domingo, 26 de março de 2017

A TERRA DA IMPERATRIZ



 Distrito de Cândido de Abreu, cujo nome homenageia a mulher do imperador dom Pedro II, é dotado de belezas naturais e guarda a história de um sonho socialista na beira do rio Ivaí, idealizado pelo médico francês Jean-Maurice Faivre, que em 1847 fundou, no local, a Colônia Agrícola de Tereza Cristina

Texto Airton Donizete
Fotos Wellington Carvalho

Sábado de sol com cara de chuva. Quente, abafado. Eu o fotógrafo Wellington Carvalho saímos de Maringá rumo a Tereza Cristina, distrito de Cândido de Abreu. Depois de um rápido e caro café numa padaria na saída para Campo Mourão, seguimos viagem. Dois pingados e dois pães torrados na chapa por R$ 15,00? Achei caro, mas um reforço necessário. De Maringá lá são 285 quilômetros. Chega-se a Cândido de Abreu e percorre mais 60 quilômetros até o distrito, dos quais 40 quilômetros sem pavimentação.
Passamos por Floresta, Itambé, São Pedro do Ivaí, São João do Ivaí, Lunardelli, Lidianópolis, Ivaiporã, Manoel Ribas. Chegamos a Cândido de Abreu. Seguimos. Uma fachada estampa: Supermercado Três Bicos. É um distrito de Cândido de Abreu. Até que uma tímida placa anuncia a entrada para Tereza Cristina.   
Acaba o asfalto e sobram pedras, mas a estrada é boa. “Devagar”, recomendo. Uma lombada natural. Bateu o assoalho. “Vai furar o tanque!”, intervenho depois de uma sacudida na poltrona. “O tangue é alto”, responde Wellington. Entre um sacolejo e outro, seguimos. A vista compensa os solavancos. Montanhas bicudas, enormes. Árvores, pássaros. Muitos pássaros. “Um bando de gaviões-tesoura”, aponta Wellington. 

Surge o João-bobo
De repente, ele desacelera. Para e salta do carro, pé ante pé. “Um joão-bobo”, sussurra. Meio sem saber o que estava acontecendo, desci com a câmera na mão. Ao lado da estrada, numa árvore desgalhada, um pássaro esquisito, com um gafanhoto no bico. Mirei. Disparei umas três vezes. O ângulo não era muito bom, mas pressenti que ele voaria. E voou mesmo. Wellington não conseguiu tirar a câmera do bagageiro. O Google diz que o joão-bobo é uma ave galbuliforme da família dos buconídeos, encontrada do norte do Brasil ao nordeste da Argentina.
Um pássaro difícil de ser avistado. Eu nunca vira. Ah, por falar em pássaros. Antes, lá no asfalto, fomos surpreendidos por um urubu. Estávamos a uns 100 quilômetros por hora, e o bicho entrou na frente do carro batendo asas. Quase se chocou com o para-brisa. Em frente. Depois do joão-bobo, ouvimos o canto de um sabiá-ferreiro. Segundo Wellington, que é fotógrafo especializado em aves, é raro avistá-lo.
Mais adiante, o inesperado. Uma briga de lagartos no meio da estrada! Dois bichos enormes se entrelaçam. Tentei fotografar, mas não deu tempo de parar e descer. Mas consegui clicar o vencedor da rápida contenda. Garboso, ele permaneceu alguns segundos na estrada. Parecia comemorar a vitória. O perdedor fugira feito um raio.
Curvas
A estrada de chão nos consome. Curva após curva. Do contorno de uma montanha é possível ver o caminho, que se apresenta lá na frente. Uma pequena trilha de terra batida em meio ao verde. Mas a beleza natural não nos deixa se envolver pela distância. Até que subimos uma montanha e, ao descer, avistamos Terra Cristina. Paramos. De lá de cima dá pra fazer belas fotos. Lá embaixo, estão as casinhas encravadas entre os morros.
Descemos. Na entrada do patrimônio, um pequeno supermercado. Na porta, um grupo de pessoas papeia. Perguntamos pelo professor Carlos Dias. “Uma casa lá em cima, que tem um gol cinza no quintal”, disse um deles. Logo chegamos. Carlinhos, como é conhecido, meu amigo há 30 anos, tirava uma soneca. Também, pudera! Cansou de nos esperar. Saímos às 8 horas de Maringá e chegamos meio-dia a Tereza Cristina.
Descansamos o resto do dia e, na manhã seguinte, participamos de uma caminhada. Não sem antes nos deliciar com a pacata Tereza Cristina. Não contei, mas dá pra dizer que em cada quintal de lá tem um galo e muitas galinhas. No lugar de pardais, comuns por aqui, os canários-da-terra. Eles chocam nos forros das casas e cantam o dia todo. Um para; outro continua. Feito uma sinfonia.
Pé na estrada barrenta
No outro dia, levantamos por volta das 7 horas e fomos à localidade de Saltinho. Lá, foi servido um café da manhã ao pessoal que iria participar da caminhada. Infelizmente, a chuva atrapalhou. Havia pouca gente. De Saltinho a Tereza Cristina são 12 quilômetros. Nada fácil cortar o barro que se formou pelo caminho. Entre uma parada e outra para fotografar pássaros e tudo de interessante que se apresentasse, seguimos. Atravessar alguns trechos exigiu equilíbrio e habilidade para não cair na lama.
Passamos pelo rio Ivaizinho, que desagua no Ivaí. Ouvimos por mais de uma vez o canto do sabiá-ferreiro, mas não o vimos. Os gaviões-tesouras se apresentaram em bandos, talvez se preparando para atacar alguns ninhos. As margens do Ivaí é um convite a fotos. Cada lugar mais belo que o outro. Mesmo munido de capa de chuva me preocupei com o mau tempo que se avizinhava.
Mas a chuva não veio e chegamos ao salão comunitário na Praça da igreja católica de Tereza Cristina. Almoçamos arroz, feijão, macarrão com salada e carne. No meu caso, sem carne. Entre outras autoridades, lá estavam o vereador Pedro Derbli (PMDB) e a primeira-dama de Cândido de Abreu, Luciana Muraro Reis. E os professores Carlos Dias e Cézar da Silveira Guazina.


