Depoimento de Lula à Justiça
Federal, na capital do Estado, inflama ânimo de militantes prós e contras o
ex-presidente, que trocaram farpas pelas ruas
Texto e fotos Airton
Donizete
Fui
a Curitiba de carona num ônibus fretado por militantes que iriam à manifestação
em prol do ex-presidente Lula. Saímos de Maringá por volta da meia-noite e meia
de quarta-feira. Na entrada de Curitiba, parada na Polícia Rodoviária. Revista
das bolsas e interior do ônibus. Um passageiro portava uma máscara antigás. Os policiais ficaram na dúvida. Pode? Não pode? Após muita
confabulação e troca de informações pelo celular com superiores, liberaram o
equipamento. Afinal, se é algo destinado à proteção do indivíduo, então, pode,
não é?
Seguimos
até a rua Getúlio Vargas, em um terreno que fica entre a Rodoferroviária e o
estádio do Paraná Clube. Ali, militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra
(MST) levantaram um acampamento. O ônibus ficou lá. Segui a pé com um grupo até
a Praça Santos Andrade, no centro, onde havia uma manifestação pró-Lula,
organizada pela Frente Brasil Popular. Caveirão, helicóptero, snipers. Um gigantesco aparato de segurança. Pelo menos três mil homens entre policiais federais, militares, rodoviários federais, guardas municipais e agentes de trânsito de Curitiba espalhados pela capital do Estado.
Pelo caminho, até a Praça Santos Andrade, se revelava a tensão em torno do evento. Alguns motoristas os chamavam de vagabundos; outros gritavam o nome do juiz Sérgio Moro, que iria interrogar Lula. Havia também os que bradavam: - viva Lula!. A troca de insultos permaneceu por todo o percurso. O clima da rua refletia setores da mídia. A revista Veja da última semana traz Moro e Lula frente a frente na capa. Azul contra vermelho. O jornal Metro, edição de Curitiba, do dia do depoimento do petista, o estampa em vermelho na capa junto a Moro, de azul.
Pelo caminho, até a Praça Santos Andrade, se revelava a tensão em torno do evento. Alguns motoristas os chamavam de vagabundos; outros gritavam o nome do juiz Sérgio Moro, que iria interrogar Lula. Havia também os que bradavam: - viva Lula!. A troca de insultos permaneceu por todo o percurso. O clima da rua refletia setores da mídia. A revista Veja da última semana traz Moro e Lula frente a frente na capa. Azul contra vermelho. O jornal Metro, edição de Curitiba, do dia do depoimento do petista, o estampa em vermelho na capa junto a Moro, de azul.
O
movimento Curitiba Contra a Corrupção organizou um ato em frente ao Museu Oscar
Niemeyer, a cerca de um quilômetro do prédio da Justiça Federal, local do
interrogatório, e a três quilômetros da Praça Santos Andrade. Havia cerca de 300 manifestantes, mas o clima tenso
se espalhou pela cidade. Tomou conta das conversas. Em um ponto e outro era
possível ouvir discussões pró e contra Lula. O nível subia e descia. Alguns se
exasperam nos termos, resultando em bate bocas. Um menino que jogava bolinha
num semáforo discutiu com uma mulher.
A
senhora bem vestida dizia estar do lado de Lula. O menino falava que o
ex-presidente era culpado; ela retrucou: - foi o presidente que mais fez pelos
pobres -. Um senhor que passava por ali disse imaginar o contrário. - Ué, pensei que ela era contra o Lula -,
afirmou. Mais adiante, um homem gesticulava e esbraveja ao celular: - Esses
vagabundos, tudo vagabundos -, repetia. Não deu para ouvir, mas parecia se
referir aos manifestantes pró-Lula.
Do
alto de um prédio uma mulher rodopiava uma bandeira do Brasil. Não sei de que
lado ela estava, mas a julgar pelas cores. Entre os contra Lula havia muito amarelo.
Parei na Praça Santos Andrade. Pensei: - o que vou fazer na Justiça Federal?
Pensei. -Não estou credenciado; vou
ficar lá de longe fazendo o que? Melhor ficar aqui pelo centro mesmo -.
Perto
do almoço, subi pela Rua XV de Novembro. Umas três quadras pra frente deparei
com quatro manifestantes contrários a Lula. Eles disseram que foram à Justiça
Federal; voltaram para o almoço e, mais tarde, retornariam para acompanhar o
depoimento. Para eles, Lula não seria preso naquele dia. Eles acreditam que o processo
contra ele se prolongue. Não quiseram arriscar uma data para a conclusão do
episódio.
O
ato na Praça Santos Andrade se arrastou por nove horas. Com discurso de
políticos do PT e partidos aliados. Cantores se revezavam entre um intervalo e
outro. Destaque para os acordes de Pereira da Viola. Um mineiro de Teófilo
Otoni, no Vale do Mucuri, que tem uma maneira peculiar de pontear a viola. Toca
muito.
De
resto, sobrou o esperado pronunciamento de Lula. O depoimento dele à Justiça
Federal demorou cinco horas. Por volta das 20 horas, o líder petista chegou ao
local. A praça estava apinhada de gente. Segundo os organizadores da
manifestação, havia 50 mil pessoas vindas de várias partes do Paraná e do Brasil. A ex-presidente Dilma também veio. Antes dela,
falou Eduardo Suplicy, vereador mais votado de São Paulo na última eleição. Bastante
aplaudido.
Enfim,
Lula. “Estão cansados”? perguntava a locutora do evento. Eu estava, e muito.
Havia viajado quase a noite toda. O petista encerrou o discurso pedindo a
verdade e que provem do que o acusam.
-
Não quero ser julgado por interpretações; quero ser julgado por provas -,
disse, acrescentando: - Se um dia tiver que mentir pra vocês, eu quero que um
ônibus me atropele ali na rua -.
Ele
deixou o palco ovacionado pelos gritos: “Lula, guerreiro do povo brasileiro!”.
Eu me juntei ao grupo que me deu carona para esperar o ônibus e retornar a
Maringá. Chegamos por 5 horas da manhã. Que dia tenso! Sensação de final de
campeonato de futebol.
Apesar
da alta temperatura verbal na fria Curitiba, não houve incidentes entre
manifestantes. Apenas alguns rojões foram lançados contra os militantes do MST
acampados. Três barracas foram danificadas e duas pessoas tiveram ferimentos
leves.
FOTOS
Lula discursa na Praça Santos Andrade
Segundo organizadores, havia 50 mil no
ato em prol do ex-presidente da República
ato em prol do ex-presidente da República
Pereira da Viola, um dos artistas que se apresentaram no ato
Militantes vieram de várias partes do Paraná e do Brasil
Máscara antigás, pode ou não pode? Enfim, liberada
Policiais revistam ônibus que seguia para a manifestação, em Curitiba
Poucos compareceram à manifestação em apoio à Operação Lava Jato, no Museu Oscar Niemeyer (Foto: UOL)
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