domingo, 26 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ UM BAR...



Estabelecimento idealizado e construído por Américo Dias Ferraz, segundo prefeito de Maringá, na Avenida Getúlio Vargas, era sofisticado para a época e se tornou um dos pontos de encontro da alta sociedade maringaense, ao lado do Grande Hotel e da sede social do Aeroclube

(Texto: Airton Donizete; fotos: Divulgação e AD)

Idos de 1954. O bate papo na calçada seguia animado. Falavam de tudo um pouco.  Das intrigas que envolviam o governo Vargas. Dos discursos inflamados de Lacerda. Da Copa do Mundo na Suíça. A proeza da máquina húngara enchia os olhos, mas o título ficou com a álgida Alemanha Ocidental. No plano local, o assunto era a contenta entre o prefeito Villanova e a Companhia Melhoramentos. A cobrança de IPTU colocou-os em rota de colisão.
Na parte interna rolava a música ambiente, que se completava com a imagem de um aquário de peixes coloridos e belas poltronas. Quem chegasse por ali e não quisesse sentar às mesas, poderia usufruir das poltronas. Não faltavam políticos, advogados, dentistas, jornalistas, radialistas, cerealistas e corretores de imóveis. Um ponto de encontros. Um deles ocorreu entre José Sanches Filho, 79, e João Batista Francotti. Ao saborearem um cafezinho, Francotti o convidou para vender publicidade para a Rádio Cultura. Ele aceitou. Nascia ali o primeiro publicitário de Maringá.
O aposentado Dioraci Martins, 76, chegou a Maringá em 1958. Ele diz que admirava a fila de carros que se formava à frente do Bar Colúmbia. Sinca Chambord, Aeroilis, Karmann Ghia, Lambreta, Vemaguet. “O pessoal que tinha melhor poder aquisitivo se reunia ali”, recorda, acrescentando: “De vez em quando, saiam uns tiros”. A chamada “Pedra”, onde ficavam os vendedores de carro, funcionava na Avenida Getúlio Vargas. “Um ou outro negócio mal resolvido resultava em briga”.
Do outro lado, a Panificador Copacabana
A Avenida Getúlio Vargas, que se chamara Avenida Ipiranga, já era movimentada. Pedestres iam e vinham em meio à baixa vegetação, que crescia no meio da via. Em frente ao Bar Colúmbia, ficava a Panificadora Copacabana. De manhã, lotava. A disputa era pelo pão quentinho. Mas se tivesse frio, compravam do mesmo jeito.
Do outro lado da avenida, o toddy com leite e o cafezinho disputavam quem seria a vedete no balcão. Entre as cadeiras e mesas espalhadas pelo salão, quase sempre estava o publicitário Sanches. “Nunca vi nada igual”, diz ele, que chegou a Maringá em 1953, ano em que o Bar Colúmbia foi inaugurado. “Havia um balcão de mais de 15 metros e vários garçons engravatados”.
O então rapazinho Luiz Augusto Leandro, conhecido dom Lulo, gostava de admirar o “Painel do Café”, que ficava lá no fundo. Uma imponente obra de azulejos, produzida pelo artista plástico Waldemar Moral. Comprador de café, o prefeito Américo Dias Ferraz (1956/1960) encomendou-a ao artista paulista.
Mas o próprio Colúmbia era uma obra de arte, que nascera da paixão de Américo pelo café. “Era um dos meus bares preferidos, onde eu me juntava à moçada para um papo”, afirma Leandro, cuja família chegou a Maringá na década de 1940. Aos 70 anos, ele continua encontrando os amigos nos botecos de Maringá.   

