segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DIA EM QUE OS CAFEZAIS DO INTERIOR DO PARANÁ FORAM TINGIDOS DE NEGRO


Faz 42 anos que a geada negra dizimou os cafezais do Paraná anulando sonhos e obrigando muitos agricultores a trocarem a roça pela cidade, mas a cultura cafeeira se recuperou e ressurge com força e qualidade em pequenas propriedades

Texto: Airton Donizete - Fotos: Divulgação e AD

O então governador do Paraná, Jayme Canet, visita cafezal destruído, em 1975





Eu tinha hábito de acordar cedo para beber o primeiro leite que saía das tetas das vacas. Meu pai as ordenhava, e eu corria com uma caneca de alumínio. Ele a enchia de leite. Minha mãe misturava uma colher de cachaça. Dava um gosto especial. Acompanhado de uma batata doce assada era meu café da manhã. Mas naquele dia foi diferente. Meu pai era meeiro e tocava uma propriedade de café na zona rural de Califórnia, no Vale do Ivaí. Não lembro quantos, mas eram milhares de pés de café.
A noite não foi tranquila. Dormi de calça e com duas blusas. Minha mãe me cobriu com um colchoado de paina. Pesado, me fez sumir no colchão de palha. Manhã de 18 de julho de 1975, dia do meu aniversário. Eu completava nove anos. O frio não me impediu de sair correndo com a caneca de alumínio. A cada assoprada expelia um tucho de fumaça pela boca. Queria o leite quentinho misturado a uma colher de pinga.  Encontrei meu pai mudo e estático observando os pés de café, que se avizinhavam da casa. Ele tentava recuperar as forças para ordenhar as vacas. Lágrimas lhe caíam dos olhos. Eu agarrei às pernas dele e desandei a chorar.
Horror
Esta cena não me sai da cabeça: meu pai contemplando a lavoura que, com a chegada dos primeiros raios de sol da manhã, começava a ficar negra. O frio que abateu os cafezais do Paraná está na lembrança de quem o vivenciou. Muita gente rumou para a cidade. Alguns permaneceram na zona rural. Derrotados pela monocultura do café adotaram a diversificação agrícola, iniciada nos anos 1980. A família Dada é uma das que apostaram em outras culturas. Até hoje vive numa propriedade de dois alqueires na Estrada Vieira, na zona rural de Marialva. “Na época, meu pai tocava apenas café”, conta Eduardo Dada, 46 anos. “Não chegamos a passar fome como alguns produtores, mas sofremos bastante”.
            Ele e a mãe, Elvira Angelotti Dada, 83 anos, não sabem precisar quantos pés de cafés perderam em 1975. “Aquilo foi um horror”, diz ela. “O sol esquentou, e o cheiro de folha verde queimada tomou conta”. Elvira afirma que o prejuízo não foi maior porque eles não tinham meeiro. A própria família cultivava o café. “Mesmo assim, meu pai teve de cortar despesas e reduzir os investimentos na propriedade”, acrescenta Eduardo.
Catástrofe
O andar vagaroso de Hisato Hashimoto, amparado por uma bengala, não condiz com sua memória. Aos 91 anos, ele se lembra de fatos e pessoas. Nascido em Lins (SP), ele chegou a Marialva em 1947. Vive na mesma propriedade de cinco alqueires, nas margens da estrada que liga a cidade ao distrito de Santa Fé. Em 1975, Hashimoto era empregado, mas perdeu todo o café que cultivava. “Foi uma catástrofe, que nos deixou a zero”, conta. “Nossa sorte que naquele tempo, vivia-se de qualquer jeito, mesmo sem dinheiro, sustentando do que se plantava na roça e dos porcos e galinhas criados no quintal”.
Na época, ele colhia uma média de 700 sacas de café plantado com espaçamento, possibilitando o cultivo de milho, arroz e feijão entre os pés. Hashimoto diz que após a geada de 1975, o trabalho maior foi dar destino à lenha seca que restou. “Trabalhamos vários dias para retirar aquele entulho sem serventia”, afirma.
Mas ele não desanimou com a geada. Ao contrário de muita gente que partiu para a cidade ou outros Estados, permaneceu no sítio, comprando-o, mais tarde, com dinheiro oriundo do trabalho no local, onde mora até hoje. Casado com Tomie Hashimoto, 90 anos, ele tem quatro filhos, dez netos e dois bisnetos. Mora apenas com a mulher no local, que é um verdadeiro museu do café. As casas de madeira. O terreirão, a tulha e o secador.  O café, oito mil pés, continua o carro-chefe da propriedade. Ele não soube informar números da safra, alegando que, de ano para ano, varia muito.