Gibão, o pássaro
Após o almoço, Wellington observou um pássaro diferente no local. Ele fizera um ninho na parte interna do forro do salão. Fotografou-o. Imaginou-se tratar de um tipo de andorinha, mas em Maringá descobriu que era um gibão-de-couro. Segundo o Google, o gibão-de-couro, também conhecido como birro e bem-te-vi-de-gamela, é uma espécie de pássaro sul-americano pertencente à família dos tiranídeos, com várias subespécies espalhadas pelo continente. Mais um para a coleção de fotos, não, Wellington?
Estávamos em Tereza Cristina, distrito de Cândido de Abreu, com seus cerca de 1.700 habitantes, mas também “terra da imperatriz”. A mulher do imperador dom Pedro II nunca esteve lá, mas o médico francês Jean-Maurice Faivre a homenageou dando seu nome à localidade. A seguir, conheça essa outra história. 

Um sonho socialista à beira do Ivaí

“E na manhã brumosa do dia do Natal de 1846, o comandante Kloster mandou que se estendesse a prancha tipo escada, a fim de que subissem ao ‘Fides’ os passageiros enumerados na relação feita de próprio punho pelo cônsul brasileiro, sob o título ‘lista estatística de sessenta e três imigrantes com destino a Paranaguá, pelo navio hamburguês ‘Fides’, comandado pelo capitão kloster’”. Diz trecho do livro “Saga da Esperança”, de Josué Corrêa Fernandes, que narra a trajetória de Jean-Maurice Faivre. O navio partiu de Antuérpia, na Bélgica.
Inspirado nas teorias socialistas de Saint Simon, Proudhon, Fourier e no positivismo de Auguste Comte, o médico francês Jean-Maurice Faivre construiu a Colônia Agrícola Teresa Cristina, um sonho socialista nas margens do rio Ivaí. Ele queria uma comunidade livre da exploração, onde cada um pudesse produzir o que iria consumir. Livre, inclusive, da escravidão, que em 1847, ano em que chegou ao Paraná para construir seu sonho, ainda imperava no Brasil. “Na Colônia Thereza, não será empregado escravo algum, sob qualquer pretexto que seja. Todo o serviço será feito por braços livres”, diz documento que Faivre assina com o Império do Brasil.
Em 17 de fevereiro de 1847, o “Fides” se aportou em Paranaguá. Após as averiguações de praxe, Faivre, Kloster e mais 63 pessoas, entre adultos e crianças, seguiram até o Porto de Antonina, onde desembarcaram. O grupo, levado por mulas e burros, cortou a Serra do Mar, chegando a Ponta Grossa. De lá, seguiu até as margens do rio Ivaí, onde foi fundada a Colônia Agrícola Tereza Cristina. Percorreram em torno de 290 quilômetros pela densa floresta.
“Estavam os peregrinos do “Fides”, no centro dos famosos Campos Gerais, aqueles mesmos que dom Pedro II, cerca de 40 anos à frente, aos visitá-los, definiria como um imenso tapete verde desdobrado sobre uma mesa de granito!”, descreve Josué Fernandes em “Saga da Esperança”. Os índios coroados atacaram o grupo; assim, optaram por seguir até a confluência dos rios Ivaí e Ivaizinho, onde construíram a colônia.
Por uma série de fatores, o sonho de Faivre não se consolidou. Falta de dinheiro e adaptação dos franceses que vieram com ele foram os mais contundentes. O imperador dom Pedro II, de quem era amigo, ajudou-o. Tanto que o médico retribuiu, batizando a colônia de Tereza Cristina (nome da mulher do imperador).
Após construí-la, eles plantavam nas margens direita do Ivaí, hoje Cândido de Abreu, e na esquerda, pertencente a Prudentópolis. Cultivavam: café, milho, baunilha, algodão, trigo, feijão, mandioca e cana-de-açúcar. Um modelo de agricultura precursor do cooperativismo no Paraná. A madeira era abundante, mas eles utilizaram tijolos e telhas nas construções, fabricados com barro das margens do Ivaí.
Mesmo sem se denominar socialista, Faivre o praticou. Com sua morte, aos 63 anos, em 1858, a colônia permaneceu por mais dez anos. Seu sobrinho, o engenheiro Gustavo Rumbelsperger, assumiu a missão. Mas o sonho naufragou. Aos poucos, as pessoas deixaram a colônia e se mudaram para cidades próximas. Mas Faivre teve grande importância na colonização do interior do Paraná. Ele desbravou os sertões do Estado, permitindo que novas fronteiras fossem exploradas.
Reportagem do jornal Gazeta do Povo diz que Jean-Maurice Faivre pertenceria à Maçonaria. “Durante as pesquisas encontrei o túmulo de um parente de Faivre e constatei que existia o símbolo maçônico”, revela o pesquisador Josué Corrêa Fernandes. Os ideais – inspirados na Revolução Francesa – de liberdade, igualdade e fraternidade, que também está presente entre os maçons, o teriam influenciado.
Em Tereza Cristina há pessoas com sobrenome “Denejon”, descendentes longínquos dos franceses que vieram com Faivre. Entre eles, Catharin Chapuis Dmeinjion (provável origem do sobrenome), que, na época, tinha 21 anos e veio para o Brasil. “(Ele) já não queria saber do trabalho subalterno feito na pequena loja de tecido, em Bruxelas. Nem pensava em voltar a Lião (Lyon), a cidade de nascimento”, narra o livro de Josué Fernandes.
Segundo o autor, o corpo de Faivre foi sepultado debaixo de uma árvore no cemitério da colônia, conforme seu desejo. “Por pedido expresso de Jean-Maurice, o professor Condamine orientou a abertura de uma cova debaixo da frondosa paineira que se situava quase nos fundos da área destina ao cemitério”, escreve ele. Até hoje, no entanto, o local não foi achado. Da colônia restaram alguns pedaços das construções que se perdem em meio ao mato.

