domingo, 1 de julho de 2018

A HISTÓRIA EMERGE DAS ÁGUAS


Embarcações retiradas do rio Paraná oriundas de confronto entre tropas legalistas e rebeldes na Revolução Tenentista de 1924 são objetos de ação que o MPF move contra o IPHAN exigindo que sejam restauradas e expostas em local adequado

(Por Airton Donizete)

Dois barcos retirados do fundo do Rio Paraná, a mais ou menos 40 quilômetros de Porto Rico, no noroeste do Estado, são uma espécie de elo com a Revolução Tenentista de 1924. As embarcações metálicas, que estavam a seis metros de profundidade, apelidadas de chatas, têm 16 metros de comprimento por três metros de largura.  
Encontradas em 2009 por um pescador e retirados da água pelo metalúrgico Ismael Alves Esmanhoto, 51, estavam a serviço da Revolução Tenentista de 1924. Um dos maiores conflitos armados ocorridos no Brasil teve seu ápice em São Paulo. Os tenentes se rebelaram, revoltados contra o governo de Arthur da Silva Bernardes (1922-1926).
De um lado, as tropas federais em defesa de Bernardes; de outro, parte do Exército Nacional e da Força Pública Paulista tentavam destituí-lo. O Brasil era um país agrário, pastoril, dominado por uma elite agrária e urbana, que praticava a política do “café com leite”. Representantes de Minas Gerais e São Paulo se revezavam na presidência da República.
Moralização pública, instauração do voto secreto, ensino público obrigatório, justiça gratuita e melhorias das condições de trabalho eram algumas das reivindicações dos tenentes. Em 1922, a Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, já demonstrara a insatisfação tenentista.
Em 5 de julho de 1924, o confronto eclodiu em São Paulo, durante 23 dias. Aviões comandados pela força federal despejavam bombas nos revoltosos, arrasando tudo. Diziam que a capital paulista parecia um bolo cheio de velinhas por causa da quantidade de focos de incêndio espalhados pela cidade. Pelos menos 20 mil soldados lutavam pelo governo federal. Os números são controversos, mas estima-se a morte de mil pessoas e milhares de feridos.
Preocupados com os constantes ataques legalistas, os cerca de seis mil revoltosos deixaram a capital paulista. Eles seguiram em 13 composições de trem, da Estação da Luz, na capital paulista, a Bauru. De lá, chegaram a Três Lagoas (MS), onde houve confronto com as tropas legalistas, que os perseguiam. Os revoltosos desceram o rio Paranapanema, alcançaram o Rio Paraná. A intenção era se juntar a Coluna Prestes, liderada por Luiz Carlos Prestes, que vinha do Rio Grande do Sul.
Pelo rio Paraná, eles chegaram a Guaíra e, por fim, Foz do Iguaçu, onde se encontraram com a Coluna Prestes. Antes, parte dos rebeldes se concentrou em Catanduvas, no oeste paranaense. Ali, houve um sangrento confronto com as tropas legalistas, comandadas pelo então general Cândido Rondon. No Paraná, portanto, Prestes e Miguel Costa se juntam reforçando a coluna Prestes ou Coluna Prestes e Miguel Costa, para alguns.
Confronto
Os barcos encontrados revelam que no rio Paraná houve um confronto entre rebeldes e tropas do governo federal. É o que garante o advogado Getúlio Braz Anziliero, 71, de Nova Londrina, ex-professor apaixonado por história, que se dedica a estudar a Revolução Tenentista, de 1924. Segundo ele, na descida do rio, revoltosos se confrontaram com soldados legalistas e jagunços comandados pelo bandoleiro Quincas Nogueira. Camuflados nas margens do Rio Paraná, eles dispararam contra os revoltosos.
Anziliero fala em pelo menos 500 mortes no embate naquele trecho de rio, proximidades dos portos São José e São João, embora livros, filmes e outras fontes consultadas para esta reportagem não confirmem. Mas houve confrontos na descida do rio. Juarez Távora, da linha de frente da Revolução Tenentista, em seu livro de memórias “Uma vida e muitas lutas”, revela embates na margem do Rio Paraná.
Távora relata que “uma força governista de cerca de 200 homens, comandada pelo capitão Dilermando Cândido de Assis estava entrincheirada no Porto São José, na margem paranaense, logo abaixo da foz do Paranapanema”. Ele também descreve que “elementos irregulares, sob o comando do caudilho Quincas Nogueira, ocupavam Porto São João na margem mato-grossense confrontante com Porto São José, guardando ainda o passo do rio Jacaré na Estrada Boiadeira, que liga esse porto a Entre Rios, no Sul de Mato Grosso”.
Segundo o livro de Távora, os barcos utilizados por rebeldes e legalistas pertenciam à Companhia Mate Laranjeira, empresa que explorava erva mate naquela região. Ele afirma que os soldados rebeldes, na descida do rio, se dividiram: parte seguiu por terra, a pé, margeando o leito do rio e parte em barcos. O militar diz que a tropa governista se entrincheirou na outra margem do Porto São José, enquanto a artilharia afundaria, com tiros diretos, barcos ancorados no porto.  
Para Anziliero, não há dúvida de que os barcos encontrados são oriundos do embate entre rebeldes e legalistas da Revolução Tenentista, de 1924. “Infelizmente, é um assunto pouco estudado”, diz, ressaltando o apelido da Revolução de 1924, chamada de “Revolução Esquecida”. Ele critica a maneira que os barcos foram retirados do Rio Paraná, sem acompanhamento de especialistas em resgates de objetos históricos submersos. “Perdeu-se muita coisa, infelizmente, que ficou com a areia no fundo do rio”.
Até osso humano
Mesmo assim, muitos objetos foram resgatados dos barcos emergidos. Balas de metralhadora, fuzil, pistolas, baionetas, facas, fivelas de cintos, botões com emblema da Força Pública do Estado de São Paulo, caixas de ferramentas e até um pedaço de osso humano estavam no interior das embarcações. “Esperamos que as autoridades tomem providência e não deixem isso tudo se perder”, afirma o advogado. “É parte da história do Brasil que está aqui”. Ele diz que há pelo menos mais um barco no fundo do rio. “Pelos nossos cálculos e estudos, acreditamos nessa hipótese”.
            A passagem dos revoltosos pelas margens do rio Paraná estão registradas nas cartas que enviam e recebiam. Entre as 432 cartas escritas por eles e por membros das forças legalistas disponíveis no Arquivo Público do Estado de São Paulo, algumas são remetidas dos portos São José e São João. Uma delas, datada de 4 de setembro de 1924, publicada nesta reportagem, é enviada pelo general João Francisco ao capitão Simas.
            Desde que foram retirados do rio Paraná, em 2009, os barcos da Revolução de 1924 permanece num terreno da Prefeitura de Porto Rico cobertos por uma lona. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN) impediu que Esmanhoto ficasse com eles. Ele pretendia restaurá-los e transformá-los num museu flutuante. Mas, para o Ministério Público Federal, de Paranavaí, os barcos não podem permanecer onde estão e precisam ser preservados.
         O MPF acionou o IPHAN, exigindo restauração das embarcações e artefatos históricos e, posteriormente, construção de um espaço para abrigá-los. Caso não cumpra as exigências, o MPF impôs multa diária de R$ 1.000,00 ao IPHAN, que recorreu da ação. A reportagem entrou em contato, por três vezes, com o órgão, mas até o fechamento desta edição, em 3 de novembro, não houve resposta. 

