Os palcos, as estradas e o som que marcou gerações

 


Ciriaco, vocalista da antiga Apollus Band, de Apucarana, relembra dos tempos em que viajava com os músicos da banda entre instrumentos e equipamentos em um pequeno e rodado ônibus que os levava para apresentações que ficaram na memória dos muitos fãs que conquistaram por várias partes do Brasil

Texto: Donizete Oliveira

Fotos: Arquivo pessoal e DO

 

O barulho da estrutura daquele ônibus antigo até hoje lhe ressoa na mente. O motorista guiava o volante e trocava as pesadas marchas de olho no tempo. Não podia chover. Estrada barrenta arruinava a viagem. Tinha de rezar para São Pedro fechar as torneiras, ao menos até chegarem ao destino. Se desse tudo certo, haveria um show, um showmício ou um baile. Que nem sempre saía a contento. Uma vez, numa cidade do interior do Mato Grosso do Sul, um sujeito exigiu que tocassem uma polca paraguaia. Um músico respondeu que a programara para mais tarde. Ele, impaciente, sacou um revólver da cintura e apontou para o palco. Não sobrou ninguém em cima. Eles só retornaram após o tumulto cessar, e tirarem o valentão do recinto.  

Para muitos artistas, a vida nem sempre foi um palco iluminado, como dizem Silvio Caldas e Orestes Barbosa, em “Chão de estrelas”. É preciso ralar e percorrer tortuosas estradas, muitas vezes, de forma literal, para concluir a longa trajetória que leva ao reconhecimento do público. Que o diga Ciriaco da Silva, assim mesmo, sem o acento agudo no segundo “i”. A grafia correta é Ciríaco, mas, no caso dele, desde os 12 anos, suprimiram o acento, dizendo ser mais fácil de pronunciar. Nome que remete a São Ciríaco, um santo romano, que morreu decapitado por ajudar pobres e evangelizar escravos.

Nos encontramos na Web Rádio e TV Apucarana. A entrevista, de 58 minutos, correu descontraída Aos cinco anos de idade, ele ajudava os pais no plantio e na colheita de mandioca, no município de Capelinha, hoje com 40 mil habitantes, situado no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. “Naquela época, o corpo do menino principiava a fazer sombra tinha de ir pra roça”, brinca. De uma família de 12 irmãos, seis mulheres e seis homens, nascido em 1959, se mudou com os pais para Marilândia do Sul. Vieram cuidar de uma fazenda de café. Mas ele queria se tornar cantor e logo deixou a roça. Viveu por um tempo em  Mandaguari e veio para Apucarana.

Época em que uma banda chamada Apollus Band começava a se firmar. Sérgio Signolfi a fundara em 1966. Mirando no exemplo dos pais, que cantavam e tocavam sanfona, aos 13 anos, Ciriaco começou a cantar em Marilândia do Sul, em um grupo que se chamava Imagens. No rádio, ouvia Sammy Davis Júnior, Alice Cooper, Elis Regina e Alcione, dos quais se tornara fã. Por sugestão de amigos, participou do Festival Vale Tudo de Califórnia, o Fevatuca, que reunia talentos da região, de algumas partes do Paraná e estados vizinhos. Cantou “I never cry”, do próprio Alice Cooper e conquistou o primeiro lugar. No ano seguinte, ficou em segundo, perdendo por meio ponto para o campeão. “Participei de outros festivais e após outras vitórias, começaram a me chamar para fazer parte dos jurados”, conta.

 Ciriaco diz que vivia em peregrinação, viajando para cantar em eventos. Às vezes, sem dinheiro, se a distância não fosse longa, ia a pé, de uma cidade à outra. Não raro, perdia o ônibus e passava a noite em rodoviárias. Ele conheceu os componentes da banda Vox Day, de Ourinhos (SP), que vieram se apresentar na região. Eles o convidaram a integrá-la; ele, menor, dependia do pai, que assinou uma autorização liberando-o. Cantou por algum tempo, mas queria arrumar algo mais perto de casa. Soube que a Banda Aquariu’s, de Mandaguari, precisava de vocalista. Passou no teste; o contrataram. Por alguns anos, viajou com a banda por várias cidades. “A estrada de Maringá a Campo Mourão era péssima, algumas vezes ficamos atolados ali”, recorda-se.

