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UM DRAMA SEM FIM


Família de Sarandi, cuja casa no Jardim Independência foi destruída por rompimento da rede municipal de abastecimento de água, espera há 17 anos por indenização da Prefeitura

(Texto e fotos Airton Donizete)




A especialidade deste Blog é retratar perfis e trajetórias humanas que rendam histórias interessantes. Mas histórias interessantes nem sempre são felizes. Às vezes, são trágicas. É o caso desta. Em 3 de setembro de 2000, o Brasil disputava um jogo das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002.
Naquele dia, o Brasil venceu a Bolívia por 5 X 0, mas a seleção quase ficou fora daquela Copa do Mundo, amargando um  terceiro lugar nas eliminatórias. No entanto, na disputa do torneio, na Coréia do Sul e Japão, se reabilitou, sagrando-se campeã mundial pela quinta vez.  
Seguindo o hábito de muitos brasileiros, uma família do Jardim Independência, de Sarandi, assistia ao confronto entre Brasil e Bolívia. No momento do jogo, que começou às 17 horas, a rede de abastecimento de água que chegava a casa deles, na Rua Marechal Teodoro, 2177, esquina com a Avenida Danilo Massuia, se rompeu.
Imaginando ser um problema comum, eles acionaram o Departamento Municipal de Água e Esgoto da Prefeitura de Sarandi (atual Águas de Sarandi – Serviço Municipal de Saneamento Ambiental). Funcionários do órgão desligaram a rede. No outro dia, os reparos seriam feitos, e o abastecimento normalizado.

Feliz com a vitória do Brasil, que dava início à sua recuperação nas eliminatórias, a família foi dormir por volta das 23 horas. Na madrugada do dia seguinte, Maria Áurea da Silva, 66, acordou com estalos estranhos. Não havia energia elétrica. Ao acender uma lanterna, ela percebeu que os rodapés das paredes internas da casa estavam se soltando.


“Após o problema, a família morou de favor em casa de parentes por cerca de três anos. Silva conta que sua avó Maria Aparecida Botega de Souza, que já estava doente, se abateu com o caso. A doença se agravou, e ela morreu em 2004”

Assustada, ela acordou o marido e os filhos. Eles passaram o restante da noite fora da casa e, após o dia amanhecer, acionaram o Departamento Municipal de Água e Esgoto e o Corpo de Bombeiros. A água jorrada pelo rompimento da tubulação religada infiltrara no solo, comprometendo a estrutura do imóvel.
Uma vistoria do Corpo de Bombeiro apontou que havia risco de desabamento. A constatação inicial, dias depois foi confirmada em laudo pela mesma instituição. Peritos particulares contratados pela família chegaram à mesma conclusão.
  Daí em diante, a família vive um drama interminável. O que seria apenas um problema na rede de abastecimento de água tornou-se um pesadelo que, em 2017, completa 17 anos.
A família procurou o então prefeito Júlio Bifon (1997-2000) na tentativa de resolver o problema. De acordo com Edson Caetano da Silva, 48, um dos quatros filhos de Maria e Aparecido Caetano da Silva, 63, Bifon propôs reparar os estragos com uma equipe da Prefeitura, mas ao verificar a gravidade da situação, a proposta não foi adiante.
O caso foi parar na Justiça.  Ele deixou a Prefeitura; Aparecido Farias Spada, o Cido Spada (2001-2008), assumiu o cargo. A esperança de resolver o problema se renovou. Ele era amigo da família.
- Fomos criados no mesmo bairro e, durante a campanha, ele se comprometeu a nos ajudar, mas não houve acordo – relata Silva.
Ele diz que Spada não fez proposta à família. De acordo com Silva, Milton Martini que o sucedeu, em 2009, não se envolveu com o caso porque teve uma gestão tumultuada. Em 2010, os vereadores o cassaram com base numa denúncia de abuso de poder econômico.
Em seu lugar assumiu o vice, Carlos Alberto de Paula Júnior. Silva diz que ele se dispôs a revolver o problema cedendo-lhes um terreno no valor do imóvel destruído. Segundo Silva, a família viu alguns terrenos ofertados pela Prefeitura, mas não chegaram a um acordo nos valores.
Carlos de Paula deixou a prefeitura no ano passado sem resolver o caso. A Justiça deu ganho de causa à família em Sarandi e no Tribunal de Justiça do Paraná.
Em 2016, o valor devido à família entrou em precatório. Não há prazo para que o pagamento seja efetuado. A casa danificada virou moradia de andarilhos e consumidores de drogas. A Prefeitura derrubou o que sobrara da construção. Para Silva, o valor do imóvel passa de R$ 180 mil.
Após o problema, a família morou de favor em casa de parentes por cerca de três anos. Silva conta que sua avó Maria Aparecida Botega de Souza, que já estava doente, se abateu com o caso. A doença se agravou, e ela morreu em 2004.
- Minha mãe não se recuperou mais e foi se definhando até morrer – completa a filha dela, Maria Áurea.
Os quatro filhos de Maria e Aparecido com ajuda de parentes compraram uma casa para o casal em outro bairro de Sarandi. A atitude da família se deu porque não há prazo para a Prefeitura pagar a indenização.
- Meus pais não podiam ficar sem onde morar – afirma Silva, que se diz decepcionado com a situação. Para ele, o caso é o retrato do Brasil. 
– Imagine o contrário, nós, pobres mortais, causando prejuízo à Prefeitura, ao Estado, à União. Estaríamos fritos, já teríamos sidos executados judicialmente, mas como somos a parte fraca, nada acontece com o outro lado -.
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Sarandi informou que a Prefeitura não tem como prever uma data para o pagamento à família. O pagamento em precatório será feito em 11 parcelas ao Tribunal de Justiça do Paraná, que repassará o dinheiro à família quando a Prefeitura quitar a última parcela.
Júlio Bifon, 75, na época do PSDB, disse que a Prefeitura propôs um valor de indenização à família, mas eles rejeitaram. Segundo ele, queriam um montante fora das condições do município.
- Eu não podia ceder porque depois poderia ser responsabilizado pelo Ministério Público - afirmou.
Cido Spada, 49, que era do PT, diz que a família não aceitou fazer um acordo conforme as condições financeiras do município, optando por seguir com a ação judicial.
- Obedecendo a princípios legais, a Prefeitura teve de recorrer da decisão, levando o caso a instâncias superiores. Infelizmente, o acordo não ocorreu – declarou.
Por várias vezes, tentamos falar com o ex-prefeito Carlos Alberto de Paula Júnior, mas não obtivemos resposta. Um número de celular, fornecido por Antônio Santos, âncora da Rádio Banda 1, de Sarandi, estava fora de área nas tentativas de contato.
Que o destino da família de Sarandi seja o mesmo da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2002. Nas eliminatórias jogou mal. Quase foi eliminada, mas se reabilitou na competição e conquistou o pentacampeonato mundial. 

Fotos
- A casa destruída no Jardim Independência de Sarandi

- Edson e a mãe dele, Maria Áurea, esperam, há 17 anos, pela indenização da Prefeitura

- Laudo do Corpo de Bombeiros apontou risco de desabamento; imóvel ficou impossibilitado para moradia






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