FOTOS E LEGENDAS PELA SEQUÊNCIA:

Balas e outros objetos retirados do rio com os barcos

Carta enviada pelo general João Francisco, do Porto São José, no Rio Paraná, ao capitão Simas, datada de 4 de setembro de 1924 

O combate em São Paulo deixou muita destruição

O metarlúgico Ismael Esmanhoto na retirada de um dos barcos

Um dos barcos retirados do rio Paraná























segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO


           Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão
(“Máscara negra”, Zé Kéti e Hildebrando Matos – 1967)

Além da Cidade Canção, era o que se ouvia nos clubes e avenidas de Sarandi, Marialva, Mandaguari, Jandaia do Sul, Apucarana, Nova Esperança e Astorga


Por Airton Donizete
Fotos: Arquivo pessoal

Não é saudosismo, mas o carnaval não é mais o mesmo. Até por que não existem mais marchinhas como “Máscara Negra”, do saudoso Zé Kétti. Entre tantas outras, claro. É preciso recorrer ao passado para mostrar que houve bons carnavais em Maringá e região. Em Maringá, até o fim da década de 1980, a folia tinha Rei Momo. A gestão do prefeito Ulisses Maia (PDT) trouxe de volta o carnaval popular, realizado na Vila Olímpica. Alento e esperança para os foliões.   
No passado, a escolha de quem ocuparia o trono de Rei Momo, em Maringá, de não era fácil. Elói Victor de Mello, então presidente da Comissão Organizadora do Carnaval no começo da década de 80, convocou a diretoria para uma reunião, que definiu: o novo Rei Momo seria o escritor Osvaldo Fernandes Reis, que morreu em 2017.
Com aval do secretário Otávio Salvadori e do presidente Léo de Paula e Silva, ambos do Clube Olímpico, Mello comunicou a decisão a Reis, que ficou de responder no dia seguinte. Ele foi chamado para uma reunião na Prefeitura. Ao chegar lá, a Imprensa o aguardava para uma coletiva. “Não tive chance de decidir nada”, afirmou. “A escolha já estava feita”.