Mas os atoleiros e a poeira não impediam alguém decidido a fazer o que tanto queria: cantar. “Ah, não posso me esquecer de que nesse meio tempo, participei do programa do Mário Vendramel, em Curitiba”, acrescenta. Cantou “My Life”, de Michael Sullivan. A apresentação agradou ao público e o ajudou a ficar mais conhecido. Passados alguns meses, Sérgio Signolfi o convidou para fazer um teste na Banda Apollus Band. Fez, mas o reprovaram “Me senti inseguro, não consegui um bom desempenho”, reconhece. “Me disseram que eu estava verde, respondi para mim mesmo que iria madurar”. Madurou tanto que até caiu, não do galho, mas no lugar certo.

A Apollus animava uma feira agropecuária em Umuarama; o vocalista havia deixado a banda. Eles o convidaram. A voz de Ciriaco é aguda. Naquela época, a maioria dos cantores era de timbre grave. “Passei um dia trancado em um quarto do hotel treinando vocal, devagar fui me adaptando, e permaneci com eles por mais de 20 anos”, conta, lembrando episódios da carreira. Uberaba, Uberlândia e Belo Horizonte eram marcantes para a banda. “Uma vez em Uberlândia tive de pular de uma altura de mais de três metros para fugir do assédio da multidão que subiu ao palco no fim do show”, diz, citando Minas Gerais, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, interior de São Paulo e estados do Norte e Nordeste, onde faziam sucesso.

Que veio após muitas histórias de superação. No início da década de 1980, viajavam entre instrumentos e equipamentos de som em um antigo e apertado ônibus. Um dia no interior paulista, faltando alguns quilômetros para chegar ao local do baile, o ônibus quebrou. Não havia outro nem caminhão para levar a parafernália. Arrumaram um carro de bois, que chegou ao destino em cima da hora do evento. Foi uma correria para montar tudo e subirem ao palco. “Apesar dos problemas, nossa determinação e o apoio das pessoas nos davam coragem e forças para seguir em frente”, afirma Ciriaco, que atribui o sucesso da Apollus ao seu fundador Sérgio Signolfi.

Diz que a liderança dele foi fundamental para o sucesso da banda. “Ele era músico, mas também sabia tocar o negócio”. Com a morte dele, em um acidente de carro, em 1997, a Apollus continuou, mas logo entrou em decadência. “Cada um deve entender daquilo que faz, e o Sérgio sabia administrar a banda”. Sobre ganhar dinheiro, ele diz não ter muito a dizer porque os integrantes da Apollus eram registrados em carteira e ganhavam salário fixo, com atuação exclusiva, sem cantar ou tocar em outros grupos.

Ele continua com a garganta afinada. Se apresenta com frequência na Web Rádio e TV Apucarana. Também em bares, pizzarias, churrascarias, restaurantes e em eventos particulares. “Quem gosta da arte nunca para”, diz, lembrando dos tempos em que pela banda Apollus se apresentou em programas de redes nacionais, como “Perdidos na Noite”, do Faustão, “Clube do Bolinha” e programas do Raul Gil. “Infelizmente, a qualidade musical caiu porque tudo é feito para ontem e acaba hoje mesmo”, avalia. “Não existe mais, ao menos na chamada grande mídia, a canção marcante, duradoura, que trazia uma mensagem, um sentido, mexendo com nossa emoção”.

Ciriaco que cantou por mais de 20 anos na banda Apollus Band, que era de Apucarana

Abaixo alguns momentos da antiga Banda Apollus Band








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