O sonho continua

Primeiro do Paraná e terceiro do Brasil, o distrito de Tereza Cristina, criado há 164 anos, não esqueceu a utopia da Faivre. É o que dizem os professores Carlos Roberto Dias, 53, e César da Silveira Guazina, 41. Ambos lecionam no distrito, no Colégio Estadual do Campo de Tereza Cristina. Dias, eleito diretor, cargo que deve assumir em breve, é professor de história e Cézar de português e filosofia. No distrito há dez anos, ele diz que a comunidade tem tido êxito nas lutas por melhorias no local. “Uma grande conquista foi um médico que fica à disposição dos moradores”, afirma Dias. “Pedimos, e a Prefeitura atendeu”.
Para Dias, o sonho de Faivre o motiva a lutar em prol do distrito. Ele cita a falta de perspectiva que afetavam os jovens da comunidade ao concluírem o ensino médio. A maioria ia estudar e trabalhar em Ponta Grossa, cidade de 300 mil habitantes a cerca de 150 quilômetros de Tereza Cristina. 
Para evitar o êxodo, estabeleceu-se uma parceria com a Universidade Federal Fronteira Sul, campus de Laranjeiras do Sul. Pelo menos dez estudantes ingressaram lá. Segundo o professor, a vantagem é que eles não abandonam o distrito e conseguem aliar prática e teoria. A perspectiva é que mais jovens prestem o vestibular na Fronteira Sul.  
O campus de Laranjeiras oferece os cursos de agronomia, ciências econômicas, engenharia de alimentos, engenharia de aquicultura, interdisciplinar em educação no campo e interdisciplinar em educação no campo: ciências sociais e humanas.
Os estudantes de Tereza Cristina permanecem 30 dias na universidade e 30 em casa. “Assim, eles empregam na prática aquilo que aprendem lá”, explica Dias. Para o próximo vestibular, a expectativa é que mais jovens do distrito ingressem na Fronteira Sul.
Ele diz que o diálogo com a administração municipal é responsável pelo avanço de Tereza Cristina. “Sabemos que tem muita coisa por fazer”, afirma. “Mas o que nos anima é sabermos que podemos dialogar com a Prefeitura na busca de benefícios para a comunidade”. A mesma opinião tem o professor Guazina. “O objetivo é fazer com que o cidadão daqui se sinta valorizado”, acrescenta. “No passado, nosso distrito, foi um apêndice notável do Império, então, queremos fazer valer essa importância hoje”.
O funcionário público Wellington Neves Pereira, 33, acrescenta: “Temos de aproveitar nossos recursos naturais e históricos para promover Tereza Cristina”. “Estamos caminhando no rumo do desenvolvimento sustentável e da promoção do turismo”. A presidente da Associação das Mulheres de Tereza Cristina, Marcela Cristiane Diula, 37, também acredita que o turismo sustentável é uma saída para o distrito. “Trabalhamos para fortalecer nossa caminhada, que começou em 2008 e, todos os anos, atrai gente de toda a região”, complementa.

As lembranças de Tereza e a casa dos sete irmãos

A aposentada Tereza de Jesus Derbli sentada numa poltrona de sua espaçosa sala se recorda dos tempos em que os carroções de quatro rodas circulavam por Tereza Cristina e das varas de porcos levadas para Ponta Grossa. Tocados por trilhas, demoravam em torno de 20 dias para chegar à cidade. Nascida no distrito, com 90 anos, ela viu a vida se modificar na comunidade. “Mudou bastante, mas em vista de outros lugares ainda vivemos tranquilos aqui”, afirma.
Os pais dela vieram de Irati, no sul do Paraná, em busca de fortuna na nova localidade. Uma aventura no sertão na beira do Ivaí. Uma das dificuldades foi a enchente que transbordou o rio. Quem morava muito próximo das margens precisou abandonar as casas, que ficaram tomadas pela água.
Mas o lado bom compensava. Por exemplo, a farta pesca no Ivaí. “Tinha gente que pescava 20, 30 quilos de pintados e dourados”, recorda a pioneira, que também se lembra das corridas de cavalos em Tereza Cristina. As disputas realizadas numa pista em linha reta atraiam pessoas das localidades vizinhas. Tereza não chegou a conhecer os franceses que viveram na colônia fundada por Faivre, mas conviveu com descendentes deles.
Romualdo Lubczyk Derbli, 60, conhecido por Rontil, também faz parte da história do distrito. Ele e seus seis irmãos nasceram numa casa construída no começo da década de 1930. A construção imponente de madeira com sótão, que está caindo os pedaços, é uma espécie de relíquia de Tereza Cristina. O pai dele, o polonês Ceslau, foi o segundo barqueiro que faz a travessia da balsa entre o distrito de Cândido de Abreu e Prudentópolis.