Reis reinou
Definido pelos jornais como simpático e acessível, Reis foi Rei Momo entre 1981 e 1986. Com 140 quilos, ele tornou-se uma figura de prestígio na cidade. Durante o Carnaval, reinava no Olímpico, mas transitava pelo Maringá Clube, Country, Acema, Teuto-Brasileiro e Bailão Popular do Atlântico.
Em todos os clubes, Reis era recebido com euforia e respeito. “Me achava realmente um rei”, recordou ele numa entrevista em 2015. “Havia mesa preparada pra mim e muita gente aguardando para fotos e cumprimentos”. Apesar de pertencer ao Clube Olímpico, ele reinava para a cidade, inclusive de posse das chaves que recebera do então prefeito João Paulino Vieira Filho.
Natural de Bom Sucesso (Vale do Ivaí), Reis chegou a Maringá em 1953. Era autodidata e autor de dez livros. Após passar por uma cirurgia de redução de estômago parou de engordar. Os problemas de saúde, no entanto, foram se agravando, e ele morreu no ano passado.
            Ele dizia ter boas recordações do carnaval maringaense. “Era um tempo bom, que elevava o nome da cidade para todo o Paraná e até pelo Brasil”, afirmou. “Infelizmente, tudo acabou”. Para ele, a culpa era da televisão, que levou a folia para dentro de casa. “A gente ia ao carnaval para festejar, mas as pessoas curtem tudo na telinha, sem sair da poltrona”. 

A escola de Sarandi

No início dos anos 80, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Olavo Bilac, de Sarandi, se reunia para bater papo. Entre uma conversa e outra, cantarolavam letras de sambas. Bolsas eram improvisadas como pandeiros. Até que Maurílio Barbosa, hoje com 52 anos, sugeriu que fundassem um bloco de carnaval.
Os amigos toparam e escolheram o nome do bloco: “Saranda-auê”. O número de participantes cresceu, e em 1986 transformou-se em escola de samba. Nascia a “Saranda-auê”, presidida por Maurílio Barbosa. Faltavam instrumentos. Eles procuraram o então prefeito de Sarandi, Hélio Gremes, que lhes cedeu espaço para instalação de uma barraca nas festas de aniversários da cidade.
Com o dinheiro arrecadado compraram parte dos instrumentos. Mais tarde o então deputado Antônio Bárbara e o prefeito da época, Júlio Bifon, doaram à escola os instrumentos que faltavam. Assim, a “Saranda-auê” transformou-se numa das maiores escolas de samba da região.
A escola realizou memoráveis desfiles em Sarandi. Segundo Barbosa, em 1989, a “Saranda-auê” foi campeã do carnaval de rua de Maringá, mas a comissão organizadora não teria aceito o resultado. Em 1992, a “Saranda-auê” voltou a desfilar em Maringá e sagrou-se campeã novamente. Desta vez, o título foi validado.
   
Jandaia, referência

Não se pode falar do carnaval na região sem citar Jandaia do Sul. Unidos da Vila Rica, Unidos da Vila Santo Antonio e Afujan, patrocinada pela empresa Jamel, se encarregavam do desfile de rua na cidade. Milhares de pessoas iam à Avenida Getúlio Vargas para ver as escolas. A Unidos da Barra Funda de Apucarana e integrantes do Clube Recreativo de Mandaguari participavam dos desfiles, nas décadas de 1980 e 1990.
A coordenação era do carnavalesco Celso Germano de Oliveira, o Pelé, que morreu em 2013. As escolas acabaram, mas ele continuou a promover bailes de carnaval todos os anos no salão da Ampac em Jandaia do Sul.  
Para ele, o carnaval de rua sucumbira-se pela falta de dinheiro e gente para organizar a festa. “Naquela época, eu era autônomo e tinha tempo de correr atrás de tudo”, disse à Revista Tradição, em 2011. “Hoje (na época), sou empregado e não tenho a mesma disponibilidade”.
Pelé acrescentara que a falta de dinheiro era o maior entrave. “Não se põe uma escola com 400 componentes na avenida, como era a Unidos da Vila Santo Antônio, com menos de R$ 200 mil (em 2011)”, calculara. “Como não se tem de onde tirar esse dinheiro, não tem desfile”.  

Desfiles ousados em Apucarana

Em Apucarana, havia quatro escolas de samba: Unidos da Barra Funda, Salário Mínimo, Águias do Alvorecer e Garotos do Paraíso. Durante o carnaval, pelo menos duas vezes, saíam na avenida principal da cidade e atraíam milhares de pessoas.
A Unidos da Barra Funda, fundada em 1967, foi campeã do carnaval de rua de Apucarana por três anos seguidos: 1985, 1986 e 1987. Presidida pelo saudoso Paulo Henrique Venâncio, o Bavária, encantava a multidão com criativos sambas enredos e fantasias.
A alta inflação dos anos 80 servia de inspiração. “Vou sonhar/vou sonhar bem alto/ esquecendo nossa rica inflação, dizia o samba enredo da Salário Mínimo em 1988. Fundada em 1979, por muitos anos foi comandada pelo advogado Dirceu Borges Filho, o Dirceuzinho.
Fundada em 1986, no ano seguinte, a Águias do Alvorecer chocou ousou na avenida. Naquele ano, a escola desfilou com duas mulheres de seios nus. O top-less causou frisson, mas ajudou a divulgar a escola.
Etelvino Francisco, o Chico Preto, comandava a Garotos do Paraíso, que fez sucesso em 1987, com o carro alegórico Princesa Isabel. Ele sempre viajava ao Rio de Janeiro em busca de sambistas para reforçar o elenco da escola.