Vendedor de bananas e galinhas
Américo carregava a pecha de figura excêntrica e folclórica. O jornalista Jorge Fregadolli diz que ele mal assinava o nome. “Fazia um rabisco nos documentos da Prefeitura, que passava por assinatura”, lembra. Pobre, quando chegou à cidade, vendia bananas numa cesta e galinhas presas em uma vara. Dizem que no começo andava até descalço pelas ruas de terra da recém-nascida Maringá. Mas era um sujeito de tino e inteligência, tanto que se aprumou na vida e venceu as eleições contra a nata maringaense.
Ele carrega fama de ter sido o maior comprador de café do Brasil. Faz sentido porque, na época, o País liderava a produção do grão. No Maringá Velho, ele tinha a Cafeeira Santa Luzia. O painel do Bar Colúmbia era uma homenagem ao ouro verde do Paraná. Mas Américo não esqueceu sua querida Guiricema, nos rincões de Minas Gerais. No fundo do conjunto de azulejos, estão as montanhas, que representam as terras mineiras.
Doce às crianças
Dizem que o Bar Colúmbia, que foi vendido e durou até 1959, era um dos bares mais badalados do Paraná. O saudoso escritor Osvaldo Reis contava que era criança e mal se lembrava do local. Mas de vez quando um parente o levava lá para ganhar doce do Américo, que presenteava com guloseimas as crianças que ficavam na frente do bar. “Nunca entrei lá, mas me recordo que era tudo branquinho e muito chique”, disse Reis. 
E bota chique nisso. Modernas choperias e garçons de gravatinhas borboletas. O aposentado Léo de Paula, 74, conta que o Colúmbia tinha quatro setores: Bomboniere, lanches e suco, bebidas e restaurante. “Tudo muito organizado”, diz.  Aos domingos, havia matinês dançantes, com início às três da tarde, como se dizia. A alta sociedade se reunia para dançar e bebericar.  
Bastidores políticos
O publicitário Sanches não fazia uma parada tão longa no Colúmbia. Ele gostava mesmo era dos botecos da periferia. Neles buscava inspiração e jargões para sua publicidade, que só crescia impulsionada pela audiência da Rádio Cultura.  “Mas no bar do Américo eu ficava sabendo o que se passava nos bastidores políticos”, diz. “Quase tudo que acontecia na cidade, era comentado ali”.
Entre as hipóteses que levaram Américo a construí-lo está uma espécie de vingança contra a elite da cidade. A turma que participava de eventos no Bar do Grande Hotel e na sede social do Aeroclube. Mais tarde ocorreu algo que poderia confirmar tal suposição. Em 1957, ele não foi aceito no quadro de sócios do Maringá Clube e, com amigos, fundou o Country Clube de Maringá, em 1958.
Seja como for, o que vale é que Américo ficou na história. Não apenas como prefeito, mas como um personagem de Maringá. O comprador de café, que tinha um bar. Não um bar qualquer. O Colúmbia. Na época, um dos mais badalados do Paraná.

PAINEL ESPERA REMOÇÃO
As famílias Maimone e Bruder doaram o “Painel do Café”, instalado no Bar Colúmbia, para o município de Maringá. Construído em 1956, a obra representa uma cena de colheita de café. O painel de azulejos mede 2,4 de altura (16 azulejos) por 7,95 de largura (53 azulejos). São 848 peças de 15 x 15 centímetros. Elas são donas do prédio, na Avenida Getúlio Vargas, onde funcionava o bar do Américo e está o painel; hoje há uma loja no local.
Para Nelson Maimone, a doação é a concretização de um sonho. “Temos certeza que essa obra de arte estará num local bem visível para que uma maior quantidade de pessoas possa usufruir desse patrimônio de Maringá”.
Segundo Ulisses Bruder, sua família está honrada e agradecida pela Prefeitura realizar o trabalho de transferência da obra para um local apropriado. “Esperamos que a remoção e a exposição seja realizada o mais rápido possível para a preservação da obra”.
            Ainda não foi determinada a retirado do painel do local.
A LEI QUE AUTORIZOU O TOMBAMENTO
Autorizado pela lei nº 3478/1993, do então vereador Oscar Batista de Oliveira, 67, (PMDB), o tombamento do “Painel do Café” ocorreu pelo decreto nº 220/2011. Oliveira não chegou a frequentar o Bar Columbia, mas se recorda do estabelecimento. “Eu não saía de lá da frente com minha caixa de engraxate”, conta. “Naquele tempo, parte do movimento de Maringá se concentrava na Avenida Getúlio Vargas, que em parte se devia ao bar do Américo”.
Acompanhado da reportagem, ele esteve no local onde está o painel. Para o ex-vereador, Maringá deveria preservar mais seus bens culturais. “É nossa memória que vai ficar para as futuras gerações”, diz. “Se a gente não cuidar, não vai sobrar nada”.
João Laércio Lopes Leal, 49, historiador da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá, diz que retirar o painel do local e instalá-lo em lugar que possa ser visitado e visto por mais pessoas, estimula a conservação da memória de Maringá. “Esse painel retrata um importante momento para o município, que é o ciclo do café”, afirma.