De volta a casa onde nasceu, a pedido da reportagem, ele se emociona por alguns segundos, mas se recompõe dizendo “que é preciso erguer a cabeça e pensar pra frente”. Rontil se recorda do rio, cuja pesca era farta, e das brincadeiras com os irmãos e meninos da vizinhança. “Meus pais construíram tudo isso aqui”, diz. “Vieram pra cá num tempo em que faltava tudo, estava tudo cru”. 

FOTOS

- Vista do distrito de Tereza Cristina

- Placa no centro do distrito homenageia Faivre

- O professor Carlos Dias e o funcionário 
público Wellington citam conquistas em prol de Tereza Cristina

- O médico Jean Maurice Faivre













quarta-feira, 22 de março de 2017

A CIDADE DOS PICA-PAUS


Fotógrafo registra variedades da espécie que se prolifera em Maringá enfeitando as árvores de cores e barulho peculiar produzido pelas potentes bicadas nos galhos secos

Texto Airton Donizete
Fotos Wellington Carvalho

Ainda não eram 7 horas. Eu caminhava perto do Parque do Ingá, centro de Maringá. As batidas eram cada vez mais fortes: pá, pá, pá... Imaginei que alguém batesse o martelo numa tábua ou coisa parecida. Olhava, olhava e não via de onde vinha aquele som. Andei mais um pouco. Parei. Aí identifiquei: o som vinha de um poste. Era um pica-pau bicando a estrutura de ferro que protegia uma lâmpada.
Como este é possível ver muitos outros. Há muitas variedades de pica-paus em Maringá. Alguns emitem um som peculiar e mergulham entre as galhadas. Voam de um galho ao outro. Bicam, bicam. Se encontrarem comida permanecem ali por um tempo. Do contrário, seguem à procura de galhos e troncos secos de onde podem tirar sua refeição.
Leio no site Wiki Aves (site especializado em aves) que os pica-paus são de fácil identificação na natureza. Hábeis cavadores de buracos em troncos estão sempre a fazer barulho, facilitando a localização.   Eles têm a língua vermiforme, em forma de verme, e muito longa. Um potente instrumento para coletar insetos que ficam nos furos da madeira.
É uma ave de bico duro. No Wiki Aves também leio que os pica-paus suportam um impacto de cerca de 1200 G (força de aceleração da gravidade) ao bater seu bico numa árvore. A mesma ação entre 80 e 100 G pode provocar concussão cerebral num ser humano.
Os pica-paus não sentem nem mesmo dor de cabeça! Sua cabeça se desenvolveu com quatro estruturas diferentes, que lhe possibilitam bicar uma árvore até 22 vezes por segundo sem nenhuma lesão no cérebro.
Eles têm um bico forte, mas flexível; um hioide, uma estrutura de osso e tecido elástico que envolve o crânio; uma área de osso esponjoso no crânio e um pequeno espaço entre o crânio e o cérebro para o líquido cerebrospinal. Característica que os tornam especiais, com bico bastante resistente.
Especialistas dizem que no Brasil há em torno de 47 variedades de pica-paus. Em Maringá, é possível ver alguns. O fotógrafo Wellington César de Carvalho, 46, os fotografou em árvores da cidade.  São dele as fotos que ilustram este texto. Portanto, se você ouvir nas ruas de Maringá: pá, pá, pá... sem pausa por alguns instantes. Pode ser um pica-pau. De verdade. Não aquele do desenho, que faz sucesso na televisão, criado por Walt Lantz, em 1940.

PICA-PAUS FOTOGRAFADOS EM MARINGÁ

Pica-pau-cabeça-amarela
Pica-pau-do-topete-vermelho
Pica-pau-branco

Pica-pau-anão-barrado







segunda-feira, 13 de março de 2017

O DIA EM QUE O "VAMPIRO" ABRIU A JANELA



Inspirado no que dissera o próprio, eu bati seis vezes na madeira descorada e corroída do antigo casarão de alvenaria, no Alto da Rua XV, em Curitiba; de repente, surgiu um sujeito de cabelos esbranquiçados e faces rubescidas

(Texto e foto: Airton Donizete)