A folia nos clubes

Se em Jandaia e Apucarana, o carnaval brilhava na rua, em Mandaguari, era nos clubes. Na década de 50, a folia era no Clube do Aeroporto. Nos anos 60, os foliões se reuniam no Salão do Boliche, ao lado da Igreja Nossa Senhora Aparecida.
Nos anos seguintes, os blocos fizeram sucesso no Clube Recreativo. Eles se reuniam na Avenida Amazonas, de onde partiam para o clube ao som de tradicionais marchinhas.
O mesmo ocorria no Clube dos 30 em Marialva. A reunião de blocos atraía muita gente. Não era diferente no Clube Campestre de Nova Esperança, onde havia a tradicional “Bandinha do Clube”. Formada por antigos integrantes, todo carnaval eles se reuniam para a tradicional batucada.

Blocos em Astorga

Outro carnaval que deixou marca na região é o do Astorga Tênis Clube (ATC). A década de 1960 foi uma das mais efervescentes. A coordenação era da professora Florinda Gonçalves Lourenço. Dezenas de blocos animavam as noites de folia. Durante o ano, eles se cotizavam e compravam as roupas para confeccionar as fantasias.
Dona Florinda, como é conhecida, perdera a conta dos prêmios que ganhou nos carnavais. Quase todo ano, o bloco liderado por ela, conquistava o primeiro lugar. Ao lado do marido, Antonio Lourenço e dos filhos, ela não dava pausa nos quatro dias de folia com duas matinês.
Segundo Florinda, que concedeu entrevista à Revista Tradição, em 2009, as drogas e a violência fizeram o carnaval perder a graça. “No meu tempo, o lança-perfume era tolerado porque não era usado como droga”, disse. “Bebida alcoólica também tinha, mas os poucos que exageravam iam curtir o álcool lá fora”.
Florinda contou que os foliões punham a imaginação para funcionar. Uma das fantasias que ajudou a criar e fez sucesso foi inspirada nas cores do cigarro minister. “De tanta badalação que deu até um canal de TV veio filmar nosso baile”, ressaltou.
FOTOS (pela ordem)
Os memoráveis desfiles de carnaval de Jandaia do Sul
Saudoso Osvaldo Reis, Rei Momo em Maringá
Dona Florinda e o marido, Antônio, num dos muitos carnavais de Astorga










domingo, 17 de dezembro de 2017

ASSIM NASCEU O PAGODE DE VIOLA EM MARINGÁ


Nos anos 1950, Tião Carreiro vinha com frequência a Maringá, de onde saía com seu parceiro, Pardinho, para se apresentar nos circos da região, e numa dessas paradas no antigo Hotel Paulistano, com ajuda de Zorinho, atual maestro Itapuã, ele criou uma batida diferente na viola, consagrando um novo jeito de tocar o instrumento. É o que mostra o documentário “A mão direita do Itapuã – um caminho possível para conhecer o ritmo do pagode”, realizado pelo músico e pesquisador paulista Saulo Alves

(Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e Domingos Bernardino)