Geada foi golpe de misericórdia, mas provocou até suicídios

O jornalista Valderi dos Santos diz no seu livro, “O café no norte do Paraná – ascensão e queda”, que a geada de 1975 destruiu mais de 900 milhões de pés de café no Estado. Ele ressalta, no entanto, que o fenômeno foi apenas um golpe de misericórdia. Para o jornalista, o governo federal não dera devida atenção aos cafeicultores, derrubando o preço da cultura, desvalorizando-a no mercado. Eram tempos difíceis. Os agricultores, que não recebiam incentivos do governo, foram mais rápidos à lona com as condições adversas do clima.
             O engenheiro agrônomo Marcos Aurélio Volpato, 56 anos, diretor geral de Agricultura, da Prefeitura de Marialva, afirma que o estrago da geada se ampliou porque a maioria dos agricultores dependia apenas do café. Houve casos em que a perda chegou ao extremo. “Alguns que já estavam endividados acabaram cometendo até suicídio”, conta. Na época, ele era estudante do antigo segundo grau.
            Volpato ressalta que o pior ocorreu após a destruição dos cafezais. Muita gente se mudou da zona rural para capitais. Irineu Pozzobon, no livro: “A epopeia do café no Paraná”, afirma que entre 500 e 600 mil trabalhadores deixaram o Estado. A maioria foi para São Paulo trabalhar nas indústrias automobilísticas. “Com as crises econômicas muitos perderam o emprego e ficaram na penúria”, declara. “Os que não conseguiram voltar ou não trocaram de ramo sofreram muito”. O feijão soja foi uma das opções para quem quis continuar na agricultura.

            A safra paranaense de 1975, colhida antes da geada, rendeu 10,2 milhões de sacas de café, 48% da produção brasileira. O Estado tinha uma produtividade superior à média nacional. No ano seguinte, a produção foi de 3,8 mil sacas. Não houve exportação. A participação paranaense na produção brasileira caiu para 0,1%.
Especialistas avaliaram que o prejuízo chegara a Cr$ 600 milhões (pela cotação da época, o equivalente a US$ 75 milhões) apenas nas lavouras de café. Outras culturas também foram atingidas. Mas o café sustentava a economia do Paraná naquela época. Uma situação que mudaria em seguida, pois os cafeicultores nunca mais se recuperariam daquele evento climático. 


Pioneiro que morreu com 103 anos viveu auge
          do café nas máquinas beneficiadoras da CMNP