FOTOS (sequência)
O famoso “Painel do Café” do Bar Columbia, que espera remoção 

Clientes lotam o Bar Colúmbia e, ao fundo, o “Painel do Café” 
















quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O PEQUENO NOTÁVEL

81 anos, baixinho, simpático e simples, assim é José Mujica, o Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que passou como um furacão por Curitiba, onde fez uma palestra e falou de questões que afligem o Brasil e o mundo atual

Texto e fotos Airton Donizete

Ir a Curitiba assim, de chofre! Pensei. Mas era uma causa especial. Mujica estaria lá. Sim, José Mujica, o Pepe Mujica, aquele ex-presidente do Uruguai, que dispensou a moradia oficial e ia trabalhar de fusquinha. Seria minha chance de entrevistá-lo. No momento, não posso ir ao Uruguai, e ele está com 81 anos. Poderia não haver outra ocasião.
Então, falei com meu amigo Ênio Ferreira Lopes, que sempre está viajando para vender seus produtos. Na capital do Estado estão vários de seus clientes. Enquanto ele vende, eu vou ao evento de Mujica. De pronto, ele topou. Saímos de Maringá à tarde.
No outro dia, pela manhã, Mujica participaria do Seminário Democracia na América Latina. Na estrada, tudo tranquilo, tirando os trechos ainda não duplicados da BR-376, onde as filas de caminhões quebram o ritmo da viagem. Mas com paciência se vai ao longe. Na boca da noite, chegamos a Curitiba. Hotel e, no outro dia cedo, saímos.
Ênio foi atrás de suas vendas. Eu fiquei no Ginásio de Esportes do Circulo Militar. Ali seria a palestra de Mujica. Que foi concorrida. No primeiro dia de inscrição, sete mil se inscreveram. O evento que seria no salão da APP-Sindicato foi transferido para o Ginásio de Esportes do Circulo Militar. Em torno de mil lotaram o recinto. Eu me encontrei com amigo Orlando Lisboa Almeida, que também participou do evento.
Ginásio lotado. Imprensa, convidados e autoridades se acomodaram na frente do palco. A maioria estudantes. Que aguardavam ansiosos por Mujica. Por volta das 9 horas, ele chegou. Ao adentrar ao ginásio foi aplaudido de pé. Sentou-se ao lado da mulher, a senadora Lúcia Topolansky, 70. Vez ou outra alguém driblava os seguranças e ia abraçar Mujica. Ele sorria, dava autógrafo e posava para fotos, como se nada acontecesse.
Aberto o evento, (organizado pelo Laboratório de Culturas Digitais, projeto do Setor de Educação da UFPR), o convidaram para subir ao palco. Participaram da mesa, com Mujica, a integrante da Rede de Mulheres Negras do Paraná e Secretária de Direitos Humanos da ABGLT, Heliana Hemeterio dos Santos; o doutor em História pela FFLCH-USP, Gilberto Maringoni; a mestre em Educação pela UFPR e professora da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA), Lívia Morales e a pesquisadora na área de políticas educacionais e movimentos sociais da UFPR, Andrea Caldas.
Todos falaram. Mas a atenção se voltava para Mujica. Tanto que Maringoni brincou.
- Vou ser breve porque me sinto como aquela banda de rock que vai fazer o show antes dos The Rolling Stones. Todo mundo quer ver o show principal e não os coadjuvantes. Aqui todos querem ver o Mujica.
Maringoni bateu pesado na política de Estado mínimo proposta pelo governo interino de Michel Temer.
- É o livre mercado e ele só tem uma alternativa: o ajuste fiscal e reduzir direitos sociais. Não tem saída porque estamos sem dinheiro, disse ele, reproduzindo o discurso majoritário do atual Governo Federal.