Houve um tempo em que Maringá respirava música sertaneja. Não, não é exagero. Não era como hoje em que músicas ditas sertanejas se propagam por várias mídias. Na década de 1950, os que dispunham de rádio ouviam programas sertanejos e, por aqui, havia os circos e o auditório da Rádio Cultura, na esquina das Avenidas Herval e 15 de Novembro, com apresentações e encenações sertanejas. A televisão engatinhava; o lazer se resumia aos circos, às apresentações de duplas sertanejas e ao cinema.
            Diante de tanta batida de viola e cantoria naquela boca de sertão, a jovem Maringá começou a atrair muitas duplas sertanejas de São Paulo. Apresentar-se por aqui era certeza de casa cheia e cachê garantido. O Hotel Paulistano, que ficava ao lado da Praça Raposo Tavares, tornou-se o destino da maioria delas. Com o passar do tempo, ganharam intimidade com o gerente do hotel, Antônio Martim Filho. Conhecido por Lenço Verde, ele se tornou empresário artístico das duplas na região, acertando shows e apresentações em circos.
 O músico e pesquisador musical Saulo Sandro Alves Dias, 45, de São Paulo, se interessou por um detalhe dessa história. Graduado e mestre em música, Doutor em Educação e pós-doutor em música pela Unicamp, ele soube que Tião Carreiro criou o pagode de viola em Maringá. Frequentador assíduo da Cidade Canção, o parceiro de Pardinho permanecia meses no Hotel Paulistano, de onde partia para apresentações na região. Nas horas de folga, Lenço Verde ia com ele, de jipe, levar roupa do hotel para lavar.
- O Tião era um sujeito muito simples que, inclusive, me ajudava em pequenas tarefas no hotel – dizia Lenço Verde.
A pesquisa de Saulo rendeu um documentário que acaba de ser lançado em São Paulo. “A mão direita do Itapuã – um caminho possível para conhecer o ritmo do pagode” revela como o pagode de viola foi criado em Maringá. O filme de 22 minutos exibe dois personagens que perfazem a história: o animador e apresentador sertanejo Orlando João Zenaro Manin, 78, o Coronel do Rancho, e Ozório Ferrarezi, 78, o Zorinho, que por muitos anos formou a dupla Zezinho e Zorinho, e hoje é o maestro Itapuã, professor de música em Santa Carmem (MT).
Coronel do Rancho, na gerência da Rádio Cultura, acompanhava os ensaios de Tião Carreiro numa salinha nos fundos da emissora.
- Tião era um sujeito inquieto. Pegava a viola, mexia e remexia nas cordas, até que um dia notei uma batida diferente, e ele me contou que aquele estilo se chamava pagode -.
A batida diferente vinha dos ensaios entre Tião e Itapuã, no Hotel Paulistano.
Um dia Tião lhe disse que tentava criar um novo ritmo na viola, mas os violonistas não se acertavam no acompanhamento.
- Então pedi a ele que tocasse a novidade pra mim. Ouvi por um instante o repique da viola e não pensei duas vezes em complementar com o violão aquele ritmo parecido com rumba espanhola e aí foi um casamento perfeito, dando origem ao pagode de viola -, conta Itapuã.
            Itapuã afirma no documentário que visitara Tião no hospital em São Paulo pouco antes de ele morrer, em 1993. O violeiro nunca disse publicamente que o maestro o ajudara a criar o pagode, mas lhe teria feito uma revelação durante a visita no hospital.
- Ele me disse: ‘quero que todos saibam que este moço foi meu parceiro na criação do pagode de viola’ e nunca reivindicou seus direitos -.
Itapuã se emociona com a revelação do então parceiro, dizendo não fazer questão do reconhecimento público.
- O que importa é minha amizade com o Tião, que foi muito bonita e possibilitou essa parceria - afirma. Em 1956, viria o primeiro disco em 78 rotações de Tião Carreiro e Pardinho, com as músicas: “Boiadeiro Punho de Aço” e “Cavaleiros do Bom Jesus”. Ali, já podiam ser notados os primeiros acordes do pagode que ganharam perfeição em 1960 com “Pagode em Brasília”, clássico de Teddy Vieira e Lourival dos Santos.
            Saulo diz que não pretendia incluir o norte e noroeste do Paraná nas pesquisas que realiza sobre música, mas ao saber da parceria entre Tião e Itapuã na criação do pagode seus planos mudaram.
- Este fato, que julgo ser bastante importante para a compreensão da história da música sertaneja, ocorreu em Maringá - diz o pesquisador, acrescentando que a música sertaneja tornou-se muito presente em toda esta região, acompanhando o ciclo econômico do café e os empreendimentos da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná.
            - A Rádio Cultura de Maringá, por exemplo, tocava o cancioneiro caipira para atender ao grande número de migrantes que ocupou a região, que já eram ouvintes da música de viola -.
            Ele pretende continuar pesquisando a música sertaneja no norte e noroeste do Paraná. Para Saulo, as modas campeiras “Paraná do Norte” e “Filão de Ouro”, ambas do compositor Diogo Mulero, o Palmeira, dão ideia acerca da visão de mundo que permeia o cancioneiro de matriz cultural caipira.
- Diogo Mulero e Luizinho (Palmeira e Luizinho) foram pioneiros entre as incontáveis duplas que ‘faziam o norte do Paraná’ - uma expressão típica entre as duplas que se hospedavam no Hotel Paulistano, que ficava ali na Rua Joubert de Carvalho, do lado da Praça Raposo Tavares -, arremata o pesquisador. Mário de Almeida, parceiro na realização do documentário, muito contribuiu para a qualidade final do trabalho.  

O pesquisador Saulo Alves lança documentário sobre criação do pagode de viola, em Maringá


Zorinho, atual maestro Itapuã, entre a dupla Milionário e Zé Rico, foi parceiro de Tião Carreiro 
O animador sertanejo Orlando Manin, o Coronel do Rancho, diz que testemunhou a criação do pagode de viola em Maringá, por Tião Carreiro, na década de 1950, quando o violeiro, com seu parceiro Pardinho, vinha à cidade com frequência 

Tião Carreiro, que, segundo o documentário de Saulo, criou o pagode de viola em Maringá











segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DIA EM QUE OS CAFEZAIS DO INTERIOR DO PARANÁ FORAM TINGIDOS DE NEGRO


Faz 42 anos que a geada negra dizimou os cafezais do Paraná anulando sonhos e obrigando muitos agricultores a trocarem a roça pela cidade, mas a cultura cafeeira se recuperou e ressurge com força e qualidade em pequenas propriedades

Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e AD

O então governador do Paraná, Jayme Canet, visita cafezal destruído, em 1975





Eu tinha hábito de acordar cedo para beber o primeiro leite que saía das tetas das vacas. Meu pai as ordenhava, e eu corria com uma caneca de alumínio. Ele a enchia de leite. Minha mãe misturava uma colher de cachaça. Dava um gosto especial. Acompanhado de uma batata doce assada era meu café da manhã. Mas naquele dia foi diferente. Meu pai era meeiro e tocava uma propriedade de café na zona rural de Califórnia, no Vale do Ivaí. Não lembro quantos, mas eram milhares de pés de café.
A noite não foi tranquila. Dormi de calça e com duas blusas. Minha mãe me cobriu com um colchoado de paina. Pesado, me fez sumir no colchão de palha. Manhã de 18 de julho de 1975, dia do meu aniversário. Eu completava nove anos. O frio não me impediu de sair correndo com a caneca de alumínio. A cada assoprada expelia um tucho de fumaça pela boca. Queria o leite quentinho misturado a uma colher de pinga.  Encontrei meu pai mudo e estático observando os pés de café, que se avizinhavam da casa. Ele tentava recuperar as forças para ordenhar as vacas. Lágrimas lhe caíam dos olhos. Eu agarrei às pernas dele e desandei a chorar.
Horror
Esta cena não me sai da cabeça: meu pai contemplando a lavoura que, com a chegada dos primeiros raios de sol da manhã, começava a ficar negra. O frio que abateu os cafezais do Paraná está na lembrança de quem o vivenciou. Muita gente rumou para a cidade. Alguns permaneceram na zona rural. Derrotados pela monocultura do café adotaram a diversificação agrícola, iniciada nos anos 1980. A família Dada é uma das que apostaram em outras culturas. Até hoje vive numa propriedade de dois alqueires na Estrada Vieira, na zona rural de Marialva. “Na época, meu pai tocava apenas café”, conta Eduardo Dada, 46 anos. “Não chegamos a passar fome como alguns produtores, mas sofremos bastante”.
            Ele e a mãe, Elvira Angelotti Dada, 83 anos, não sabem precisar quantos pés de cafés perderam em 1975. “Aquilo foi um horror”, diz ela. “O sol esquentou, e o cheiro de folha verde queimada tomou conta”. Elvira afirma que o prejuízo não foi maior porque eles não tinham meeiro. A própria família cultivava o café. “Mesmo assim, meu pai teve de cortar despesas e reduzir os investimentos na propriedade”, acrescenta Eduardo.
Catástrofe
O andar vagaroso de Hisato Hashimoto, amparado por uma bengala, não condiz com sua memória. Aos 91 anos, ele se lembra de fatos e pessoas. Nascido em Lins (SP), ele chegou a Marialva em 1947. Vive na mesma propriedade de cinco alqueires, nas margens da estrada que liga a cidade ao distrito de Santa Fé. Em 1975, Hashimoto era empregado, mas perdeu todo o café que cultivava. “Foi uma catástrofe, que nos deixou a zero”, conta. “Nossa sorte que naquele tempo, vivia-se de qualquer jeito, mesmo sem dinheiro, sustentando do que se plantava na roça e dos porcos e galinhas criados no quintal”.
Na época, ele colhia uma média de 700 sacas de café plantado com espaçamento, possibilitando o cultivo de milho, arroz e feijão entre os pés. Hashimoto diz que após a geada de 1975, o trabalho maior foi dar destino à lenha seca que restou. “Trabalhamos vários dias para retirar aquele entulho sem serventia”, afirma.
Mas ele não desanimou com a geada. Ao contrário de muita gente que partiu para a cidade ou outros Estados, permaneceu no sítio, comprando-o, mais tarde, com dinheiro oriundo do trabalho no local, onde mora até hoje. Casado com Tomie Hashimoto, 90 anos, ele tem quatro filhos, dez netos e dois bisnetos. Mora apenas com a mulher no local, que é um verdadeiro museu do café. As casas de madeira. O terreirão, a tulha e o secador.  O café, oito mil pés, continua o carro-chefe da propriedade. Ele não soube informar números da safra, alegando que, de ano para ano, varia muito.



Geada foi golpe de misericórdia, mas provocou até suicídios

O jornalista Valderi dos Santos diz no seu livro, “O café no norte do Paraná – ascensão e queda”, que a geada de 1975 destruiu mais de 900 milhões de pés de café no Estado. Ele ressalta, no entanto, que o fenômeno foi apenas um golpe de misericórdia. Para o jornalista, o governo federal não dera devida atenção aos cafeicultores, derrubando o preço da cultura, desvalorizando-a no mercado. Eram tempos difíceis. Os agricultores, que não recebiam incentivos do governo, foram mais rápidos à lona com as condições adversas do clima.
             O engenheiro agrônomo Marcos Aurélio Volpato, 56 anos, diretor geral de Agricultura, da Prefeitura de Marialva, afirma que o estrago da geada se ampliou porque a maioria dos agricultores dependia apenas do café. Houve casos em que a perda chegou ao extremo. “Alguns que já estavam endividados acabaram cometendo até suicídio”, conta. Na época, ele era estudante do antigo segundo grau.
            Volpato ressalta que o pior ocorreu após a destruição dos cafezais. Muita gente se mudou da zona rural para capitais. Irineu Pozzobon, no livro: “A epopeia do café no Paraná”, afirma que entre 500 e 600 mil trabalhadores deixaram o Estado. A maioria foi para São Paulo trabalhar nas indústrias automobilísticas. “Com as crises econômicas muitos perderam o emprego e ficaram na penúria”, declara. “Os que não conseguiram voltar ou não trocaram de ramo sofreram muito”. O feijão soja foi uma das opções para quem quis continuar na agricultura.