Uma das maiores produtoras de café da região foi a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP). Colonizadora que nasceu da Companhia de Terras Norte do Paraná, fundada por ingleses em 1925. Paralelo à venda de terras, a companhia comprou várias fazendas para cultivar café.
Quem viveu essa época de fortuna dos grandes cafezais é o pioneiro José Remígio Pereira, que chegou a Maringá em 1953. Ele morreu em agosto do ano passado aos 103 anos, mas em 2015, no aniversário de 40 anos da “geada negra”, me recebeu na casa dele, em Maringá, para uma entrevista sobre o tema. O pioneiro se recordou de quando saía pela região para consertar as máquinas de café da companhia, onde trabalhava.  
Um de seus trajetos era ir até Umuarama (160 quilômetros de Maringá) reparar uma máquina cafeeira. Com chuva, de jipe, demorava sete horas pela estrada de chão batido. O meio mais fácil era o avião teco-teco, que fazia o percurso em 40 minutos. “Lá de cima, a gente via aquela nuvem de poeira que saía do chão, era Maringá”, conta.
Na cidade, tornou-se operador da Cafeeira Santo Antônio, que funcionava na Avenida Mauá, esquina com a Avenida Tuiuti. Em 1965, foi vendida para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O gerente da colonizadora, Alfredo Nyfeller, impôs uma condição: só compraria a cafeeira se Remígio, Luiz Roberto Bolotta e Dante Panzeri (também funcionários) viessem juntos.
Proposta aceita, Remígio permaneceu 31 anos na companhia. Ele lembra que em época de safra beneficiava 200 sacas de café por dia. As fazendas da colonizadora tinham 1 milhão de pés de café e produziam em torno de 50 mil sacas por ano.
Luiz Roberto Bolotta, 73, da Cafeeira Santo Antônio foi transferido para o escritório da companhia, na esquina entre a Avenida Duque de Caxias e rua Joubert de Carvalho, onde trabalhou por 35 anos. Na época, havia mais de 50 máquinas de beneficiar café em Maringá. Segundo ele, o café rendia muito dinheiro para a companhia. “No período de venda, minha rotina era contar maços de cédulas no balcão do escritório e levar tudo a pé numa sacola ao banco”, conta. “Naquele tempo não havia assalto”. 
Remígio deixou oito filhos de três casamentos. Era casado pela terceira vez com Florinda Rossi Pereira, 81 (FOTO ABAIXO DO CASAL). Ele disse que naquele dia 18 de julho de 1975 fez tanto frio que se os pés de café tivessem sido cobertos queimariam do mesmo jeito. “Eu fiz o teste”, contou. “Cobri um pé que tinha no quintal de casa, mas ficou todo preto soltando a casca”. As mangueiras de água amanheceram congeladas. “Algumas chegaram a partir”, acrescenta o pioneiro.





Engenheiro fotografou a história do café

Em seu Jipe Willys fabricado em Toledo Ohio, nos Estados Unidos, em 1954, ele cortava as estradas barrentas do norte e noroeste do Estado. “Por aqui havia a fama: quando não era pó, era lama, mas a gente encarava e ia em frente”, recordara-se ele, em entrevista, em 2013. Trata-se do fotógrafo Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser, que morreu em 2014, aos 88 anos. Engenheiro agrônomo, ele trabalhou no Instituto Brasileiro do Café entre 1953 e 1989. Nas visitas que fazia pelo Paraná fotografava assuntos relacionados ao café.
O acervo fotográfico de Armínio veio a público com os livros “Ao sabor do Café” e “Ao aroma do café”. A autoria dos trabalhos é do Instituto de Memória e Imagem “Câmara Clara”. Não faltavam cenas para a câmera dele. Em 1967, em Mandaguari, um homem, que vem da zona rural, leva ao cemitério, o corpo do filho num caixãozinho. Dois sujeitos proseiam na beira de uma estrada, que, segundo Armínio, se intitula: “Esperando Godot”. “Mas Godot não veio”, complementa.
As cenas mais tristes que fotografou talvez tenham sido em 1963, ano de um incêndio nas lavouras do Paraná. Após uma grande geada, pastos e cafezais ficaram secos. Trabalhadores atearam fogo para fazer o plantio esperando a chuva, que não veio. O fogo se alastrou e por cerca de quatro meses transformou em cinzas casas, lavouras, pontes e tudo que tinha pela frente.
Mas as geadas de 1962 e 1963 e o incêndio rural que se seguiu no Paraná não impediram a grande produção cafeeira. Veio a erradicação. Em seu livro “A epopeia do café no Paraná”, o engenheiro agrônomo Irineu Pozzobon escreve que a erradicação atingiu 1,34 bilhões de cafeeiros no Brasil; 249 milhões no Paraná.
Com a crise de 1929, o preço do café despencou no exterior. O governo federal resolveu comprar 18 milhões de sacas, ajudando os produtores. Sem ter o que fazer com tanto café, queimou-as. Armínio descrevera: “Quem passasse entre Arapongas e Sabáudia em junho de 1961 assistiria a um espetáculo inédito: um mundaréu de café pegando fogo. Por aqui, ouvi falar em 10 milhões de sacas de café virando cinzas”.
Após as geadas e os incêndios da década de 1960, o frio voltou em 1975. As lavouras que mal tinham saído de uma catástrofe eram dizimadas pela geada negra. ABAIXO FOTO DE ARMÍNIO KAISER RETRATA MULHER ABANANDO CAFÉ NA DÉCADA DE 1950.