Hemeterio questionou a efetividade da construção democrática em um país no qual, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto.
- A democracia latino-americana não inclui o povo negro. Não podemos falar de democracia a partir do nosso umbigo, sem incluir as mulheres negras, as mulheres lésbicas, as mulheres pobres.
Livia Morales destacou a necessidade dos valores e respeito às diversidades.
- A política é o lugar da diferença. Quem gosta de tudo igual ao mesmo tempo é fascista. Precisamos aprender a lidar com as diferenças, conversar com as pessoas.
Entrecortado por gritos de “fora Temer” e fora “Beto Richa”, Mujica falou por 40 minutos. Agradeceu ao convite e disse que é sempre um prazer falar aos brasileiros. Segundo ele, a democracia está em risco no mundo por causa de duas questões centrais: a concentração da riqueza nas mãos de poucos e a crescente desigualdade na terra.
- Nunca o homem teve tantos recursos e meios científicos e técnicos para erradicar a fome e a miséria dos povos.
Para ele, o grande problema não é ecológico, mas político.
- Temos 80 senhores que possuem o mesmo que outros três bilhões de habitantes.
O ex-presidente afirmou que, antes de tudo, é preciso mudar a cultura.
- Sem mudar a cultura não muda nada.
 Mujica entende cultura como uma mentalidade de vida. Deixar o consumismo de lado, promovendo principalmente a vida e a felicidade humana como centro da sociedade. Para o ex-presidente, o crescimento econômico só se justifica se ocorrer para o desenvolvimento da felicidade humana.
- Fomos transformados em uma máquina de consumismo. A acumulação capitalista necessita que compremos, compremos e gastemos e gastemos. Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura.
Ele destacou que é preciso pensar outro modelo de democracia.
- A democracia do futuro não pode ser a democracia de gente sob medida, de campanhas e propaganda para satisfação do mercado. Aquela vende um candidato político como se fosse pasta de dente. Se a política é isso estamos fritos.
Fim do discurso. Aplaudido e ovacionado de pé. Ao sair do palco uma multidão tenta se aproximar dele. Os educados seguranças não conseguem conter tanta gente. Um autógrafo, uma foto. Mujica faz o possível para atender a todos, mas é impossível. Muita gente. Na rua próxima do ginásio, motoristas param para saudá-lo.
Quem participou da palestra, saiu satisfeito.
- Foi um evento importante. O discurso de Pepe mistura filosofia e questões práticas do dia a dia, o que faz dele um personagem singular. Gostei muito da palestra. Está de parabéns a organização, Ricardo Michael Pinheiro Silveira, 25, professor, Curitiba.
- O presidente interino do Brasil poderia ouvir esse tipo de discurso. É do que precisamos. Pepe fala aquilo que o mundo precisa ouvir. Gostei muito da palestra dele. Valeu a pena ter deixado outros compromissos e estar aqui, Haline Ubeda, 31, professora, Curitiba.
- Pepe é um símbolo da esquerda. Tudo o que ele falou aqui vem ao encontro do que vivemos hoje no Brasil. Estamos vivendo uma crise política. É importante esse debate. Quem veio, certamente, saiu daqui mais fortalecido para enfrentar esse embate em que vivemos, Karen Correa Alves, 21, estudante, Curitiba.
 (Colaboração: Instituto Humanitas Unisinos)