            A safra paranaense de 1975, colhida antes da geada, rendeu 10,2 milhões de sacas de café, 48% da produção brasileira. O Estado tinha uma produtividade superior à média nacional. No ano seguinte, a produção foi de 3,8 mil sacas. Não houve exportação. A participação paranaense na produção brasileira caiu para 0,1%.
Especialistas avaliaram que o prejuízo chegara a Cr$ 600 milhões (pela cotação da época, o equivalente a US$ 75 milhões) apenas nas lavouras de café. Outras culturas também foram atingidas. Mas o café sustentava a economia do Paraná naquela época. Uma situação que mudaria em seguida, pois os cafeicultores nunca mais se recuperariam daquele evento climático. 


Pioneiro que morreu com 103 anos viveu auge
          do café nas máquinas beneficiadoras da CMNP

Uma das maiores produtoras de café da região foi a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP). Colonizadora que nasceu da Companhia de Terras Norte do Paraná, fundada por ingleses em 1925. Paralelo à venda de terras, a companhia comprou várias fazendas para cultivar café.
Quem viveu essa época de fortuna dos grandes cafezais é o pioneiro José Remígio Pereira, que chegou a Maringá em 1953. Ele morreu em agosto do ano passado aos 103 anos, mas em 2015, no aniversário de 40 anos da “geada negra”, me recebeu na casa dele, em Maringá, para uma entrevista sobre o tema. O pioneiro se recordou de quando saía pela região para consertar as máquinas de café da companhia, onde trabalhava.  
Um de seus trajetos era ir até Umuarama (160 quilômetros de Maringá) reparar uma máquina cafeeira. Com chuva, de jipe, demorava sete horas pela estrada de chão batido. O meio mais fácil era o avião teco-teco, que fazia o percurso em 40 minutos. “Lá de cima, a gente via aquela nuvem de poeira que saía do chão, era Maringá”, conta.
Na cidade, tornou-se operador da Cafeeira Santo Antônio, que funcionava na Avenida Mauá, esquina com a Avenida Tuiuti. Em 1965, foi vendida para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O gerente da colonizadora, Alfredo Nyfeller, impôs uma condição: só compraria a cafeeira se Remígio, Luiz Roberto Bolotta e Dante Panzeri (também funcionários) viessem juntos.
Proposta aceita, Remígio permaneceu 31 anos na companhia. Ele lembra que em época de safra beneficiava 200 sacas de café por dia. As fazendas da colonizadora tinham 1 milhão de pés de café e produziam em torno de 50 mil sacas por ano.
Luiz Roberto Bolotta, 73, da Cafeeira Santo Antônio foi transferido para o escritório da companhia, na esquina entre a Avenida Duque de Caxias e rua Joubert de Carvalho, onde trabalhou por 35 anos. Na época, havia mais de 50 máquinas de beneficiar café em Maringá. Segundo ele, o café rendia muito dinheiro para a companhia. “No período de venda, minha rotina era contar maços de cédulas no balcão do escritório e levar tudo a pé numa sacola ao banco”, conta. “Naquele tempo não havia assalto”. 
Remígio deixou oito filhos de três casamentos. Era casado pela terceira vez com Florinda Rossi Pereira, 81 (FOTO ABAIXO DO CASAL). Ele disse que naquele dia 18 de julho de 1975 fez tanto frio que se os pés de café tivessem sido cobertos queimariam do mesmo jeito. “Eu fiz o teste”, contou. “Cobri um pé que tinha no quintal de casa, mas ficou todo preto soltando a casca”. As mangueiras de água amanheceram congeladas. “Algumas chegaram a partir”, acrescenta o pioneiro.





Engenheiro fotografou a história do café

Em seu Jipe Willys fabricado em Toledo Ohio, nos Estados Unidos, em 1954, ele cortava as estradas barrentas do norte e noroeste do Estado. “Por aqui havia a fama: quando não era pó, era lama, mas a gente encarava e ia em frente”, recordara-se ele, em entrevista, em 2013. Trata-se do fotógrafo Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser, que morreu em 2014, aos 88 anos. Engenheiro agrônomo, ele trabalhou no Instituto Brasileiro do Café entre 1953 e 1989. Nas visitas que fazia pelo Paraná fotografava assuntos relacionados ao café.
O acervo fotográfico de Armínio veio a público com os livros “Ao sabor do Café” e “Ao aroma do café”. A autoria dos trabalhos é do Instituto de Memória e Imagem “Câmara Clara”. Não faltavam cenas para a câmera dele. Em 1967, em Mandaguari, um homem, que vem da zona rural, leva ao cemitério, o corpo do filho num caixãozinho. Dois sujeitos proseiam na beira de uma estrada, que, segundo Armínio, se intitula: “Esperando Godot”. “Mas Godot não veio”, complementa.
As cenas mais tristes que fotografou talvez tenham sido em 1963, ano de um incêndio nas lavouras do Paraná. Após uma grande geada, pastos e cafezais ficaram secos. Trabalhadores atearam fogo para fazer o plantio esperando a chuva, que não veio. O fogo se alastrou e por cerca de quatro meses transformou em cinzas casas, lavouras, pontes e tudo que tinha pela frente.
Mas as geadas de 1962 e 1963 e o incêndio rural que se seguiu no Paraná não impediram a grande produção cafeeira. Veio a erradicação. Em seu livro “A epopeia do café no Paraná”, o engenheiro agrônomo Irineu Pozzobon escreve que a erradicação atingiu 1,34 bilhões de cafeeiros no Brasil; 249 milhões no Paraná.
Com a crise de 1929, o preço do café despencou no exterior. O governo federal resolveu comprar 18 milhões de sacas, ajudando os produtores. Sem ter o que fazer com tanto café, queimou-as. Armínio descrevera: “Quem passasse entre Arapongas e Sabáudia em junho de 1961 assistiria a um espetáculo inédito: um mundaréu de café pegando fogo. Por aqui, ouvi falar em 10 milhões de sacas de café virando cinzas”.
Após as geadas e os incêndios da década de 1960, o frio voltou em 1975. As lavouras que mal tinham saído de uma catástrofe eram dizimadas pela geada negra. ABAIXO FOTO DE ARMÍNIO KAISER RETRATA MULHER ABANANDO CAFÉ NA DÉCADA DE 1950.