Geada negra mata até a raiz

A geada negra é formada por uma condição atmosférica que congela a parte interna da planta. O poder de destruição é maior. Ocorre quando há atuação de massa de ar polar de forte intensidade, com temperatura baixa e pouca umidade. Em contato com a superfície há o congelamento, provocando enormes danos físicos na planta. “É um fenômeno precedido de muito vento”, diz o professor Hélio Silveira, 45, do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenador da Estação Climatológica da mesma instituição.
Quando se forma apenas uma camada de gelo na superfície chama-se geada branca. Se a seiva da planta congelar é geada negra. Esse último tipo é a mais devastadora para as plantações, mas só ocorrem em cidades muito frias. No Brasil, na maioria das vezes, apenas nas regiões serranas do Sul. Foi o que ocorreu em 18 de julho de 1975. No dia anterior ventou muito. “A geada negra se forma devido ao vento muito gelado, congelando a seiva da planta e ocasionando perda total”, afirma Silveira.
O jornalista Valderi dos Santos, no livro “O Café no norte do Paraná – ascensão e queda” relata que em 1953, a geada provocou queda de 58% nas safras seguintes. Em 1955, 65%; 1962, 49%; 1963, 22%; 1966, 24%; 1969, 87%; 1972, 58% e 1975 prejuízo total. “Na época foi destruído todo o parque cafeeiro do Estado”, escreve ele. 
FOTO ABAIXO: Moradores de Curitiba brincaram de fazer boneco de neve, em 18 de julho de 1975.




Produção ressurge com força e qualidade

O Paraná hoje não figura entre os maiores produtores de café do Brasil. Há muitos anos, perdeu o posto para Minas Gerais. Mas o Estado vive um bom momento na produção do grão. As pequenas propriedades lideram a produção. A maioria é cultivada mecanicamente. É o caso de Antônio Geraldo Rosseto, 54, de Mandaguari.
Descendente de italiano, cujos pais, em 1953, atraídos pelo café, vieram do interior de São Paulo para Mandaguari.  A família Rosseto tem um sítio nas margens da rodovia que liga a cidade à Maringá. Antônio, que nasceu na propriedade, cultiva 20 mil mudas. A colheita lhe garante em torno de 500 a 600 sacas em coco. A diferença está na lida do produto. Tudo mecanizado.
A colheita dos grãos é feita com máquinas manuais. Em seguida, são transportados numa caminhonete até o terreiro. Rosseto não quis nem posar para foto com um rastelo na mão. Mas nem sempre foi assim. Segundo ele, antigamente, “era tudo no braço”. Quando ameaçava chuva durante a colheita era um problema. “A gente ia pegar um animal para pôr no carrinho era um Deus nos acuda”, afirma. “Parece que o bicho adivinhava e danava a correr”.
Apesar dos contratempos na economia que atrapalham a agricultura, ele e a família apostam no café, que já lhe deu um título de melhor produtor regional em concurso organizado pela Cooperativa Agropecuária e Industrial de Mandaguari (Cocari). “Hoje, o que manda é a qualidade”, diz. “Pouca planta e bastante colheita”. Antigamente, plantava-se muito, mas produzia menos e com qualidade inferior.
Para ele, a geada de 1975 foi uma catástrofe, mas quem não dependia de mão de obra conseguiu se recuperar. É o caso da família Rosseto que sofreu o impacto do fenômeno climático, mas se reergueu. Mesmo assim, alguns dos parentes foram para São Paulo, onde moram até hoje.
O agrônomo Marcos Aurélio Volpato diz que o café é um bom negócio, levando em conta o preço, que gira em torno de R$ 400 a saca de 60 quilos. Mas ele aconselha o produtor a explorar a atividade com mão de obra familiar, evitando gastos excessivos. “Mecanizar o máximo possível e só contratar mão de obra esporadicamente”, diz, acrescentando: “Cultivar a lavoura no sistema adensado; utilizar cultivares mais resistentes a pragas e doenças; colher no pano com sopradores de palhas motorizados e secar em terreiros suspensos ou em lonas plásticas”. 
FOTO ABAIXO: Rosseto diz que mecanização do café facilita para o produtor



segunda-feira, 3 de julho de 2017

O DIA EM QUE A CIDADE VIROU SERTÃO


Tinoco, mito da música caipira, foi homenageado em Maringá, em 2009, com show cuja renda foi revertida para tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer

(Texto e foto: Airton Donizete)


Tinoco posa para foto na Cerealista Pantaneira, de Maringá; ele esteve na cidade para show no Clube Olímpico, em 2009, cuja renda foi destinada para tratamento de saúde da mulher dele, Nadir, que viria a morrer logo depois, vítima de câncer




O telefone toca. Era o Aníbal, compadre do Tinoco, convidando o Fregadolli (da Revista Tradição) para almoçar na Cerealista Pantaneira. No cardápio, frango caipira e polenta. Mas a atração principal era o próprio Tinoco que se preparava para o show em sua homenagem no Clube Olímpico, de Maringá. A renda do evento foi revertida para custear tratamento de saúde de sua mulher, Nadir, que estava com câncer.
 Eu fui junto, pois era a oportunidade de entrevistar Tinoco, um dos últimos representantes da música caipira. De camisa vermelha, calça branca e óculos escuros, nos aguardava. Ele autografava alguns DVDs que seriam vendidos no show, mas logo me convidou para ir a uma salinha ao lado, pois tem dificuldade para ouvir.
Pena que o tempo era curto. Tinoco tinha de almoçar e cumprir alguns compromissos antes do show. Um personagem como ele é uma espécie de poço cujo fundo ainda não foi atingido. Sempre é possível cavar mais um pouco. E lá fui eu com minha cavadeira, ou melhor, meu gravador.
José Perez, o Tinoco, nasceu em 19 de novembro de 1920 em Platânia (SP) e João Salvador Perez, o Tonico, em 2 de março de 1917 em São Manuel, no mesmo Estado. Começaram a cantar como Irmãos Perez, mas logo foram batizados pelo Capitão Furtado, apresentador do programa “Arraiá da Curva Torta”, na Rádio Tupi.
Não demorou muito, e o palhaço Saracura lançou o bordão: ‘Dupla Coração do Brasil’. O apresentador Dárcio Campos passou a chamá-los de ‘Os expoentes máximos da música sertaneja’. Daí em diante, a história é longa e só mesmo Tinoco para nos contar um pouco dela, bem ao seu estilo com aquela linguagem caipira que não se ouve mais. Afinal, pelo menos por um dia, a cidade virou sertão. Veja trechos do dedo de prosa, a seguir.

Fale um pouco da carreira de Tonico e Tinoco?

TINOCO – Nossa carreira começou quando me conheci por gente. Naquele tempo, não tinha foinha. Minha mãe era índia. Eu cantava fininho e o Tinoco mais grosso. A gente fazia versinho assim: “O tatu casou com a onça, a onça ranhou o tatu”.
Nós morava na roça, no sertão de São Manoel. Apredemo compor, tocar, sem ouvir ninguém. Então, sempre falo: quem deu a mão pra nóis foi Deus. Abraçamo o dom que Deus nos deu. Foram 72 anos de carreira.
Platânia fica a 15 quilômetros de São Manuel. Eu andando lá com o prefeito vi uma casinha de madeira onde nóis moramo 80 anos atrás. Aí, o prefeito desmontou ela e levou pra Platânia e fez uma casa curturar. Lá, está todo nosso acervo. Nas paredes, tem o sinal da fumaça da lamparina. O mesmo fugão de lenha onde minha mãe cozinhava. A taipa onde nóis esquentava fogo. Naquele tempo, não tinha cuberta pra aquecer. Tudo isso aconteceu na década de 40 no começo da nossa carreira.

A carreira de vocês deslanchou quando o Capitão Furtado batizou-os?