Quem é Mujica

O senador José Alberto Mujica Cordano é descendente de bascos, cuja origem é a cidade de Múgica, que chegaram ao Uruguai em 1840. Filho de Demétrio Mujica Terra e Lucy Cordano, nasceu em 20 de maio de 1935, no bairro Paso de la Arena, em Montevidéu.
A família de sua mãe era composta por imigrantes italianos. Seu sobrenome Cordano, de seu avô Antônio, é originário da província de Gênova, a mesma região de onde veio a família Giorello, de sua avó Paula.
Seu pai era um pequeno agricultor que foi à falência pouco antes de sua morte, em 1940, quando Mujica tinha seis anos. Mujica recebeu educação primária e secundária na escola pública do bairro onde nasceu.
É ateu e casado desde os anos 1970 com a também ex-militante Lucía Topolansky. Presidente do Uruguai, Mujica recebia 230 mil pesos (cerca de R$ 22.122) mensais, doando quase 70% para o seu partido, a Frente Ampla, e também a um fundo para construção de moradias.
Mora em uma chácara em Rincón del Cerro, zona rural de Montevidéu, onde cultiva flores e hortaliças. Para ele, o restante que sobrava do seu salário (30 mil pesos mensais, cerca de R$ 2.800) era suficiente para sua sobrevivência.
O ex-presidente teve importante papel no combate à ditadura civil-militar no Uruguai (1973-1985). Na guerrilha, coparticipou de assaltos, sequestros e do episódio conhecido como Tomada de Pando.  Ocorrido em 8 de outubro de 1969, quando os tupamaros tomaram a delegacia de polícia, o quartel do corpo de bombeiros, a central telefônica e vários bancos da cidade de Pando, situada a 32 quilômetros de Montevidéu.
 Mujica passou 14 anos na prisão, de onde só saiu no final da ditadura, em 1985. Presidente do Uruguai (2010/2015), ele foi também deputado, ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. (Fonte: Wikipédia)
FOTOS (sequência)
Mujica falou por cerca de 40 minutos e, ao final, foi aplaudido de pé
O assédio a Mujica foi constante em Curitiba
O público lutou o Ginásio do Circulo Militar para ouvi-lo










sábado, 4 de fevereiro de 2017

UM TROVADOR DA VIDA REAL


 Versos do fluminense que chegou a Maringá em 1955 nascem de cenas cotidianas e vencem concursos nacionais transformando-o num dos poetas mais premiados do Brasil

Texto e foto: Airton Donizete


Conhecia-o pelo nome que assinava suas trovas: A. A. de Assis. Tomava café numa padaria. O amigo da mesa me apresentou àquele senhor que havia chegado. “Este é o poeta A. A. de Assis”, disse. Ele me presenteou com dois livros de coletâneas, entre as quais havia uma trova e uma crônica dele.
Marcamos um bate-papo na casa dele para alguns dias depois. Professor, jornalista, poeta, cronista, editorialista. Não faltam adjetivos para Antonio Augusto de Assis, que nasceu em 7 de abril de 1933.
Ele já contou sua vida na autobiografia "Vida, verso e prosa", lançada em 2010. Mas um personagem do naipe de Assis é inesgotável. Sempre há algo a dizer dele. Ou que vale a pena lembrar.
Natural da montanhosa São Fidélis, vizinha de Campos (RJ). Passou a infância numa pequena fazenda do pai nos arredores da cidade. Era um menino levado. Gostava de jogar pelada, tomar banho de rio e caçar passarinho.  

Na biblioteca do pai

Começou a aprender a ler e a escrever com as irmãs. Com 11 anos começou a ir à escola. O gosto pela literatura o acompanha desde menino. Aprendeu muito com o professor Expedito, que lecionava latim, português, francês e inglês. “Era curioso e sempre me interessava por tudo que era relacionado aos livros”, conta.
O pai Pedro Gomes de Assis era leitor dos jornais Diário Carioca e Correio da Manhã. Na biblioteca dele havia as revistas Seleções, Careta e O Cruzeiro. “Ali comecei a tomar gosto pela leitura das notícias e reportagens”, afirma.
Com 20 anos foi trabalhar numa loja da GM, em Bauru. Um irmão dele e um cunhado tinham um sítio em Astorga e instalaram uma loja de peças de carro em Maringá. Em 1955, convidaram-no para trabalhar na cidade. “De pronto aceitei, mesmo sem saber que lugar era aquele”, comenta.   
Mas o destino de Assis era mesmo o jornalismo. Começou a fazer programas na Rádio Cultura. Trabalhou nos jornais A Hora, O Jornal de Maringá, A Tribuna e na primeira revista da cidade: Maringá Ilustrada, que passou se chamar Norte do Paraná e, em seguida, NP – Novo Paraná e Folha do Norte.