“Em notícias policiais, frases no ar, bulas de remédio, pequenos anúncios, bilhetes de suicidas, o meu e o teu fantasma no sótão, confidências de amigos, leitura dos clássicos etc. O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, eu adivinho - e, com sorte, você advinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo”.
Resposta do escritor Dalton Trevisan ao jornalista Araken Távora. Numa de suas raras entrevistas (talvez, única) publicada em 1968, na Revista Panorama. O jornalista lhe perguntara onde buscava o tema para seus contos? A entrevista está transcrita no excelente site de literatura “Tiro de Letra”.
Resolvi seguir o conselho do próprio “Vampiro”. Assim o chamam. Estava eu em Curitiba num dia ensolarado. Ideal para um “vampiro” que não curte a noite.  Uma quinta-feira de julho de 2016. Inverno seco. Manhã fria; tarde mormacenta, mas logo o frio voltaria. Encontrei meu amigo Orlando Lisboa de Almeida.
Que me levaria até a casa do “Vampiro”, no bairro Alto da Rua XV. Cortamos o centro a pé. Subimos pela rua Amintas de Barros. Na esquina com a rua Ubaldino do Amaral, número 487, avistamos o casarão de alvenaria. Antigo. Com sótão. Características dos descendentes europeus. No passado, eles povoaram aquele bairro.
         Era pouco mais de 17 horas. Esperei a pausa do semáforo. Fotografei. O jornalista nunca deve ceder às artimanhas do entrevistado. Tinha certeza de que o “Vampiro” não me receberia. Mas levei um exemplar de “O vampiro de Curitiba” na esperança de ele autografar. Aproximei-me de um dos janelões, que dão para rua. Bati uma, duas, três vezes. Dei uma pausa. Bati mais três vezes...
         De repente, o janelão se abriu. Orlando do meu lado. Surge um sujeito de cabelos curtos, lisos e esbranquiçados. Óculos discretos. Faces ruborescidas. De vergonha? Não sei. Dizem que é tímido. Imagino que seja por causa do frio mesmo. Disse que era de Maringá e viera a Curitiba trazer um livro para ele autografar. Desculpou-se, dizendo que não estava mais autografando. Insisti. “Poxa vida, eu vim de tão longe!” “Lamento, mas parei com os autógrafos”, repetiu.
         Por alguns segundos, pairou um silêncio entre nós. Meio sem saber o que diria, tasquei: “Então, me dê um livro seu. Quero uma lembrança, pelo menos”. “Pois, não!” Abaixou-se e pegou dois exemplares. “Você pediu um e eu vou lhe dar dois”. Ambos da editora L&M Pocket: “A gorda do Tiki Bar” e “Frufru Rataplã Dolores”. Obrigado! Agradeci. Ele retribuiu e fechou a descorada e corroída janelona. Ouvi um barulho de cachorro correndo pela casa. Sinal de que gosta dos animais.
         Minha testemunha é Orlando. Não houve fotos. Escondi a câmera debaixo da camisa.  Se a visse acredito que fecharia a janela rapidamente. Ao abri-la me olhou da cabeça aos pés. Suponho que à procura de celulares, câmeras ou qualquer apetrecho que pudesse filmá-lo ou fotografá-lo.
         Não saí de lá realizado porque queria o autógrafo no meu exemplar de “O vampiro de Curitiba”. Mas me dei por satisfeito. Consegui avistar o “Vampiro”. Acho que tive sorte. Agradeço ao Orlando. Que me levou ao Alto da Rua XV e possibilitou o inusitado encontro.  
         O conselho valeu: “O que não me contam, eu escuto atrás das portas”. No meu caso, o avistei pela janelona. O diálogo com o “Vampiro” levou exatos 52 segundos. Cronometrados. Tenho o Orlando por testemunha. Esquivo-me de dizer “Somente Deus por testemunha”. Um dos filmes sobre a trágica história do Titanic. De naufrágios basta o lendário navio. Minhas entrevistas, não. 

FOTOS - SEQUÊNCIA

O antigo casarão de Dalton Trevisan, no Alto da Rua XV, em Curitiba

Dalton Trevisan retratado pelo artista Carlos Dala Stella 

O “Vampiro” em foto de Júlio Covello 






Quem é Dalton Trevisan

Dalton Jérson Trevisan nasceu em Curitiba, em 14 de junho de 1925. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Paraná. Exerceu a advocacia durante sete anos, mas abandonou a atividade para trabalhar na fábrica de cerâmicas da família. Estreou na literatura com a novela “Sonata ao Luar” (1945). Em 1946, liderou em Curitiba o grupo literário que publicava a revista literária “Joaquim”, tornando-se porta voz de vários escritores. Publicou na revista seu segundo livro "Sete Anos de Pastor" (1946).
Ao longo de alguns anos produziu textos sem publicá-los. Em 1950 passou seis meses na Europa. A partir de 1954, publicava seus contos em forma de folhetos, à moda da literatura de cordel, onde registrava o cotidiano da metrópole curitibana. Publicou "Guia Histórico de Curitiba" e "Crônicas da Província de Curitiba".
Trevisan ganhou repercussão nacional a partir de 1959, com a publicação de "Novelas Nada Exemplares" (1959), que reunia quase duas décadas de produção literária. Recebeu pela obra, o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em seguida publicou “Cemitério dos Elefantes” (1964), “O Vampiro de Curitiba” (1965), “A Morte na Praça” (1965) e “Desastres do Amor” (1968). Nesse mesmo ano recebeu o maior prêmio literário do Brasil, no I Concurso Nacional de Contos, promovido pelo Estado do Paraná.
Dedicado ao conto, só teve um romance publicado "A Polaquinha" (1985). Em 1996 recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura, pelo conjunto de sua obra. Em 2003 dividiu com Bernardo de Carvalho o I Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, com o livro "Pico na Veia".
Ele venceu a 24ª edição do Prêmio Camões de 2012. Foi eleito por unanimidade pelo júri, pelo conjunto da obra. O Prêmio Camões é uma das maiores honrarias para autores da língua portuguesa. É uma parceria entre os governos do Brasil e de Portugal, e a cada ano acontece em um dos dois países.
Publicou também "A Guerra Conjugal" (1970), "Crimes da Paixão" (1978), "Ah, É" (1994), "O Maníaco do Olho Verde" (2008), "Violetas e Pavões" (2009), "Desgracida" (2010), "O Anão e a Ninfeta" (2011), entre outras. É considerado o maior contista brasileiro contemporâneo. A publicação do seu livro "O Vampiro de Curitiba" (1965) lhe valeu o apelido, por causa de seu temperamento recluso.