A gente já cantava antes, mas ali começou tudo. Ele deu nome e levou nóis pra gravar. Foi o primeiro passo. Foi na Rádio Difusora, que depois passou a chamar Tupi. Era do grupo das Emissoras Associadas comandadas por Assis Chateaubriand. Ele disse que a gente precisava de um nome bem caboclo.  
E deu certo. Tamos aí até hoje. Digo tamos porque depois que o Tonico morreu, vai fazer 14 anos no próximo dia 13 de agosto, eu me senti obrigado a manter a estrada de Tonico de Tinoco.
E Deus me ajudou. Gravei três CDs cantando a voz do Tonico fazendo a segunda e a primeira. Tive uns parceiros, mas não deu certo. Agora, eu faço dupla: Tinoco e Deus. O amor do povo é uma beleza. Você vê a juventude, 80% no meu show. E nossas músicas, não têm uma que inventamos. É tudo história de vida. Por isso que elas entram no coração e não sai mais.
      
Tonico e Tinoco vieram muitas vezes ao Norte do Paraná?

Nossa... Nóis ajudamo a desbravar isso aqui. Quando nóis vinha aqui tavam derrubando mato. Olha, tudo é coisa por Deus. Os pais e o filho mais velho vinha comprar terra nesse trecho de Londrina a Mandaguari. Vinha com dinheiro pra pagar a terra. E já contratava camarada pra derrubar mato. Tudo isso a gente acompanhava.

E Maringá?

Vim pra cá quando não tinha estrada. Só jipe pra chegar. Muita gente acabava de chegar de carroça. Se a família era grande, vinha três, quatro carroças. Uma trazendo mantimento. Tinha mais dois cavalos amarrado atrás; quando um cansava, ponhava o outro. Eu e o Tonico não tinha onde comer. Então, eu chegava lá onde as carroças tavam na horinha do almoço. Eles convidava pra almoçar, e eu levava um caldeirão pra trazer, era pra comer no outro dia.
Eu com o Tonico levava uma caneca só pra beber água. Em qualquer riozinho de beira de estrada você baixava e bebia. Não tinha poluição.

Você disse que as músicas de vocês contam histórias reais, por que hoje não se faz mais músicas assim?

Não... hoje é tudo descartavi... Tem cantor que repete uma linha 10, 20 vezes. Outro só quer chacoalhar a bunda pra dançar. Mais, nóis, Tonico e Tinoco sempre desviamo disso. Não é só agora, não. Lá atrás também.

Certa vez, a gravadora quis que vocês usassem uma roupagem moderna e vocês não aceitaram?

É... houve isso. Foi quando o Roberto Carlos e a Jovem Guarda estourou. Por que essa roupa lumiante aqui? Quis saber. A gravadora (Continental) falou: “Vou mudar vocês”. Eu falei:”Mudar como?”. Vocês vão sair num carro sem capota pra mostrar o novo visuar. Falei, não. Para, para...
Depois disso, esperei dois anos pra gravar. Até passar aquela onda.

Quantos discos Tonico e Tinoco gravaram?

Não dá nem pra contar. Quando fizemo 50 anos de carreira era 80 LP e quase 300 de 78 rotações. Aqueles que têm uma música de cada lado. Temos bastante também daqueles disquinhos que saiu na década de 70, aqueles que tinha que pôr um peso em cima da agulha pra conseguir tocar. Músicas? Contando tudo que gravamos e fizemos passa de 1500.

Batidas na porta. É o compadre (do Tinoco) Aníbal que vem chamar Tinoco para almoçar, pois um canal de TV espera-o para gravar. Tenho de encerrar a entrevista. À noite, centenas de fãs aplaudiram-no no Clube Olímpico. Acompanhado de Juliano César, Márcia Mara, Zé Paulo, Gilberto e Gilmar, Léo e Giba e Teodoro e Sampaio, Tinoco cantou alguns de seus principais sucessos. Segundo a coluna DIA-A-DIA, do saudoso jornalista Edson Lima, o evento arrecadou R$ 49.585,00.
     


ANTIGOS CARNAVAIS EM MARINGÁ E REGIÃO

           Tanto riso, Oh! quanta alegria, Mais de mil palhaços no salão Arlequim está chorando Pelo amor da Colombina No meio d...