Prisão
Em 1969, um amigo o visitou no jornal, e Assis lhe deu um cartão. Um ano antes, o governo militar decretara o AI-5. Dias depois, um carro do Exército parou em frente ao jornal. Os militares o levaram ao 30º Batalhão de Infantaria Mecanizado (30º BIM), em Apucarana. De lá o conduziram a Curitiba.
Maringá ficou em polvorosa. Ninguém sabia por que Assis fora preso. O Exército não dava informação. Em Curitiba, ouviram-no e o liberaram. “Foi muito rápido, mas fiquei apavorado, pois ninguém me informava o que estava acontecendo”, diz. A prisão se deu porque o amigo fora preso e com ele estava o cartão que recebera de Assis em Maringá.
Se nas décadas de 1960 e 1970 os militares apavoravam; nos anos 1950, Assis diz que viveu na Maringá do faroeste. “Quem já assistiu à ‘Era uma vez no Oeste’ pode fazer uma ideia do que era nossa cidade”, afirma, lembrando-se dos ônibus que atolavam na lama que se formava na Avenida Brasil. “A gente ia lá ajudar a empurrar”.
Duas filhas, cinco netos, 15 irmãos, Assis é casado com Lucilla Maria Simas de Assis. É um dos fundadores da Academia de Letras de Maringá, da qual é membro.

Troféus

 No apartamento de Assis, no centro de Maringá, tem um espaço para dezenas de troféus, que conquista Brasil afora nos concursos de trovas. Ele diz que não é conhecido em todo o Brasil, mas em cada Estado tem alguém que o conhece.
Quando o entrevistei, ele acabara de chegar de Natal (RN), onde participara de uma homenagem da União Brasileira dos Trovadores (UBT). Mas sua poesia começou por brincadeira. Um dia cantou os versos: “O amor, para ser gostoso, nunca deve ser pamonha; deve ser escandaloso, cego, surdo e sem vergonha”.
A brincadeira virou hábito. As trovas de Assis são uma espécie de flash do cotidiano. “Se estou na rua e vejo uma cena, memorizo e, mais tarde, transformo em versos”, conta. “Às vezes, estou munido de papel e caneta anoto”.
As primeiras trovas escritas ele publicou em 1959 no livro “Robson”, pseudônimo que ele usava para assinar seus escritos no jornal. A impressão foi na gráfica de A Tribuna de Maringá. Primeiro livro impresso na cidade. Daí em diante, dele, foram 14 publicações culminando com “Vida, Verso e Prosa”, autobiografia lançada em 2010.
Em 1970, em homenagem ao Festival Brasileiro de Trovas realizado em Maringá houve uma missa em trova na Catedral Nossa Senhora da Glória celebrada pelo monsenhor Sidney Luiz Zanettini. “Pedi inspiração a São Francisco, patrono dos trovadores e escrevi o texto”, recorda.      
Formado em Letras, professor aposentado do departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Também lecionou no Colégio Santa Cruz de Maringá. Assis se transformou num navegador contumaz na rede. “A internet foi a melhor coisa que inventaram”, diz. “Divulgo minhas trovas, converso com colegas escritores e sem gastar nada”.    

 Trovas de A. A. Assis


A palavra acalma e instiga;
a palavra adoça e inflama.
Com ela é que a gente briga;
com ela é que a gente ama!


_______________________________

  

A história, através dos anos,
ensina a grande lição:
o destino dos tiranos
Será sempre a solidão!

________________________________


Quem dera, um dia, as fronteiras
fossem elo nos unindo,
e houvesse, em vez de barreiras,
somente a placa: - Bem-vindo!

_________________________________


Na varanda, um quadro lindo:
a jovem mãe e a criança:
Era a ternura sorrindo,
amamentando a esperança!
___________________________________________


      Quem ama não mata a mata;
      quem ama, planta, recria.
      Quem ama protege e acata
      o verde, a vida, a alegria!

FOTO

Assis ao lado de parte dos seus troféus conquistados em concursos de trovas pelo Brasil








O distrito que é um oásis de tranquilidade

Antigos moradores permanecem no Barreiro, distrito de Apucarana, que outrora concentrou movimentadas olarias, das quais originou o n...