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Memórias de um time que fez história no futebol amador

 

Wagner Lazarini, jogador e técnico por mais de 40 anos da equipe do Pirapó Esporte Clube, no distrito de mesmo nome, em Apucarana, diz que hoje, a modalidade não desperta mais paixão na garotada, que prefere sair por aí de carro, moto, frequentar barzinhos ou mexer no celular a correr atrás de uma bola nos campos de várzea

Numa tarde ensolarada, mas sem calor excessivo, vou ao encontro de Wagner Lazarini, que me espera sentando numa cadeira, no amplo quintal de sua casa, no Pirapó, distrito de Apucarana. Ele me cumprimenta e busca mais cadeiras. Nos sentamos, e a entrevista sobre o futebol amador local, é ali mesmo. No norte do Paraná, Lazarini é um dos pioneiros da modalidade que era jogada em campos, de terra ou grama, nas comunidades. Jogador, e depois técnico, ele viveu memoráveis anos de  competições e jogos. A antiga bola de couro era sinônimo de diversão nos fins de semana.

Nascido em 1938, em Catanduva (SP), ele veio com a família para o Paraná em 1955. Moraram em Ibiporã, numa comunidade conhecida por “Água das Abóboras”. Se mudaram para Sabáudia, de onde vieram para o Pirapó. Era um minúsculo patrimônio, com muito vento, poeira e barro. As ruas eram de chão batido. Com chuva, a lama vermelha e pegajosa engrossava a sola dos calçados. Na porta das casas, não faltava um limpador de pé, que chamavam de “chora paulista”. Mas nada tirava o ânimo daqueles que chegavam dispostos a encarar as dificuldades para assegurar um futuro melhor.  

A família de Lazarini era uma das que apostavam na pujança do café, o chamado ouro verde do norte do Paraná. Mas não era só trabalhar de segunda à sexta, colhendo os grãos avermelhados, sobravam o sábado para ajeitar as coisas em casa e o domingo para a missa ou o culto e o futebol. Nos sábados à noite, havia os bailes de sanfona. Por exemplo, nas antigas fazendas Ubatuba, Fenato e na comunidade Jangadinha. Para dançar, o cavalheiro tinha de pagar 5 cruzeiros por um cravinho, que punha na lapela. “Quem não tinha dinheiro ficava na espreita e emprestava o cravinho para dançar ao menos uma vez”, conta Lazarini.



O aposentado Wagner Lazarini relembra os bons tempos da equipe do Pirapó Esporte Clube


Mas a diversão que mais o atraía eram os jogos de futebol. Tanto que ao chegar ao Pirapó, ele ajudou o pai, Ângelo, a plantar grama no campo, que fica na rua hoje denominada Dante Manosso. O Pirapó Esporte Clube fundado em 1953, sempre mandou seus jogos ali. “Fiquei mais de 10 dias de joelho ajudando meu pai a plantar grama que traziam de um sítio aqui perto”, conta. O campo, chamado Estádio Giacomo Moreal, faz parte da saga do futebol amador em Apucarana e norte do Paraná. Com jogos e conquistas que marcaram época. Lazarini se lembra de algumas disputas. Uma das mais acirradas era contra a equipe do Frigorífico Santo  Antônio (Frigosanto), de Apucarana, cujo elenco era temido.

  Havia muitos craques, mas os jogos eram pegados. Tanto que ele sofreu uma contusão no joelho e não pôde mais jogar. Passou a ser técnico. Uma das conquistas que o marcou, no comando do Pirapó, nos seus mais de 40 anos ligados ao futebol, foi um torneio Primeiro de Maio com 84 equipes. Pirapó sagrou-se campeão contra o Frigosanto. “Havia grandes times, mas eles eram o bicho papão e nós vencemos”, recorda ele, que também foi técnico do juvenil do Pirapó, que se equiparava a muitas equipes principais. Lazarini conta nos dedos citando alguns jogadores da época. Periquito, Japonês, Schmidt, Alemão...

No time principal do Pirapó também não faltavam destaques. Gerson Chagas, Armando, Hernandes, Tonelli, Duí, mas um era acima da média. Até um livro lhe foi dedicado. “Irani Glade – futebol, trajetória, relatos” é uma homenagem dos amigos que jogaram com ele ou o viram jogar. Em 60 páginas, há depoimentos que destacam as qualidades do centroavante Irani. Lazarini cita um gol dele contra o Vasco de Arapongas. Ele driblou toda a defesa e o goleiro, que ficou estatelado no chão, e empurrou a bola para a rede. Vitória do Pirapó por 1 X 0. “Irani, me orgulho em dizer que tive a honra de ser seu treinador, com muitas limitações, mas fui”, diz Lazarini no livro.

Contudo, os troféus de tantas conquistas se perderam. Dizem que estavam expostos em um bar, que teria sido vendido, e sumiram. Mas nem tudo está perdido. Uma parte das fotografias do time pirapoense está salva no Daia’s Bar e Lanchonete, de Jair Ferreira Chagas. Nascido em Pirapó, em 1962, ele é irmão do saudoso Gerson Chagas que por muitos anos jogou na equipe do distrito. Nas paredes do estabelecimento estão fotos de algumas fases do time local. “Sempre gostei de coisas antigas e resolvi preservar para que as futuras gerações possam conhecer o passado do nosso futebol amador”, diz.


Jair Ferreira, que guarda parte da memória do clube no bar dele, em Pirapó

Lazarini concorda: “Não é viver de passado, temos de preservar nossa memória, até porque o futebol como era antes não existe mais”. Para ele, os meninos hoje preferem outras opções de lazer a correr atrás de uma bola em um campo de várzea. “Eles curtem carro, moto, frequentar barzinhos ou mexer no celular”, afirma, revelando ser quase impossível montar um time que jogue permanente em algum lugar. “Hoje, se eu fosse reunir garotos, no Pirapó, para jogar futebol não conseguiria pelas razões que citei”, acredita. Uma das poucas atividades no Estádio Giacomo Moreal é uma “pelada” de amigos aos sábados à tarde. Partidas de torneios e campeonatos são esporádicas.


Uma das formações do Pirapó Esporte Clube, titulares, reservas, técnico e assistentes: Em pé – Wagner Lazarini, Salvador, Batista, Polação, Tiãozão, Dinarte, Duí, Avelino Fenato e Guerino; agachados – Antônio Ângelo, Irani, Hernandes, Gerson Chagas, Luizinho, Zebrinha e Tonelli


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