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O maratonista que venceu o alcoolismo e o cigarro

 

Atleta de 71 anos, que perdeu uma visão num acidente, se tornou o segundo melhor corredor brasileiro de longa distância na sua categoria e treina para superar o primeiro, correndo 20 quilômetros por dia

Texto: Donizete Oliveira - Foto: Divulgação

 

Magro, cabelos grisalhos. Passadas curtas e rápidas, muito rápidas. Quase sempre campeão na sua categoria. Quem acompanha corridas de rua logo vai perceber que se trata de Mário de Jesus Almeida, conhecido por Mukeira, na sua cidade, Mauá da Serra, no Vale do Ivaí. Por muitos anos foi saqueiro. No muque punha um saco de café ou cereal na cabeça e carregava, daí o apelido. Nascido em Pitangueiras, em 3 de outubro de 1952, mora em Mauá desde 1986.

Quem o vê correr pode imaginar que é um atleta que começou menino, mas não. Ele corre desde os 41 anos. Antes era sedentário, fumante e alcoólatra. Chegava a beber dois litros de cachaça por dia. Cigarro, consumia dois maços diários. Num dado momento, pensando na vida, descobriu que estava se destruindo. Se continuasse naquela rotina, logo morreria. Viu no esporte uma saída. Primeiro, o caratê, que praticou por alguns anos, mas encontrou a corrida e não parou mais.

Mukeira participa de diversas corridas pelo Brasil. Na sua categoria, ganhou mais de 800 troféus e em torno de cinco mil medalhas. Na sua casa, tem um quarto para acomodar a premiação. Vez ou outra, nas competições que oferecem dinheiro, ele fatura alguns trocados. “Mas minha maior vitória é o que superei para chegar até aqui”, comemora. Casado com Maria Almeida, é pai de seis filhos e avô de 13 netos.

Comemorar é preciso porque nada parece fácil para Mukeira. Um acidente lhe tirou a visão esquerda e o deixou com apenas 15% da direita. Para não tropeçar nas corridas, ele acompanha um atleta do seu mesmo ritmo, evitando cair nas lombadas. À noite, a dificuldade é maior, mas ele diz que o pior já passou e nada lhe tira o foco. “Me apego em Deus e busco sempre a superação, evitando reclamar dos percalços”, afirma.

Superação que se revela a cada corrida. Na Maratona de Curitiba, em 2019, ele concluiu os 42 quilômetros com 3 horas e 17 minutos; na Maratona Internacional de Foz do Iguaçu, no ano passado, correu em 3 horas e 32 minutos. Os 10 quilômetros, ele percorre em 42 minutos; os 5 quilômetros, em 21 minutos. As marcas o colocaram em segundo lugar no ranking brasileiro de sua categoria. “Mas estou me preparando para ser o primeiro e com fé em Deus e treinamentos vou conseguir”, diz.

Por dia, ele corre 20 quilômetros. Um amigo o acompanha de bicicleta por causa do problema de visão. Preparação que o deixou em condições de correr 26 maratonas pelo Brasil. A alimentação também ajuda. Mukeira consome carne magra, verduras e frutas. “Na medida do possível, mantenho o organismo em dia para se sobressair nas corridas e treinos”, diz, agradecendo seus patrocinadores, as farmácias Hiperfarma e Boa Saúde, de Mauá da Serra.

  Mukeira na Corrida 28 de Janeiro, de 2023, em Apucarana


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