(Transcrito do site Biografia - https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/)

terça-feira, 7 de março de 2017

UMA MULHER APAIXONADA



Aos 93 anos, Lygia Fagundes Telles, a dama da literatura brasileira, em entrevista exclusiva no seu apartamento em São Paulo, fala da amizade com Clarice Lispector, da morte, da paixão pela vida e de literatura

Texto e fotos: Airton Donizete

Entrevistar Lygia Fagundes Telles era um sonho. Sempre a admirei. Há dois anos tentava marcar um encontro com a escritora, mas sua assessoria repetia que não havia espaço na agenda. Em maio de 2013 quando fui a São Paulo resolvi ligar e, para minha surpresa, a própria Lygia atendeu.
Não falei em entrevista. Não sabia a reação dela. Apenas disse que queria visitá-la. Ela respondeu que poderia me receber no outro dia, por volta das 14 horas. Mais tarde iria a um evento na Academia Paulista de Letras.
Lygia mora na Rua da Consolação, nos Jardins, quase esquina com a famosa Rua Oscar Freire. Lá fui eu. Cheguei à frente do prédio. Anuncie minha presença. A empregada dela atendeu. “Pode subir, a escritora tá esperando”, disse.
Comprei numa banquinha na própria Consolação um buquê de lírios amarelos e dei para ela. Recebeu, emocionada, e entregou a empregada Lídia, que as colocou num vaso com água.
A prosa com Lygia virou uma entrevista regada a vinho do porto. Disse que havia dado uma pausa no pouco álcool que consumia, mas me serviu um copo. Servi-me mais duas vezes. Ótimo vinho. Logo percebi que estava diante de um daqueles personagens infinitos.
Impossível explorá-la numa hora de prosa. Lygia fala da infância, da família, da faculdade, dos amigos, dos livros e de muitas outras coisas. Não responde minhas perguntas. Emenda um assunto ao outro.
Senso de humor não lhe falta. Imita o pai dela fumando charuto e a língua presa de Clarice Lispector. Sua grande amiga, com quem viajou à Colômbia para um evento literário. Lygia me dá um presente. E que presente! Uma foto dela com Clarice na Colômbia, na década de 1970.
Depois de muita prosa, Lygia acende um cigarro. “Vocês me dão licença, que vou fumar”, diz. Nascida em São Paulo em 19 de abril de 1923, ela continua bonita e apaixonada. Uma mulher apaixonada. Ou melhor, vocacionada. Paixão para ela é fazer o que gosta. É vocação.
A prosa chega ao fim. Ela me entrega autografado um exemplar do livro “As Meninas” e outro de contos para eu entregar ao cônego Benedito Vieira Telles, um parente distante, de Maringá. A empregada pede para eu apressar. Lygia tem de almoçar e se arrumar para ir à academia.
Eu me despeço. Ela me acompanha até a porta. Diz ser um hábito que aprendeu com os egípcios. A entrevista com Lygia, resultado da prosa daquele dia, está a seguir.

Como a senhora começou a escrever?
Sou formada em direito e educação física. Era corredora de 400 metros. Há cinco anos, quebrei o fêmur da perna direita. Fui operada. Não tenho dor, mas não dá mais pra correr 400 metros (risadas).
Meu pai era promotor público. Era removido de um lugar pra outro. Conheço uma cidade chamada Apiaí. Ninguém sabe dessa cidade, a origem seria “apeia aí”. Passei minha infância no interior paulista, principalmente em Sertãozinho. Conheço Descalvado, Itatinga, Assis, entre outras. Eu contava história pras meninas e meninos do meu bairro. Contava pequenas histórias, e eles gostavam.
Conhece Maringá?
 Maringá, não. Só a música. Na minha juventude, eu cantava: “Maringá, Maringá/Depois que tu partiste/Tudo aqui ficou triste/Que garrei a imaginar/Pra haver felicidade/É preciso que a saudade/Vá morar em outro lugar”...
Que alegria! O Brasil apesar de tudo... É preciso ter esperança! O que é esperança? É paixão. O que é paixão? É vocação. É preciso amar a vida. Com paixão, com força. Acreditar. Já que é preciso aceitá-la, que seja então corajosamente. Fazer o que amamos. Isso se chama vocação. Você cumprindo sua vocação, você está feliz.


De onde vem inspiração para escrever?
Eu contava histórias quando eu não sabia escrever. A mamãe tinha... hoje se fala babá, mas eu gosto da palavra antiquada pajem. Minhas pajens. Na antiguidade, elas seguiam as princesas tocando bandolim. Eu contava histórias pra elas quando não sabia escrever.
Comecei a registrar as histórias que eu contava pra não perdê-las. Mas todos escritos da minha juventude, eu abomino. Eu era muito jovem e não sabia escrever, escrevia porque tinha vontade e tal. Então cortei toda essa parte. Eu considero minha obra a partir do romance “Ciranda de Pedra”.
Os críticos também passaram a considerar minha obra a partir daí. Incluindo meu grande amigo, Carlos Drummond de Andrade, que me dizia: “Seus livros, os primeiros, vamos esquecer. A partir de ‘Ciranda de Pedra’, sua obra se firmou”.

