não enlouquecer”, conta.
Os desenhos de Edgar retratam a Maringá de outrora. Como ele mesmo diz no prefácio de um dos seus livros: “Lembrando um pouco daquelas cidades de madeira do famoso faroeste norte-americano”. Os desenhos dele se transformaram em dois livros que revelam a história da cidade. Lançados em 1997 e 2007.

Quem chega ao seu escritório anexo a casa dele depara com um quadro do diretor da CMNP, Alfredo Nyffeller, e outro do engenheiro Vladimir Babkov, da mesma empresa. Mas as pinturas não se limitam a pessoas. Retratam ruas, avenidas e famosos estabelecimentos comerciais da cidade. Por exemplo, o Hotel Maringá, no Maringá Velho.
Edgar realizou a primeira exposição de arte de Maringá no Restaurante Lord Lovat, que funcionava na Avenida Tiradentes. Na época, a arte causava espanto. “Aquele alemão não tá bem da cabeça”, diziam. “Pintar casas sujas de barro velho”! Mas aos poucos ele conquistou muitos admiradores e hoje é uma referência da história de Maringá.

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