Geada negra mata até a raiz

A geada negra é formada por uma condição atmosférica que congela a parte interna da planta. O poder de destruição é maior. Ocorre quando há atuação de massa de ar polar de forte intensidade, com temperatura baixa e pouca umidade. Em contato com a superfície há o congelamento, provocando enormes danos físicos na planta. “É um fenômeno precedido de muito vento”, diz o professor Hélio Silveira, 45, do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenador da Estação Climatológica da mesma instituição.
Quando se forma apenas uma camada de gelo na superfície chama-se geada branca. Se a seiva da planta congelar é geada negra. Esse último tipo é a mais devastadora para as plantações, mas só ocorrem em cidades muito frias. No Brasil, na maioria das vezes, apenas nas regiões serranas do Sul. Foi o que ocorreu em 18 de julho de 1975. No dia anterior ventou muito. “A geada negra se forma devido ao vento muito gelado, congelando a seiva da planta e ocasionando perda total”, afirma Silveira.
O jornalista Valderi dos Santos, no livro “O Café no norte do Paraná – ascensão e queda” relata que em 1953, a geada provocou queda de 58% nas safras seguintes. Em 1955, 65%; 1962, 49%; 1963, 22%; 1966, 24%; 1969, 87%; 1972, 58% e 1975 prejuízo total. “Na época foi destruído todo o parque cafeeiro do Estado”, escreve ele. 
FOTO ABAIXO: Moradores de Curitiba brincaram de fazer boneco de neve, em 18 de julho de 1975.




Produção ressurge com força e qualidade

O Paraná hoje não figura entre os maiores produtores de café do Brasil. Há muitos anos, perdeu o posto para Minas Gerais. Mas o Estado vive um bom momento na produção do grão. As pequenas propriedades lideram a produção. A maioria é cultivada mecanicamente. É o caso de Antônio Geraldo Rosseto, 54, de Mandaguari.
Descendente de italiano, cujos pais, em 1953, atraídos pelo café, vieram do interior de São Paulo para Mandaguari.  A família Rosseto tem um sítio nas margens da rodovia que liga a cidade à Maringá. Antônio, que nasceu na propriedade, cultiva 20 mil mudas. A colheita lhe garante em torno de 500 a 600 sacas em coco. A diferença está na lida do produto. Tudo mecanizado.
A colheita dos grãos é feita com máquinas manuais. Em seguida, são transportados numa caminhonete até o terreiro. Rosseto não quis nem posar para foto com um rastelo na mão. Mas nem sempre foi assim. Segundo ele, antigamente, “era tudo no braço”. Quando ameaçava chuva durante a colheita era um problema. “A gente ia pegar um animal para pôr no carrinho era um Deus nos acuda”, afirma. “Parece que o bicho adivinhava e danava a correr”.
Apesar dos contratempos na economia que atrapalham a agricultura, ele e a família apostam no café, que já lhe deu um título de melhor produtor regional em concurso organizado pela Cooperativa Agropecuária e Industrial de Mandaguari (Cocari). “Hoje, o que manda é a qualidade”, diz. “Pouca planta e bastante colheita”. Antigamente, plantava-se muito, mas produzia menos e com qualidade inferior.
Para ele, a geada de 1975 foi uma catástrofe, mas quem não dependia de mão de obra conseguiu se recuperar. É o caso da família Rosseto que sofreu o impacto do fenômeno climático, mas se reergueu. Mesmo assim, alguns dos parentes foram para São Paulo, onde moram até hoje.
O agrônomo Marcos Aurélio Volpato diz que o café é um bom negócio, levando em conta o preço, que gira em torno de R$ 400 a saca de 60 quilos. Mas ele aconselha o produtor a explorar a atividade com mão de obra familiar, evitando gastos excessivos. “Mecanizar o máximo possível e só contratar mão de obra esporadicamente”, diz, acrescentando: “Cultivar a lavoura no sistema adensado; utilizar cultivares mais resistentes a pragas e doenças; colher no pano com sopradores de palhas motorizados e secar em terreiros suspensos ou em lonas plásticas”. 
FOTO ABAIXO: Rosseto diz que mecanização do café facilita para o produtor



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