Que autores a senhora lia?
Assim que minha família se mudou pra São Paulo, eu comecei a ler. Lia desbragadamente. Lia tudo. Eu comecei a ler os primeiros livros... Edgar Allan Poe, Victor Hugo. Lia aquele escritor francês que morreu jovem (não se lembra do nome).  

E a literatura atual?

A qualidade é ótima, mas você vê nos jornais, nas revistas, na lista dos mais vendidos quase não aparece brasileiro. Machado de Assis, Guimarães Rosa, não estão lá. Mas há escritores estrangeiros de má qualidade, inferiores. Onde está Machado? Onde está Guimarães Rosa?
Por quê?
Porque há uma... (longa pausa). Olhe, é um mistério. Um mistério! Quem sabe vocês da imprensa conseguem esclarecer esse mistério? Por que o brasileiro não gosta do Brasil? Por que não gosta da literatura brasileira? Eu pergunto. Tá compreendendo?
Inclusive escritores estrangeiros que eu nunca leria, de qualidade inferior, são os mais lidos. E onde estão os brasileiros? Então eu tenho uma frase, que considero importante. Há no Brasil três espécies em processo de extinção: o índio, o escritor e a árvore.
Por quê?
O índio... Está a situação que vemos aí. Os escritores... Acabei de falar. Por que os escritores brasileiros não são lidos no Brasil? Grandes escritores, onde estão os poetas, os românticos?
Na faculdade de direito onde me formei, do Largo São Francisco, tem gravado na porta três nomes: Alvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves. Um paulista, um fluminense e um baiano. Quem lê esses escritores hoje? Você tá vendo a tristeza... Que acontece com o Brasil, que não ama sua literatura?
E as árvores?
Aqui em SP, as árvores não crescem mais. Elas não conseguem aprofundar sua raiz. O concreto não deixa.
Em Maringá, ainda há árvores nas ruas?
Muito bem. Parabéns Maringá! “Maringá, Maringá, depois que tu partiste” (canta)... Mas aqui em São Paulo tem essa camada de concreto que não deixa as árvores crescer.
Coitadas, elas querem aprofundar as raízes, mas não podem. Então, elas estão caindo. Quando tem uma tempestade, um vento forte, elas caem. Então, vou repetir: o índio, o escritor e as árvores são espécies em processo de extinção.
A senhora prepara um novo livro?
Sou da Academia Brasileira de Letras. Gosto muito da academia. Meus amigos estão lá. Infelizmente, não posso viajar ao Rio de Janeiro. O avião é muito complicado. As poltronas são muito próximas uma das outras. Não tem espaço pra minha perna. Minha pobre perna fraturada. Meu médico diz: “Dona Lygia, não fale que a senhora quebrou a perna. Diga que tem o fêmur fraturado. É mais elegante”.
Quando ando de carro, daqui a pouco vou à Academia Paulista de Letras, sou obrigada a sentar na frente com o chofer porque a cadeira é dura. Preciso de cadeira dura por causa da minha perna fraturada.
Um dia o chofer perguntou: a senhora tá com um problema na perna por isso tá aqui na frente? Eu disse que havia caído e fraturado o fêmur, repetindo as palavras chique e elegante do médico. Ele perguntou pra que time eu torcia, eu disse pro São Paulo.
Olhe, disse ele, não diga pra ninguém porque eu sou do Corinthians, e eles são bravos. Se a senhora disser, eles podem quebrar sua outra perna. Melhor não arriscar. Diga sou de um clube aí (risadas).
Ouvi dizer que toda sua obra será relançada?

Gosto muito da minha editora, a Companhia das Letras. Ela tá relançando todos meus livros. Tenho livros relançados pela Editora Ática, que acho importante. Os adolescentes têm que ler a literatura brasileira. Eu era muito amiga de Clarice Lispector. Viajamos juntas. Até vou mostrar uns retratos (pega um álbum com antigas fotografias).
A Clarice era muito engraçada. Viajamos a uma universidade da Colômbia no mesmo avião. Até aquele dia não tinha relação com ela. Não gosto de avião. Hoje mesmo vi um artigo que dizia: perca seu medo de avião. É fácil, digo eu, só não subir nele (risadas).
Então, estava eu e Clarice. E vai o avião no meio das nuvens, balançando. Disse esse troço vai cair e eu ainda não acabei de escrever o que eu queria (risadas). Clarice que estava ao lado, respondeu: “Não fique com medo Lygia, minha cartomante disse que vou morrer na cama, então se estou aqui este avião na vai cair”.
Aí eu disse bom então não vai acontecer nada e não aconteceu. Mas a Clarice era curiosa. Ela tinha a língua presa. Quando a gente ficava em hotel, ela dizia: vamos sair pra comprar esmeraldas (imita a fala da amiga). Nasceu com a língua presa. Podia fazer uma cirurgia, mas naquela época era muito dolorida.
Ela dizia pra mim, você ri muito. Tem que ficar séria nos retratos porque senão os homens não levam a gente a sério. Repara que eu não rio em nenhum retrato (imita a língua presa da Clarice e dá risadas).
Olhe aqui! Mostras as fotos antigas (entre elas, estão Vargas Llosa mocinho e Clarice Lispector). Ela era ótima, a Clarice. Eu gostava muito dela. Grande amiga. Quando morreu meu segundo marido, Paulo Emílio, ela me mandou um bilhete me consolando, mas no mesmo ano ela morreu.

O envelhecimento e a morte são temas recorrentes na literatura, como a senhora os encara?
Engraçado. Eu nunca pensei em fazer plástica. Isso não me atormenta. Minha vó era italiana, minha árvore genealógica é portuguesa misturada com índio, bem lá embaixo.
Nunca me ocorreu isso. Vou tocando. Contanto que eu conserve uma cara que não amedronte as criancinhas (risadas). Hoje por exemplo tenho uma reunião na Academia Paulista de Letras (lembra-se de Rui Mesquita, um dos donos do Jornal O Estado de S. Paulo, que havia morrido no dia anterior a esta entrevista).
Quando eu era jovenzinha, eu estava na faculdade de direito, o Alfredo Mesquita, que era tio do Rui, me convidou para fazer teatro amador. Eu fui, mas mamãe ficou desesperada. Disse minha filha você já entrou numa escola só de homens (Faculdade do Largo São Francisco, na época), agora vai fazer teatro. Aí que não vai casar mesmo. Ao contrário, casei duas vezes (risadas). Na faculdade, éramos apenas cinco moças, todas virgens, inclusive eu. Mamãe era vigilante, ficava de olho. Casei virgem.
Ela tinha pavor. Dizia, minha filha, a sociedade não gosta de mulheres que saem de casa e vão fazer coisas. No entanto, meu professor de direito, o Miguel Reale, dizia que a mais importante revolução do século 20 foi a revolução da mulher. Acho isso importantíssimo. Quando entrei na faculdade, um rapaz perguntou: o que vocês vieram fazer aqui, casar? Disse também e me casei com um dos meus professores, meu primeiro marido, o Goffredo.
E a morte?
Quando eu era criança, eu contava história, como já disse. Sertãozinho está importantíssima. O Cristo Redentor de lá é maior do que o do Rio de Janeiro. Guardo muitas lembranças de lá. Mas o que mesmo você me perguntou?
Sobre a morte?
Pois é, a primeira vez que entendi a morte foi quando morreu meu cachorro. Eu o adorava. Isso foi lá no interior. Quando enterraram meu cachorro, espantei. Disse: nunca vou ver mais meu cachorro? Meu pai disse que não. Então, perguntei: e a gente? Meu pai fumando um charuto (imita-o dando baforadas) respondeu: quando a gente morre, quem acredita em Deus, vai pro céu e espera uma reencarnação. Quis saber o que era aquilo.
Ele respondeu: difícil explicar pra você, filha, mas vou tentar. A pessoa quando morre pertence a outra vida. E depois volta. Vê se você entende, um filósofo importante dizia: eu já fui uma donzela, um pássaro azul da floresta e um peixe do mar.
Disse que bonito papai. Então é isso, respondeu ele. Reencarnação você volta em outra forma. Mas a essência é a mesma. A gente vai voltar? Eu perguntava. E ele respondia baforando seu charuto. Quando eu morrer, quero voltar nessa forma em que estou. Ou então, não. Será uma surpresa. Deus é quem sabe (risadas). 
  

Dois casamentos e muitos prêmios


Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo, mas se criou no interior do Estado. Filha do promotor público Durval de Azevedo Fagundes e da pianista Maria do Rosário de Azevedo (Zazita). Cursou Direito na faculdade do Largo do São Francisco, da Universidade de São Paulo e Educação Física na mesma instituição.
Casou-se com o jurista e professor Goffredo da Silva Telles Júnior, com quem teve seu único filho, o cineasta Gofredo Telles Neto. O segundo casamento foi com o cineasta Paulo Emílio Salles Gomes. Ambos morreram.
Gofredo Neto, que morreu em 2006, lhe deu duas netas: Lúcia Carolina Aidar da Silva Telles e Margarida Goreki da Silva Telles. Ela vive com a empregada Lídia. Nos fins de semana, as netas lhe fazem companhia.
Membro da Academia Brasileira de Letras, Lygia foi publicada na França, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Portugal, Suécia, República Checa, Espanha, entre outros países, com obras adaptadas para o cinema, teatro e TV.
Ganhou os prêmios: Instituto Nacional do Livro (1958); Guimarães Rosa (1972); Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (1973); Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1980); Pedro Nava, de Melhor Livro do Ano (1989); Melhor livro de contos, Biblioteca Nacional; Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Aplub de Literatura; Jabuti (Ficção, 2001) e Camões, em 2005.

Obras

(Contos)
Porão e sobrado, 1938
Praia viva, 1944
O cacto vermelho, 1949
Histórias do desencontro, 1958
Histórias escolhidas, 1964
O jardim selvagem, 1965
Antes do baile verde, 1970
Seminário dos ratos, 1977
Filhos pródigos, 1978 (reeditado como A estrutura da bolha de sabão, 1991)
A disciplina do amor, 1980
Mistérios, 1981
A noite escura e mais eu, 1995
Venha ver o por do sol
Oito contos de amor
Invenção e Memória, 2000 (Prêmio Jabuti)
Durante aquele estranho chá: perdidos e achados, 2002
Meus contos preferidos, 2004
Histórias de mistério, 2004
Meus contos esquecidos, 2005
(Romances)
Ciranda de pedra, 1954
Verão no aquário, 1963
As meninas, 1973
As horas nuas, 1989


FOTOS (SEQUÊNCIA)


A receita de Lygia: “É preciso amar a vida
com paixão, com força, acreditar nela”


Lygia e clarice Lispector em encontro de literatura na Colômbia, na década de 1970; entre elas, um escritor que participava do evento


Simples e carismática, ela me concedeu entrevista em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo




ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO

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